CPI do MST: “nos usava como trabalhadores escravos”, diz ex-integrante
Parlamentares ouvirão hoje o governador de Goiás, Ronaldo Caiado
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As famílias que viviam no local eram usadas como massa de manobra pelos líderes do MST, afirmou a depoente. (foto - Câmara dos Deputados)
A CPI do MST ouviu, na sessão de ontem, uma ex-integrante do movimento e avança hoje, no período da tarde, com uma audiência com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado.
Nelcilene Reis, que morou em um acampamento do MST de 2016 a 2019, afirmou que as famílias que viviam no local eram usadas como massa de manobra pelos líderes do MST.
Ela disse ainda que os acampados trabalhavam para o MST sem remuneração e ainda eram punidos caso não obedecessem às normas do acampamento. Caso confirmada, a prática pode caracterizar trabalho análogo à escravidão.
“Quando a gente não fazia o que era determinado, a gente era expulso e se a gente resistisse, muitas vezes – não aconteceu comigo, mas eu presenciei a pessoa estar embaixo do barraco e eles derrubarem, a pessoa estava embaixo e tinha que sair”, afirmou.
Nelciliene disse que se desligou do MST por causa de divergências com a organização do acampamento. A partir daí, ela afirmou ter sido ameaçada de morte, tendo sobrevivido porque a polícia chegou a tempo de defendê-la e sua família.
Entenda o caso de Nelcilene
Em 2021, a Veja contou a história de Nelcilene e seu marido Ivan Xavier. Ela é presidente da Associação dos Produtores Rurais da Rota do Cavalo, que nasceu dentro do campamento do MST, Marias da Terra, a 20 quilômetros do Palácio do Planalto.

A ex-integrante contou que, quando integrava o MST, trabalhava das 8 às 17 horas no mercadinho do MST sem receber salário. O mercadinho, inclusive, serviu de combustível para a insatisfação com o movimento.
As famílias expulsaram os líderes do MST porque os preços cobrados eram escorchantes. Houve violência e apenas a PM pôde controlar a briga entre dissidentes e líderes do MST.
Na reportagem da Veja, Ivan Xavier diz que os produtos custavam até cinco vezes mais do que em mercearias localizadas em cidades próximas.
“O MST nos usava como trabalhadores escravos. Todos nós éramos obrigados a contribuir com dinheiro, não podíamos vender nada e não podíamos melhorar os barracos para parecermos mais miseráveis”, afirmou à revista.
Repercussão
O deputado Kim Kataguiri (União-SP) afirmou que a CPI precisa ouvir os dirigentes do acampamento, que, como foi descrito," representava um estado paralelo" com leis próprias, sem a atuação do poder público.
“Nós já temos aqui o indício de organização criminosa ou associação criminosa, um dos dois tipos penais, trabalho análogo à escravidão, extorsão, ameaça”, disse.
Já a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) criticou a atuação da presidência da CPI, que sugeriu que os convidados se ausentassem no meio da audiência, justamente quando os deputados do PT iniciaram suas perguntas.
“Vocês quiseram tirar as testemunhas na hora em que nós iriámos fazer as perguntas e que iriam aparecer as contradições porque os senhores querem apenas a sua própria versão, os senhores não estão querendo investigar, acusou a deputada.
Segundo ela, os deputados já estão determinados a criminalizar o MST e a reforma agrária e pediu que a audiência fosse anulada. "Aqui tem um jogo muito triste, um jogo que é agressivo e que não vai colaborar em nada para o Brasil”, disse.
Ronaldo Caiado
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, será ouvido a pedido do deputado Gustavo Gayer (PL-GO). "A presença do governador como convidado na CPI enriquecerá o debate já que o estado de Goiás não conta com nenhuma ocupação do MST".
Gayer afirma que Ronaldo Caiado participou de encontro da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) na semana passada em Brasília e comentou que em “território com força na agropecuária, não existem ocupações de terra por parte do MST."
Ainda segundo Gayer, Caiado disse que cabe ao governo do estado e às forças de segurança manterem a paz no campo.