“Com irrigação, o produtor ganha uma nova fazenda na mesma área”, diz CEO da Netafim

    Ricardo Almeida constata também o aumento da fila de agricultores interessados na solução

    "A irrigação é a tecnologia que neutraliza o efeito do clima", destaca o CEO da Netafim, Ricardo Almeida

    "A irrigação é a tecnologia que neutraliza o efeito do clima", destaca o CEO da Netafim, Ricardo Almeida

    01deFevereirode2024ás13:35

    A irrigação, apesar de ser uma tecnologia consolidada, ainda representa uma grande “fronteira” a ser explorada pela agricultura no Brasil.

    O CEO da Netafim, Ricardo Almeida, vê um despertar do setor para o tema e constata o aumento da fila de produtores interessados.

    Não é para menos já que além de um “seguro estrutural”, o investimento em estruturas irrigantes pode se pagar em uma só safra, dependendo da cultura.

    Nesta temporada, inclusive, a demanda por soluções em irrigação ficou ainda mais evidente dadas às condições climáticas adversas em regiões produtoras com expectativa, inclusive, de quebra de safra histórica. 

    Segundo estimativas do mercado, a área irrigada no Brasil – hoje pouco menos de 10 milhões de hectares – poderá triplicar na próxima década e chegar à casa dos 30 milhões de hectares.

    Essa dimensão contribuiria para ter grande parte produção nacional “à prova de clima” não só por evitar quebras, como também para garantir mais produtividade em uma mesma área.

    “O produtor cria uma nova fazenda na área que já cultiva pelo incremento da produtividade, garantia de produção e de retorno em médio prazo. Para acelerar isso, há três caminhos, dois de estrutura e um financeiro”, comenta.

    Quer saber quais?

    A seguir, confira a íntegra da entrevista: 

    Agrofy News - A adoção da irrigação poderá evitar quebras de produção em escala nacional no futuro?

    Ricardo Almeida - Sim, por essência, pensando numa unidade de área, sem dúvida. A irrigação é a tecnologia que neutraliza o efeito do clima, seja ausência de chuva ou veranico. Enfim, à medida que ela ganha espaço, mais hectares vão estar segurados, evitando perdas como aconteceu nesta safra. Sem dúvida nenhuma sim. Para isso, falta ela ganhar escala e ocupar um espaço maior da área total cultivada.

    Agrofy News - Vocês são otimistas quanto ao crescimento da adoção de irrigação em escala no Brasil?

    Ricardo Almeida - Sim, existe um uma estimativa de chegar a 20 milhões de hectares. Isso já considerando a disponibilidade de água e de energia, já filtrados as reais possibilidades de ter energia e se ter outorga de água. Então é uma área bastante importante, comparada a que tem hoje. Isso seguramente vai estar viável no período de até 20 anos.

    Agrofy News - Ou seja, o Brasil iria mais ou menos triplicar a área irrigada atual?

    Ricardo Almeida - Exatamente, triplicar o que a gente tem hoje. Isso se denota de maneiras diferentes por cultivos. Então, lembrando que a área agrícola do Brasil usa 80 milhões de hectares, temos 60 milhões em grãos, 10 milhões em cana e outros 10 aí espalhado em várias culturas.

    Essas outras culturas, algumas delas, já tem um gradiente de irrigação percentual maior. Então a grande escala e o grande contribuidor para isso, possivelmente, será em grãos. Entende-se soja e milho.

    Agrofy News - Quais são os fatores necessários para acelerar isso?

    Ricardo Almeida - Acho que esse despertar passa por três caminhos, dois deles de estrutura e um financeiro. Em termos de estrutura, seria a continuidade da formação da rede elétrica. Ela já existe, mas é preciso chegar com a frequência e com a intensidade correta.

    O outro é aceleração das autorgas de água. A gente tem muita água de subsolo disponível e até mesmo oportunidade em rios, mas o processo de outorga ainda é um pouco moroso. Ele pode levar de meses até 2 ou 3 anos em alguma situação. O que é muito para um processo de investimento com a tomada de decisão.

    Já o terceiro elemento é o financeiro. E aí eu estaria falando de um real incentivo do governo, por meio do ProIrriga, tanto em recurso como em prazo. Cinco anos de prazo com dois anos de carência para que esse produtor possa ter o retorno e cumprir com seus compromissos.

    Agrofy News - A quebra de safra nesta temporada aumentou a busca por soluções em irrigação?

    Ricardo Almeida - Sim, a estiagem ou a ocorrência de fenômenos como El Niño já em meses anteriores ao plantio chamou atenção. Então tivemos problemas de plantio em função de déficit hídrico e agora as colheitas, que são recentes, de janeiro, mostrando essa quebra de produção.

    Então tudo é muito recente, mas sim se percebe um interesse maior para o tema. Não temos estatística, porque nós estamos falando de poucas semanas de conversas.

    Elas devem se estender ao longo do ano. Então sim, 2024 deve ser um ano onde um número muito maior de produtores até então não irrigantes vão buscar por informações por cotações por mecanismos de trabalho. Enfim como uma análise por seu investimento. E aí fica aquela equação: “bom, mas eu tenho uma quebra de sabre e vou fazer um investimento? Tenho a necessidade, mas não tenho dinheiro”.

    A irrigação é um investimento de médio e longo prazo. Então sempre esse produtor deve pensar no horizonte de uma década ou mais e seguramente fenômenos climáticos voltarão a ocorrer com as devidas variações. Então esse investimento se paga. Isso já é comprovado e o pensamento agricultor deve ser em tentar estabilizar o futuro que está por vir e garantir um aumento de produtividade.

