Produtor de cana eleva índices de produção, mas amarga prejuízo

    Segundo a Faesp, cenário pode fazer agricultores rumarem para outras culturas

    Por |
    Dilema do produtor é exatamente continuar a vender a cana abaixo do custo. (foto - CNA)

    Dilema do produtor é exatamente continuar a vender a cana abaixo do custo. (foto - CNA)

    28deOutubrode2022ás15:13

    O desempenho do setor sucroenergético no Centro-Sul do Brasil deve aumentar em moagem, assim como na produção de açúcar e etanol. Os dados foram apresentados durante a 22ª Conferência Internacional sobre Açúcar e Etanol, realizada em São Paulo, nesta semana,

    Segundo as informações da Faesp, são esperados a moagem de 542 milhões de toneladas de cana (+3,6%), uma produção de 33,25 milhões de toneladas de açúcar (+3,7%) e 24,67 bilhões de litros de etanol (+2,5%).

    O evento também abordou a alteração da Lei do RenovaBio e os créditos de descarbonização (Cbios), o potencial do bagaço da cana para a produção do etanol de segunda geração (2G) e o uso do hidrogênio verde, produzido a partir do etanol, como combustível em veículos híbridos.

    Além dessas, outras inovações tiveram destaque como o plantio da cana por sementes sintéticas, que abrem perspectivas favoráveis para o setor no médio e longo prazos.

    Setor se volta do etanol para o açúcar ao longo do ano

    A safra brasileira de cana-de-açúcar 2022/23 no Centro-Sul, que começou com foco no etanol, a partir do meio da safra reverteu o mix para o açúcar devido aos preços mais atrativos do adoçante no mercado internacional.

    Ainda assim, por conta do tempo chuvoso, as usinas estão enfrentando dificuldades para maximizar a produção de açúcar neste momento, o que pode postergar a safra na região até março de 2023.

    Na avaliação de Cláudio Brisolara, gerente do Departamento Técnico e Econômico da Faesp, ficou claro que a conta dos fornecedores não está fechando. Com o aumento dos custos, os fornecedores estão com margem negativa.

    Operações no vermelho

    Os custos de produção levantados no Projeto Campo Futuro, patrocinado pela CNA e apoiado pela FAESP na região de Jaboticabal, por exemplo, estão estimados em R$ 203,00 por tonelada o custo total, bem abaixo do preço praticado no mercado pelas usinas, em torno de R$ 164,00 a tonelada de cana.

    Para Nelson Perez, da Comissão Nacional de Cana-de-açúcar da CNA, o dilema do produtor é exatamente continuar a vender a cana abaixo do custo de produção na próxima safra ou migrar as áreas de cultivo para outras culturas mais rentáveis, como a soja.

    “O risco disso acontecer e se agravar é muito grande porque atualmente o Consecana não está remunerando adequadamente o produtor pela cana entregue as usinas. Além da metodologia não contemplar várias outras receitas que o setor está tendo, as receitas do etanol e açúcar por si só repassadas estão desatualizadas”, disse.

    Segundo o executivo, os custos elevadíssimos no curto prazo e a não obrigatoriedade ainda de repasse pelas usinas dos valores arrecadados com a venda de Cbios pioram o quadro.

    “Para a safra do ano que vem, independente do que venha a acontecer com as políticas para o etanol no pós-eleições, as incertezas dos impostos federais sobre os combustíveis para 2023 e a expansão do etanol de milho devem continuar a pressionar o setor na direção de um mix açucareiro”, avaliou.

    Mercado do etanol

    Sobre o mercado do etanol, para Milton Sarto, as palestras apresentaram uma visão de futuro bastante interessante pela expectativa positiva de maior competitividade que poderão agregar ao combustível.

    “Chamou atenção os projetos das montadoras para o uso de motores híbridos movidos por hidrogênio, a partir do etanol, na frota de caminhões. A discussão de uma nova renegociação para o Cbios foi outro ponto bem recebido, mas que precisamos trabalhar fortemente junto as nossas lideranças políticas e parlamentares para sua plena efetivação e, principalmente, contemplar a participação dos produtores de cana nesse processo”, comentou.

    Temas nesta notícia