Biodiversidade nativa fornece menos de 0,7% do alimento na mesa do brasileiro

    Segundo a USP, apenas 7 gramas a cada quilo de frutas, legumes e verduras no país são “locais”

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    O Brasil poderia "lançar" ao mercado uma nova fruta nativa por ano pelos próximos cinco séculos. (foto - divulgação)

    O Brasil poderia "lançar" ao mercado uma nova fruta nativa por ano pelos próximos cinco séculos. (foto - divulgação)

    21deJulhode2023ás10:07

    O Brasil tem 20% da biodiversidade do mundo, mas isso não se reflete nos alimentos que estão na mesa da população. De acordo com estudo da Universidade de São Paulo (USP), a quantidade de alimentos com origem "local" adquirida pelos brasileiros foi considerada baixa.

    A valorização e a expansão da monocultura em detrimento de pequenos agricultores é um dos elementos que explicam esse resultado, diz o artigo do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde.

    Segundo a publicação, os resultados “são insatisfatórios e abaixo do que se espera de um território biodiverso e de um sistema alimentar que é destaque mundial. É necessário um maior comprometimento para a promoção de ações que fortaleçam o consumo desses alimentos entre brasileiros”.

    De acordo com Anderson Lucas, um dos autores, o estudo tem como objetivo descrever a disponibilidade de alimentos nativos de cada estado do Brasil para a população. “Consideramos frutas, legumes e verduras da biodiversidade e o que a gente observou é que a disponibilidade desses alimentos é bem baixa”, disse.

    Baixo consumo

    Para ele, o consumo de frutas, legumes e verduras no Brasil já é baixo, mas, observando pela alimentação com itens da biodiversidade local, identificou-se uma quantidade menor ainda.

    “Isso se dá principalmente pela mudança do sistema alimentar global que favorece o cultivo de commodities, como milho e soja, que são base de alimentos ultraprocessados,” salientou.

    Por exemplo, o milho e o trigo, qeu tem origem em outras partes do mundo, são os cereais mais consumidos e produzidos do mundo.

     

    Lucas afirmou que sempre houve uma baixa aquisição de alimentos nativos no Brasil, mas, com a expansão da monocultura nos últimos anos, essa disponibilidade de alimentos da biodiversidade está caindo ainda mais.

    A disponibilidade total (gramas/per capita/dia) de alimentos correspondeu a uma média de 1.092 gramas. A média da disponibilidade de frutas, legumes e verduras no país é de 108,67g/per capita/dia, sendo que apenas 7,09g corresponde à parcela de alimentos de origem da biodiversidade local.

    Como biodiversidade local, os pesquisadores consideraram alimentos nativos do estado em que vive aquela pessoa. Os dados se referem a 38 alimentos nativos. Foi utilizada uma amostra com dados de aquisição de alimentos de 57.920 domicílios, coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017 a 2018.

    Frutas nativas

     

    Separadamente, o grupo das frutas corresponde a 56,7gramas/per capita/dia, sendo que apenas 5,89g é a parcela de itens da biodiversidade local. No caso das verduras e legumes, são 51,97gramas/per capita/dia, sendo que 1,20g são alimentos nativos.

    Por biomas, a caatinga apresentou a maior disponibilidade de frutas nativas na aquisição pela população (4,20g/per capita/dia), enquanto para legumes e verduras, a Amazônia se destacou (1,52g/per capita/dia).

    “Isso faz mal não só para a saúde do planeta como também da população, através de impactos ambientais, além de não valorizar a agricultura sustentável, só valorizar agricultura por meio monótono, que é utilizando muitos agrotóxicos e venenos”, opinou.

    Ele disse, ainda, que isso prejudica as culturas tradicionais no Brasil, porque esse tipo de alimento “nativo” faz parte de algumas comunidades de povos indígenas, além de agregarem também para agricultura familiar.

    O pesquisador sustentou que, sobre o consumo de frutas, legumes e verduras, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda quatrocentas gramas diárias desses alimentos em cinco ou mais dias da semana.

    Soluções

     

    Para o pesquisador, o primeiro ponto para uma mudança nessa realidade seria considerar a sazonalidade dos alimentos, valorizando aqueles cultivados em ambientes naturais e não em ambientes controlados, com uso de defensivos e fertilizantes, que, artificialmente, levam ao maior rendimento daquela cultura.

    Ele acrescentou que é preciso repassar tais alimentos com preço justo para a população.

    “Para isso, a gente tem que incentivar o cultivo desses alimentos, então é preciso criar feiras, espaço de troca de conhecimentos e dar apoio técnico aos agricultores e às comunidades que plantam e colhem alimentos da biodiversidade. A gente observou que alguns alimentos precisam de um trabalho muito manual para extração, por exemplo, o coco babaçu, que necessita ser quebrado para tirar a castanha que tem dentro dele para fazer leite da castanha de babaçu, além de farinhas e outras coisas”, disse.

    Em relação a introduzir os alimentos nativos na dieta da população, ele citou a possibilidade de inclusão na alimentação escolar, principalmente por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar, que adquire alimentos da agricultura familiar.

    “Colocar esses alimentos na alimentação escolar e [introduzir] o debate sobre alimentação nas escolas para ensinar as crianças desde cedo a escolher e consumir os alimentos nativos, além de identificar quais alimentos são nativos de cada região e começar um questionamento sobre a origem dos alimentos”, sugeriu.

    Origem esquecida

    Ele acrescentou que, por conta dos alimentos ultraprocessados, as pessoas acabam esquecendo a origem dos alimentos e que muitos não conhecem como é o alimento in natura, só sabem como é o pacote após ser processado. Nas cidades, há ainda maior distanciamento entre produção e população.

    “[É preciso] reaproximar a população através da produção dos alimentos, então a gente observa que a população agora vive em grande maioria na área urbana, então incentivar por meio de hortas comunitárias seria um bom exemplo para aumentar a disponibilidade desses alimentos nas áreas urbanas”, finalizou.

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