Copom eleva Selic para 14,25% ao ano e sinaliza novo ajuste em maio

    Preço dos alimentos e incertezas globais influenciaram decisão

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    Banco Central alertou para o risco de persistência da inflação de serviços e reafirmou que seguirá monitorando a política fiscal do governo. (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

    Banco Central alertou para o risco de persistência da inflação de serviços e reafirmou que seguirá monitorando a política fiscal do governo. (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

    20deMarçode2025ás09:09

    O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou a taxa Selic em 1 ponto percentual, fixando-a em 14,25% ao ano.

    O novo patamar, o mais alto desde outubro de 2016, iguala-se ao registrado durante a crise do impeachment de Dilma Rousseff.

    A decisão foi unânime e já era esperada pelo mercado financeiro diante da alta nos preços de alimentos e energia, além das incertezas no cenário econômico global. O Copom indicou que pode elevar a Selic novamente na reunião de maio, embora em ritmo menor.

    Em comunicado, o Copom destacou que as incertezas externas, especialmente ligadas à política comercial, aumentam a imprevisibilidade sobre a postura do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos. No Brasil, a economia segue aquecida, mas com sinais de desaceleração.

    A inflação continua elevada, tanto no índice geral quanto nos núcleos (que excluem preços mais voláteis, como alimentos e energia).

    O Banco Central alertou para o risco de persistência da inflação de serviços e reafirmou que seguirá monitorando a política fiscal do governo.

    “O comitê segue acompanhando como os desdobramentos da política fiscal impactam a política monetária e os ativos financeiros. A percepção dos agentes econômicos sobre o regime fiscal e a sustentabilidade da dívida segue influenciando os preços dos ativos e as expectativas do mercado”, destacou o comunicado.

    Apesar de confirmar um novo aumento da Selic em maio, o Copom não indicou qual será sua postura após essa reunião. O Banco Central reafirmou que a magnitude do ciclo de alta dos juros dependerá da evolução da inflação e do compromisso com a meta.

    Selic no maior patamar em quase uma década

    A alta da Selic marca o quinto aumento consecutivo e consolida um ciclo de aperto monetário. Desde setembro do ano passado, a taxa subiu de 10,5% para 14,25%, com sucessivas elevações.

    A Selic é o principal instrumento do Banco Central para conter a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em fevereiro, o IPCA avançou 1,48%, pressionado pelo fim do bônus de Itaipu sobre a conta de luz e pelo aumento nos preços dos alimentos.

    Nos últimos 12 meses, o índice acumula alta de 4,87%, superando o teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

    O novo sistema de meta contínua permite que a inflação seja monitorada mês a mês, considerando a variação acumulada em 12 meses.

    Em março de 2025, por exemplo, a inflação desde abril de 2024 será comparada com a meta e o intervalo de tolerância. Esse monitoramento ocorre de forma contínua ao longo do ano, substituindo a análise restrita ao índice fechado de dezembro.

    No último Relatório de Inflação, divulgado em dezembro, o Banco Central projetou que o IPCA fechará 2025 em 4,5%, mas essa estimativa pode ser revista dependendo do comportamento do câmbio e da inflação. O próximo relatório será publicado no fim de março.

    As projeções do mercado são mais pessimistas. Segundo o boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras, a inflação oficial deve encerrar o ano em 5,66%, acima do teto da meta. Há um mês, a estimativa era de 5,6%.

    O Copom atualizou suas expectativas e agora prevê que o IPCA atinja 5,1% em 2025 e 3,9% no acumulado de 12 meses até o terceiro trimestre de 2026. Na reunião anterior, de janeiro, a projeção era de 5,2% para 2025 e 4% para 2026.

    Crédito mais caro e impacto no crescimento

    A elevação da Selic encarece o crédito, o que ajuda a conter a inflação, mas também desacelera o consumo e a produção. Esse efeito pode frear o crescimento da economia nos próximos meses.

    No último Relatório de Inflação, o Banco Central elevou sua projeção de crescimento do PIB para 2,1% em 2025. Já o mercado financeiro estima um avanço um pouco menor, de 1,99%, conforme o boletim Focus.

    A taxa básica de juros serve de referência para todas as demais taxas da economia, impactando o custo do crédito e a atratividade dos investimentos.

    Quando a Selic sobe, o Banco Central busca desestimular o consumo e segurar a pressão inflacionária. Quando reduz os juros, incentiva o crédito e o consumo, mas precisa garantir que a inflação esteja sob controle. 

    Setor produtivo critica juros altos

    Entidades da indústria, do comércio e centrais sindicais criticaram a decisão do Copom, alertando para os impactos negativos da Selic elevada na recuperação econômica, no emprego e no consumo.

    A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que o Banco Central desconsiderou fatores que poderiam contribuir para a redução da inflação, como a valorização do real e a queda no preço do petróleo.

    “O dólar, que fechou 2024 a R$ 6,19, caiu para R$ 5,68 em 18 de março de 2025. Além disso, o barril de petróleo Brent recuou de US$ 85, em outubro de 2024, para cerca de US$ 70 em março de 2025”, destacou a CNI.

    A Associação Paulista de Supermercados (Apas) pediu mais “parcimônia” na condução da política monetária, alertando para os impactos negativos sobre os investimentos e a competitividade do país.

    “O Brasil já possui uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Com a nova alta da Selic, fica ainda mais difícil estimular investimentos e manter o país competitivo no cenário internacional. Além disso, os efeitos sobre o emprego e o consumo das famílias são preocupantes”, declarou a entidade.

    A Associação Comercial de São Paulo (ACSP), por sua vez, avaliou que a decisão do Copom estava dentro das expectativas do mercado financeiro, mas reforçou que a alta dos juros continuará enquanto os gastos públicos permanecerem elevados. 

    Haddad comenta decisão do Copom

    O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o aumento da Selic já era previsto desde o fim de 2024 e que o Banco Central apenas seguiu o plano indicado pelo presidente da instituição, Gabriel Galípolo.

    “Esse aumento [dos juros] já tinha um guidance no final do ano passado. O presidente do Banco Central deixou claro em entrevista coletiva que esse direcionamento seria seguido”, disse Haddad ao deixar o ministério.

    O termo "guidance" é usado no mercado financeiro para indicar a direção futura da política monetária.

    Na última reunião do Copom sob a gestão de Roberto Campos Neto, em dezembro, o Banco Central já havia sinalizado que faria duas elevações de 1 ponto percentual na Selic em janeiro e março. Essa indicação foi reforçada no comunicado e na ata do encontro.

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