Sem novos casos há 33 dias, Brasil já pode se declarar livre gripe aviária em granjas comerciais
Declaração oficial deve embasar ofensiva do Brasil para reabrir mercados estratégicos da carne de frango

Após a confirmação da influenza aviária, todas as 540 propriedades cadastradas dentro do perímetro do foco foram vistoriadas - (Foto: Jonas Fernandes/ Seapi)
O Brasil deve se autodeclarar livre de gripe aviária em granjas comerciais nesta quarta-feira (18), após cumprir 33 dias sem o registro de novos focos da doença em unidades produtivas.
O marco representa o encerramento do chamado “vazio sanitário” — período de monitoramento intensivo iniciado em 22 de maio, logo após a desinfecção da granja de Montenegro (RS), onde foi confirmado o primeiro e único caso em plantel comercial.
A declaração será formalizada junto à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que já considera atendidos todos os requisitos internacionais para a retomada do status sanitário.
A expectativa é de que, com o reconhecimento oficial, países que mantêm embargos totais ou parciais à carne de frango brasileira comecem a revisar suas decisões, embora a liberação não deva ocorrer de forma automática.
Ações de contenção no Rio Grande do Sul
A ocorrência do foco em Montenegro, confirmada em 15 de maio, mobilizou uma força-tarefa estadual e federal para conter a disseminação do vírus H5N1.
O Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul (DDA/Seapi) coordenou uma série de ações rigorosas: barreiras sanitárias abordaram mais de 4 mil veículos, cerca de 2 mil visitas foram feitas a propriedades no raio de 10 km e mais de 540 granjas foram inspecionadas.
Segundo a diretora do DDA, Rosane Collares, a vigilância foi permanente e orientada por dados.
“O encerramento da quarentena sem novos focos demonstra a eficiência do sistema de defesa sanitária e o compromisso com a saúde animal e pública”, afirmou. A plataforma PDSA-RS foi usada para coordenar a resposta em tempo real, otimizando as decisões de campo.

Além da resposta direta ao foco, o Estado reforçou a vigilância passiva em toda sua avicultura. Desde 2022, já foram realizadas 539 investigações clínicas. Após o foco em Montenegro, 30 novos casos suspeitos foram atendidos, com coletas em 17 deles.
Apenas uma dessas amostras resultou positiva para o vírus — em um João-de-Barro silvestre, nas imediações da granja.
Para o secretário estadual da Agricultura, Edivilson Brum, o esforço conjunto entre esferas de governo e setor produtivo foi determinante. “Cumprimos todas as etapas previstas nos protocolos sanitários para que o Brasil possa se autodeclarar como país livre de influenza novamente”, afirmou.
Setor defende regionalização nas barreiras
Embora mais de 40 países tenham imposto algum tipo de restrição à carne de frango brasileira desde maio, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, vê no encerramento do vazio sanitário um ponto de virada.
“A gripe aviária chegou pela primeira vez à produção comercial no Brasil, mas a contenção foi rápida e eficiente. Isso mostra a maturidade e a robustez dos nossos sistemas público e privado”, disse em entrevista ao Agro Estadão.
Santin também reforçou a importância da regionalização das barreiras comerciais. Segundo ele, mais de 120 países mantiveram o mercado aberto ao Brasil mesmo após o foco em Montenegro.
Países como o Japão mantêm restrições baseadas em casos de gripe aviária em aves de fundo de quintal. O governo japonês suspendeu na última terça-feira (17) as importações de carne de frango, ovos e derivados provenientes de Campinápolis (MT) e Santo Antônio da Barra (GO), após a confirmação de focos em aves de subsistência.
A medida, publicada pelo Ministério da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão (MAFF), contraria a orientação da OMSA, que não recomenda embargos em casos fora da cadeia produtiva comercial.
A decisão do Japão é até o momento a única do tipo, com base em ocorrências domésticas, e preocupa o setor pela possibilidade de criação de precedentes.
Para a ABPA, esse tipo de reação reforça a necessidade de uma atuação diplomática firme, com dados técnicos e padronização nas respostas sanitárias.
A associação também atua de forma proativa para reverter embargos em mercados estratégicos como União Europeia, África do Sul e México. “Não vamos esperar os países virem até nós. Estamos indo até eles com dados, auditorias e compromisso com a biossegurança”, completou Santin.
Investigação de novos casos não envolve granjas comerciais
Apesar do encerramento do vazio sanitário, o país ainda mantém investigações abertas sobre possíveis casos em aves silvestres e de subsistência. Segundo o Mapa, os focos não envolvem produção comercial e, portanto, não comprometem o status sanitário internacional.
Casos suspeitos sob investigação:
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Alto Alegre (RR) – Galinha, doméstica
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Parauapebas (PA) – Galinha, doméstica
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Cedro (CE) – Galinha, doméstica
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Morro do Chapéu (BA) – Biguá, silvestre
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Novo Cruzeiro (MG) – Galinha, doméstica
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Sacramento (MG) – Galinha, doméstica
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São Joaquim de Bicas (MG) – Galinha, doméstica
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Linhares (ES) – Maçarico-branco, silvestre
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Serra (ES) – Galinha, doméstica
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Vila Velha (ES) – Coruja-das-torres, silvestre
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São Valentim (RS) – Pombo, silvestre
De acordo com a OMSA, somente focos em granjas comerciais afetam o reconhecimento sanitário internacional. Casos em aves silvestres ou de fundo de quintal são monitorados, mas não impedem o país de se autodeclarar livre da doença.
