Brasil cria fertilizante que aumenta produtividade da soja

Pesquisa também contou com participação de pesquisadores da Alemanha: produto pode aumentar em até 10 vezes a biomassa da soja

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Brasil cria fertilizante que aumenta produtividade da soja
29deJunhode2022ás10:45

Cientistas brasileiros e da Alemanha desenvolveram uma nova classe de fertilizantes multifuncionais cujo carro-chefe é um produto à base de enxofre com capacidade para ampliar em até 10 vezes a biomassa da soja, quando comparado aos sistemas convencionais de adubação.

A descoberta utiliza o enxofre, rejeito da indústria do petróleo, para liberar uma fonte natural de fósforo denominada estrutiva, oriunda de resíduos urbanos. Por este motivo, o composto é chamado de “estruvita-polissulfeto (St/PS)”.

Além de sustentável, o novo fertilizante é de liberação controlada, o que permite a entrega gradual de nutrientes de forma mais compatível com os ciclos da cultura.

Porém, segundo os pesquisadores, e apesar do potencial como fertilizante ecologicamente correto, os efeitos do estruvita-polissulfeto nas plantas ainda são desconhecidos, e a dinâmica no sistema solo-planta necessita de mais estudos. 

Enxofre como ponto de partida

Conduzido pela química Stella Fortuna do Valle, como parte da pesquisa para obtenção do título de doutora em Química pela UFSCar, o estudo focou no desenvolvimento de um fertilizante em que a estrutura do enxofre elementar fosse mais acessível a microrganismos oxidantes  (por modificação química). 

Sob a orientação do pesquisador da Embrapa Instrumentação Caue Ribeiro, a pesquisa contou com estudo de campo realizada em parceria com o Instituto alemão Forschungszentrum Jülich e participação da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).

Durante o processo de desenvolvimento, os pesquisadores utilizaram polissulfeto, em técnica chamada de vulcanização inversa, permitindo uma nova matriz de fertilizante contendo o mineral estruvita (St) moído e disperso para criar o insumo

O polissulfeto é uma classe de compostos químicos que contém átomos de enxofre que fornece às plantas macronutrientes importantes para o crescimento delas – e que nem sempre estão disponíveis em solos agrícolas.

Na pesquisa, os polissulfetos, o enxofre elementar e  óleo de soja foram misturados na presença de estruvita moída e aquecidos em diversos processos. “Com a temperatura mantida acima de 165 graus, foi possível reagir o enxofre com as ligações insaturadas do óleo de soja até ser obtido um material de coloração marrom-clara”, explica Estela.

A partir dai, os fertilizantes foram produzidos com diferentes teores de cada componente e foi possível que os pesquisadores testassem diferentes configurações, criando a nova matriz.

Resultados apontam benefícios

Os resultados indicaram que a soja adubada com o composto apresentou maior desenvolvimento vegetativo, com maior presença de raízes mais finas e distribuição mais homogênea em todo o volume do substrato. 

Em experimento conduzido em condições controladas de casa de vegetação na Alemanha, entre maio e junho de 2020, Stella ainda observou que o comprimento total da raiz de soja ficou entre 200 e 400% maior para plantas sob compósitos estruvita-polissulfeto (St/PS) e em comparação às raízes sob tratamento com superfosfato triplo e sulfato de amônio. 

“Enquanto a eficiência de absorção de fósforo foi semelhante em todos os tratamentos fertilizados, entre 11 e 14%, o St/PS alcançou uma eficiência de absorção de 22% de enxofre contra apenas 8% do sulfato de amônio. No geral, os compósitos mostraram grande potencial como fertilizantes de liberação lenta eficientes para aumentar a produtividade da soja”, avalia a pesquisadora. 

Os pesquisadores concluíram que compósitos fertilizantes, com dinâmica de liberação controlada podem ser obtidos como alternativas sustentáveis à adubação com fósforo e enxofre.

 

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