Cacau avança em SP e fortalece nova frente do agro paulista
Cultivo se expande em 38 municípios com apoio técnico, turismo rural e produção de chocolates artesanais
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Conhecido por se destacar na produção nacional de culturas como cana-de-açúcar, laranja e café, o agro paulista agora investe em um novo nicho de mercado: o cacau.
Com 60 propriedades em 38 municípios já cultivando a fruta, o estado começa a consolidar uma cadeia produtiva própria, impulsionada pelo Programa Cacau SP.
A iniciativa aposta em cultivares adaptadas ao clima paulista e mira desde a geração de renda com agricultura familiar até a produção de chocolates artesanais e o turismo rural.
Os clones de cacau CCN51, PS1319 e BN34, bem adaptados às condições climáticas de São Paulo, vêm apresentando alto potencial produtivo.
Essas cultivares fazem parte do Programa Cacau SP, desenvolvido pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA), por meio da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e a Apta Regional.
O programa tem atraído produtores rurais, especialmente na região de São José do Rio Preto, e vem ganhando força como alternativa viável para diversificação da produção e aumento da rentabilidade no campo.
Do grão ao chocolate — e ao turismo
Para o produtor Diego Francisco Ferreira da Silva, de Mendonça (SP), o cacau surgiu como oportunidade durante a pandemia, quando se envolveu mais ativamente nas atividades da propriedade familiar. Em 2021, a família ainda se dedicava à produção de silagem, leite e grãos.
Com incentivo dos técnicos da CATI, Diego iniciou um projeto piloto com cacau em 2024, plantando mil mudas em um hectare, consorciadas com bananeiras.
“O sistema se mostrava vantajoso, pois teríamos renda já nos primeiros anos e agregava valor numa cultura promissora”, explica. Hoje, a propriedade, batizada de Rancho do Cacau, expande a plantação para dois hectares e já desenvolve um projeto voltado à produção de chocolates.

Além do cultivo, a família também aposta no turismo rural e na educação ambiental. “Queremos divulgar a cultura do cacau, desenvolver experimentos e dados científicos, sempre com base na agricultura familiar”, afirma Diego.
Cacau paulista atrai produtores de outros estados
O avanço do cacau no interior paulista também despertou o interesse de produtores de fora do estado. Joilson dos Santos de Jesus, técnico agrícola e produtor vindo de Igrapiúna (BA), se surpreendeu com as condições encontradas na região de Rio Preto.
Já a empresária Renata Martucci, de Jaboticabal (SP), deixou de importar matéria-prima de Ilhéus (BA) após conhecer o programa estadual.
“A proximidade com os produtores encurta distâncias e resolve gargalos de fornecimento”, afirma Renata, que adota o modelo bean to bar e produz chocolates artesanais, sustentáveis e sem aditivos artificiais.
Expansão e apoio técnico
Segundo Fernando Miqueletti, diretor da CATI em Rio Preto, as 60 propriedades cadastradas no programa estão distribuídas em 38 municípios, incluindo regiões como Andradina, Araraquara, Campinas, Limeira, Marília, Piracicaba, Presidente Prudente, Ribeirão Preto, São João da Boa Vista e Votuporanga.
“O programa vem ganhando capilaridade e mostra uma evolução significativa na adoção da cultura em diferentes regiões do estado”, afirma.
De acordo com Fioravante Stucchi Neto, assistente agropecuário da CATI, o cacau começa a produzir entre três e cinco anos. “Em áreas de plantio experimental, já colhemos de dois a três mil quilos por hectare — bem acima da média nacional, que é de 350 quilos”, explica.
A CATI também atua na capacitação dos produtores no pós-colheita, incluindo técnicas de fermentação, secagem e torra das amêndoas.
O objetivo é permitir que o agricultor produza o chocolate ou derivados, como farinhas, chás e achocolatados. Em Mendonça, por exemplo, produtores de cacau já abastecem 50% das escolas do município com produtos derivados da fruta.
Infraestrutura e mudas de qualidade
Para apoiar o processamento, foi implantada em Mendonça uma unidade de manejo e processamento com descascador, torrador e moedor, disponíveis aos produtores.
A CATI também oferece cursos gratuitos, orientação técnica e suporte para implantação da cultura com base em práticas sustentáveis.
Outro avanço importante foi a estruturação de um viveiro em Pederneiras, com capacidade anual para produzir 100 mil mudas de cacau — de estaca, enxertia ou micropropagadas.
A ação resolve um gargalo histórico da cadeia produtiva: a dificuldade de acesso a mudas de qualidade. A CATI Sementes e Mudas também oferece orientação a viveiristas interessados em iniciar a produção em suas regiões.