    Agrofy News - As linhas de financiamento públicas estão cobrindo bem essa parte de estrutura de irrigação, Ricardo?

    Ricardo Almeida - Bom historicamente o investimento de irrigação é feito num híbrido entre uma parte de recursos próprios e uma parte por investimentos por parte do governo. Nesse último plano safra se diluíram os investimentos em irrigação.

    Então foi aportado um valor que foi diluído de agosto do ano passado a junho de 2024 e até o momento a gente tem um ritmo de liberações muito lento. Seguramente inferior a 50% do pacote anunciado, o que é muito pouco.

    Então a expectativa do segmento e nossa é que primeiro se entregue tudo que foi acordado e prometido dentro do primeiro semestre para neutralizar um pouco e acelerar o momento.

    O segundo é que já na metade do ano haja anúncio do novo plano safra com volume de recursos crescente porque os volumes ainda são bastante aquém, bastante inferiores ao demandado pelos produtores. A fila de produtores esperando por um financiamento é maior do que os recursos disponíveis.

    Há uma oportunidade para o governo aportar mais em um ponto socialmente correto. Irrigação é empoderamento do agricultor. Vai resultar em mais produção, mais arrecadação, mais renda, mais emprego.

    Agrofy News - A fila por financiamento em irrigação está crescendo?

    Ricardo Almeida - Está crescendo. Nesses anos recentes pós-pandemia, tivemos o maior número de novos irrigantes da história do Brasil dos últimos 30 anos. Isso é um sinal claro de que, no momento que houve um momento de capitalização, o produtor despertou para essa tecnologia. E isso não vai parar ainda mais agora com essa com esse alerta dado pela seca da última safra.

    Agrofy News - Qual comparação é possível entre um produtor irrigado e um não irrigante quanto a produtividade e retorno do investimento?

    Ricardo Almeida - A Netafim atende é uma gama muito grande de produtores do pequeno ao grande e numa variedade muito grande de culturas, desde aquele tradicional horticultura ao redor dos grandes cinturões aí do Brasil, passando por café, cana-de-açúcar, laranja, algumas fruticulturas de exportação, como a uva lá do Nordeste, e mais recentemente em grãos. Então a resposta é sim de forma muito evidente.

    Para algumas culturas, ela viabiliza a própria atividade, ou seja, sem irrigação não se colhe. Para outras culturas é como café ela aporta, facilmente, 20%, 30% até 50% de incremento em sacas de café por hectare comparando irrigado versus não irrigado. Em laranja, ela garante uma floração e também aumentando a produção. Há um aumento de produtividade, um delta, que mostra o retorno do investimento de uma safra no caso de HF, duas ou três no caso de café e cinco ou seis safras no caso de cana e grãos.

    Então existe um retorno, um payback, num tempo bastante adequado da irrigação. 

    Agrofy News - Como essa análise se aplica na soja?

    Ricardo Almeida - No caso de grãos, de 4 a 6 safras. Ou seja, considerando que se faz pelo menos duas em uma mesma área por ano isso pode se pagar em dois anos. Mas vamos falar em quatro a cinco anos.

    A soja tem duas safras por ano ou três. Ocorre que como a primeira safra, normalmente, tem chuvas. Então a irrigação entra complementar nesse momento. Já, na segunda safra, ela já entra numa maneira mais efetiva e na terceira não planta sem ela em anos atípicos.

    Ou seja, ela já tem um papel de protagonista já na safra verão de uma maneira muito forte. Então a gente tem hoje produtores de área irrigada colhendo nesse momento 80 sacas e vizinhos 30 sacas, que não paga nem custo de produção. Então essa é uma realidade.

    Agrofy News - Quais são essas tecnologias de irrigação, quais são as novidades?

    Ricardo Almeida - A gente tem toda a melhora dos produtos tradicionais, desde condutores, emissores de água e uma potencialização maior de sensores e de controladores digitais. Então, existe todo tipo de controlador para pequenos, médios e grandes produtores.

    A ausência de pessoas hoje no campo faz com que o produtor deseje sistemas automatizados. Então toda a irrigação ela pode e até deve ser feita através de sensores que medem a real necessidade do campo até a transpiração. Ou seja, a necessidade de se ligar para aquele campo, naquele dia, naquela semana, naquele momento conforme a demanda da cultura e o clima vigente.

    Então tudo isso hoje já é bastante possível e está sendo adotado junto nos novos pacotes que não eram comuns lá no passado. Quando a ligação começou eram sistemas mais manual, com pressurização, com controles com mais gente envolvida.

    Hoje ele tá bastante automatizado. Essa tendência deve seguir e tudo que for possível agregar e sobretudo obter sinergias. Porque uma fazenda não é só irrigação, ele tem maquinários, ele tem uma série de elementos e quanto mais as coisas “se falam”, melhor o controle e essa sinergia.

    Agrofy News - Isso deve se refletir tanto em produtividade quanto em economia, não?

    Ricardo Almeida - Sim, uma vez que os principais produtores hoje exercem um controle de custos é muito grande e muito rigoroso, automação permite isso. Você tem dados para gerir e obter a melhor eficiência possível.

    Já diria o nosso professor que o que não se mede não se gerencia. Então gestão começa com dados e esses dados são obtidos através das ferramentas eletrônicas.

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