África do Sul revela arsenal contra greening, mas admite: “bomba relógio"

    Conheça as ferramentas que mantém o psilídeo fora do país africano ao menos até agora

    África do Sul revela arsenal contra greening, mas admite: “bomba relógio"
    25deMarçode2025ás16:47

    “Nos sentimos em cima de uma bomba relógio”, resume o Piet Smit, CEO do Komati Fruits, um dos maiores produtores de laranja da África do Sul. Ele se refere à aproximação do greening asiático em direção às fronteiras sul-africanas.

    O país, que ainda não registra oficialmente casos da doença (cujo nome científico é HLB), acompanha com apreensão o avanço do vetor transmissor - o psilídeo (Diaphorina citri) - pelo continente.

    Para evitar o “estouro’, produtores, governo, academia e agtechs desenvolveram um verdadeiro arsenal. No caso do Komati Fruits, o prejuízo poderia ser enorme. São 5 mil hectares de citros, de um total de 10 mil hectares. 

    A situação tem um claro paralelo com o que está ocorrendo no Brasil ou marcou a história da indústria da Flórida, nos Estados Unidos, onde o greening prejudica milhares de hectares e reduz drasticamente a produtividade dos pomares de laranja.

    A África do Sul, atualmente, é uma grande produtora de citros com produção estimada em cerca de 1,69 milhão de toneladas de laranjas na safra atual, com exportação a dezenas de países em todos os continentes.

    piet komati

    O Brasil, por outro lado, enfrenta uma redução histórica, com a produção projetada em 9,48 milhões de toneladas (232,38 milhões de caixas de 40,8 kg) para 2024/2025, a menor desde o final dos anos 1980.

    No caso sul-africano, no entanto, “basta” evitar a chegada e a disseminação do inseto. Vários esforços estão sendo feitos: desde uma mega rede de monitoramento por toda a África, passando por multiplicação de mudas sãs, até estratégias de manejo integrado.

    Rede de monitoramento

    Segundo Herman vd Westhuisen, engenheiro agrônomo do Mahela Group, o monitoramento preventivo é uma das principais estratégias adotadas pela África do Sul.

    Em parceria com o Citrus Research International (CRI), uma rede de armadilhas com milhares de quilômetros foi instalada desde o Chifre da África em países como Quênia e Etiópia até Egito e Moçambique.

    "O objetivo é monitorar e combater ou retardar a aproximação do psilídeo, vetor do greening asiático, que está avançando rumo ao sul do continente", afirma Westhuisen.

    Apesar de ainda não confirmada a presença do vírus, Westhuisen enfatiza que a chegada do greening é apenas uma questão de tempo. "Quando chegará, não sabemos, mas em algum momento isso vai acontecer", destaca.

    armadilha psilideo

    Já Braam Ehlers, engenheiro agrônomo do grupo Komati, explica que já há dois tipos distintos de greening na região: o africano nativo, presente em áreas altas e frias, e a ameaça iminente do greening asiático (HLB).

    “Embora ainda não tenha chegado à África do Sul, testes indicam que o vetor do greening asiático já está presente no leste da África, especialmente em Quênia, Tanzânia, Etiópia, Madagascar e Moçambique, justamente em nossa fronteira ao Norte”, explica.

    Para ele, a movimentação constante de pessoas, veículos e caminhões torna difícil garantir a eficácia dos controles portuários e fronteiriços. "Dependemos do governo para executar controles eficazes, mas a infraestrutura precária diminui nossa confiança nessas ações preventivas”, constata.

    Mudas sãs

    Como principal arma contra o avanço do greening, o grupo Komati aposta na produção de mudas 100% livres de vírus e patógenos. "Garantimos que nossos materiais de enxertia e viveiros sejam certificados internacionalmente, livres de doenças", detalha Ehlers.

    Além disso, há uma preocupação estratégica em combinar adequadamente porta-enxertos, tipos de solo e regiões de plantio. "Uma árvore plantada no local errado fica imediatamente mais vulnerável ao greening", observa.

    Ainda segundo Ehlers, as mudas jovens apresentam maior risco nos primeiros três anos após o plantio, período em que estão mais suscetíveis ao vetor.

    "Nesse período, o crescimento é rápido, as folhas são macias e o sistema radicular ainda é frágil. É fundamental cuidar dessa fase inicial para garantir árvores fortes e resistentes no futuro", enfatiza.

    Para ele, o setor citrícola sul-africano mantém interesse em estreitar laços com o Brasil, país que já enfrenta uma mudança estrutural significativa devido ao greening.

    braam komati

    Ehlers ressalta o movimento dos produtores brasileiros, especialmente em São Paulo, migrando para Mato Grosso do Sul e Minas Gerais para fugir do greening.

    "Existe uma oportunidade significativa para atendermos essa demanda, desde que as mudas sejam adequadas ao ambiente brasileiro", acredita.

    Manejo integrado

    Outra ferramenta em potencial é o uso de controle biológico com insetos benéficos, como o lacewing, embora ainda não exista uma solução eficaz comprovada contra o psilídeo do greening.

    "Sim, podemos pulverizar, mas quanto podemos pulverizar e quão eficaz será? Qual será o impacto econômico disso? Não podemos pulverizar tudo e simplesmente nos tirar do mercado", pondera o agrônomo.

    De acordo com Braam, a incerteza aumenta a necessidade de aprendizado com outros países que já enfrentam a doença, como o Brasil.

    "Quanto mais você pulveriza, mais inimigos naturais você retira do campo. Ao usar um sistema integrado e reduzir produtos químicos, veremos alguns desses inimigos naturais voltando naturalmente", alerta.

    Segundo Nadine Botha, técnica sênior da agtech Insectec, o lacewing ou "crisopídeo" já é conhecido no Brasil. De fato, seis variedades deste microbiológico são identificadas no Brasil.

    nadine

    Também chamados “bicho-lixeiro”ou “crisopa”, eles são utilizados no controle biológico de pragas agrícolas, principalmente devido à sua eficiência predatória contra pulgões, psilídeos (como o transmissor do greening), cochonilhas e outras pragas comuns na citricultura.

    Apesar disso, a observação a campo revela que tias inimigos naturais apenas mitigam a multiplicação do psilídeo, o que é insuficiente para “salvar os laranjais”.

    No entanto, tanto Westhuisen quanto Ehlers concordam que o caminho passa pela integração de diferentes métodos, reduzindo o uso excessivo de químicos e estimulando o retorno natural de inimigos biológicos.

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