Abelhas vão à desforra para substituir pulverizadores
Insetos têm bioinsumos e bioengenharia como aliados para ganhar função também na proteção das lavouras

Abelhas podem se armar com bioinsumos para combater pragas, especialmente fungos, em dezenas de culturas. (foto - CNA)
As abelhas podem ter uma revanche histórica contra a pulverização de químicos por meio da combinação de inovações em bioinsumos e bioengenharia.
É o que indica a tecnologia chamada “bee vectoring” (em tradução livre, abelhas vetoras), já em uso para algumas culturas e foco de estudos em várias parte do mundo.
Basicamente, os insetos podem carregar defensivos biológicos direto às plantas, reduzindo ou dispensando o uso de maquinários ou mesmo drones e produtos químicos, para diversas culturas.
No entanto, para que isso tenha escala, é preciso os insumos corretos assim como, até mesmo, adaptações genéticas a fim de tornar as colmeias verdadeiros “porta-aviões” de abelhas contra dezenas de pragas.
Em todo caso, seria ironia o fato de que a aplicação de químicos com máquinas, aviões e outros pulverizadores agrícolas, apontada como um sério risco para a existência desses insetos quando feita de forma inadequada, pudesse estar sendo "contra-atacada" pela sua própria vítima com o reforço da ciência.
Afinal, segundo o Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade (GBIF, na sigla em inglês), 25% menos espécies foram registradas na comparação entre 2015 com antes de 1990.
Justo elas que são responsáveis pela polinização de 75% das espécies comestíveis de plantas. até mesmo da soja.
Exemplos de uso comercial das abelhas em "pulverização"
Além de produzir mel e fazer a polinização, elas já estão sendo usadas como vetoras de fungicidas, por exemplo, em culturas de amoras e framboesas nos Estados Unidos e morangos no Canadá. E com muitas vantagens em termos de precisão, custo e eficiência, sem falar, é claro, na sustentabilidade.
“O processo é chamado de vetorização de abelhas. Elas pegam pequenas partículas que contêm agentes de biocontrole quando saem de sua colméia e as disseminam para as plantações de flores”, diz a Dra. Sue Willis Chan, gerente do Projeto de Vetorização de Abelhas da Universidade de Guelph.
Em fase de testes, a técnica funciona para morangos, framboesas, maçãs, café, pepinos e, potencialmente, girassóis, canola e, potencialmente, em qualquer cultura de floração nas quais as abelhas façam polinização.
O conceito, trabalhado pela primeira vez na Universidade de Guelph, em Ontário, na década de 1990, é simples. Os agentes de biocontrole são diluídos em diluente em pó e colocados em dispensadores que, por sua vez, são encaixados nas colmeias.
As abelhas passam por eles quando saem das colmeias e o diluente se apega aos pelos do corpo, sendo carregados quando elas voam para coletar pólen ou néctar das flores.
Uma vez que eles pousam, o ativo se espalha para a flor para a proteção contra patógenos como o botrytis (mofo cinzento). Outros polinizadores podem então espalhá-lo ainda mais enquanto voam de flor em flor.
Os agentes de biocontrole funcionam muito bem em ambientes de estufa controlados, diz Willis Chan, mas é menos conhecido como eles funcionam ao ar livre, o que poderia habilitar a tecnologia para grandes áreas.
Muitas vantagens
A maior vantagem da vetorização de abelhas é sua simplicidade, pois trata-se apenas uma pequena variação do que os produtores que usam abelhas para polinização já fazem.
Os produtores relataram rendimentos 28 a 30% maiores em mirtilos porque o diâmetro nas plantas tratadas é 10 a 11% maior do que nos programas convencionais de pulverização.
Outra grande vantagem é que os produtos de biocontrole aplicados pelas abelhas têm um intervalo de reentrada zero (REI). Os trabalhadores podem estar no campo colhendo ou realizando outras tarefas enquanto as abelhas estão trabalhando.
Isso é muito significativo para os produtores de morango, que devem equilibrar continuamente a necessidade de ter trabalhadores no campo colhendo frutas em torno de REIs de 4 horas a 2 dias de produtos aplicados convencionalmente.
