Discurso de posse de Trump revela quatro pontos críticos para o agro brasileiro
Apenas a disputa com a China poderia ser favorável, outras três promessas do novo presidente trariam prejuízo
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O discurso de posse do 47o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trouxe mais detalhes sobre as medidas com efeito direto sobre o agronegócio brasileiro.
Momento seguido, diversas análises de especialistas surgiram para tentar dimensionar as possíveis consequências do agora mandatário da principal potência econômica e militar do planeta em seu segundo mandato.
Talvez os três principais tópicos em relação ao agronegócio tenham sido:
- a confirmação de maior taxação a produtos estrangeiros,
- o fim de importantes políticas ambientais,
- a promessa de retomar o Canal do Panamá,
- e aspiração de expandir o território estadunidense.
Oportunidade na China, mas...
A medida mais alardeada é o aumento da tarifa de importação contra a China.
Durante seu primeiro mandato, Trump implementou tarifas significativas sobre produtos chineses, desencadeando uma guerra comercial que levou a China a buscar fornecedores alternativos, incluindo o Brasil.
No primeiro discurso do novo mandato, Trump confirmou as expectativas e sinalizou que tensões comerciais semelhantes devem ressurgir.
Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, destaca que qualquer intensificação nas disputas comerciais entre Estados Unidos e China pode abrir espaço para novos aumentos
Brasil e os Estados Unidos competem como os maiores exportadores globais de commodities agrícolas, entre elas ainda soja, milho e carnes.
Prejuízo nos Estados Unidos
Por outro lado, a diretora de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Sueme Mori, explica que a postura protecionista dos EUA pode afetar o comércio entre os dois países.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), os Estados Unidos possuem 307 mercados abertos para produtos brasileiros, de diversos tipos, e é o segundo maior comprador, com embarques de US$ 12,1 bilhões (+23,1%) em 2024.
A participação norte-americana nas exportações do agronegócio brasileiro aumentaram de 5,9% para 7,4% em um ano.
Os principais produtos exportados aos Estados Unidos foram café verde, celulose, carne bovina in natura e suco de laranja.
Fim do New Green Deal
No discurso, Trump reafirmou o desmantelamento de políticas como o "Green New Deal" que visava a neutralização de emissões de poluentes e isso pode afetar o agronegócio brasileiro.
Com os Estados Unidos priorizando combustíveis fósseis em detrimento de energias renováveis, há uma tendência de enfraquecimento das políticas de transição energética ao redor do mundo.
Em seu discurso, Trump declarou uma "emergência energética", com planos de reativar a extração de hidrocarbonetos e rejeitar o Acordo Climático de Paris.
Além disso, anunciou a intenção de impor tarifas significativas sobre as importações para proteger a indústria energética doméstica.
Isso pode impactar negativamente setores como o de biocombustíveis no Brasil, que vinham ganhando espaço no mercado internacional.
Controle do Canal do Panamá
Trump expressou a intenção de os Estados Unidos retomarem o controle do Canal do Panamá, alegando que "o propósito de nosso acordo e o espírito de nosso tratado foram totalmente violados”.
Atualmente, o canal é responsável pela passagem de aproximadamente 13 mil a 14 mil navios anualmente, representando cerca de 2,5% do tráfego marítimo mundial e cerca de 6% do comércio global.
Para o agronegócio brasileiro, qualquer instabilidade na administração do canal pode afetar as rotas de exportação, especialmente para mercados na Ásia e na costa oeste dos Estados Unidos, aumentando custos logísticos e tempos de entrega.
Além disso, a mera especulação sobre um confronto pelo controle do Canal poderia gerar grande instabilidade no mercado global, com consequências até certo ponto imprevisíveis.
Expansionismo
Além do Canal do Panamá, Trump mencionou a intenção de "reclamar o controle do Canal do Panamá" e sugeriu a possível anexação de territórios como a Groenlândia e o Canadá.
No caso da Groenlândia, isso poderia gerar atritos tanto com a Rússia como com a China.
Embora essas declarações possam ser vistas como retórica política, elas indicam uma postura mais agressiva de Trump em questões territoriais e comerciais.
Para o agronegócio brasileiro, tal postura pode resultar em mudanças nas relações comerciais e na geopolítica agrícola, exigindo adaptações estratégicas por parte dos exportadores brasileiros.