“Não se entra em uma briga de trânsito”, diz negociador que venceu EUA na OMC

    Tarifaço americano demonstra nova geopolítica na qual o Brasil deveria se inserir de forma estratégica

    “Não se entra em uma briga de trânsito”, diz negociador que venceu EUA na OMC
    23deJulhode2025ás17:36

    “Você leva uma fechada no trânsito e vê que está certo. Mas desce do carro para brigar? Não. Porque você não sabe o que vai sair dali.”

    A metáfora é de Pedro Camargo Neto, ex-secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e um dos nomes mais experientes da diplomacia agropecuária brasileira.

    Ele foi o negociador-chefe do Brasil em disputas históricas na Organização Mundial do Comércio (OMC), como a que impôs aos Estados Unidos a remoção de subsídios ilegais ao algodão e gerou dividendos estruturantes ao setor.

    “Eram outros tempos. A OMC virou só protocolo. Os Estados Unidos viraram de costas para a instituição. A Câmara de Solução de Controvérsias está inoperante. Para eles, é inócuo”, avalia.

    Asim, Pedro Camargo Neto vê pouco valor prático no discurso realizado pelo representante do Brasil realizado hoje na OMC para contestar as tarifas americanas propostas pelo governo de Donald Trump.

    Nesta quarta-feira (23), o Brasil discursou duramente na OMC contra a política comercial do mandatário americano, acusando o país de usar tarifas como coerção geopolítica. Recebeu apoio público de 40 países, incluindo União Europeia, Brics e Canadá.

    Para Camargo, o gesto tem mais simbolismo do que eficácia real: “Esses 40 países podem se articular? Não sei dizer. Como fazer uma OMC sem os EUA?”, indagou.

    Nem mesmo os Brics poderiam compensar o peso dos Estados Unidos.“O Brics é mais importante para o Brasil do que para os outros membros. A gente precisa aprender a jogar esse xadrez geopolítico com mais frieza e menos testosterona”.

    Erro estratégico

    Segundo ele, o Brasil entrou na provocação “fisgado” pela narrativa do filho do ex-presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, e também por declarações de Trump.

    “É verdade que o Brasil já vinha provocando, mas o governo mordeu a isca. E agora a situação se complicou. A resposta deveria ser em reuniões de negociação”, disse.

    Para ele, no aspecto comercial, Lula erra ao nacionalizar o embate.

    “Ir para a rede nacional falar sobre isso só acirra os ânimos. Deixa ele (Trump) quebrar a cara sozinho. Marque reunião, negocie, use os fóruns certos. Mas não antecipe a frustração.”

    Camargo considera que o atual cenário geopolítico exige uma nova abordagem com menos confronto, mais inserção estratégica.

    “A ordem geopolítica mudou muito. Não é papel do Brasil peitar os Estados Unidos. A prioridade deveria ser manter um bom relacionamento. Não se trata de ser subalterno, mas de saber negociar com inteligência”, afirmou.

    O impacto para o agro, alerta, será direto.

    “Frigoríficos multinacionais não estão nem aí, mas o pecuarista brasileiro vai sofrer. Nos EUA, o produtor está comemorando. Sem a carne brasileira, o preço sobe lá e quem se prejudica somos nós. Os pecuaristas americanos estão comemorando”, comenta.

    No caso do suco de laranja, o impacto pode ser ainda mais grave. “O americano já reclamou. É diferente da carne, porque não tem ajuste fácil. A oferta brasileira é dominante”, compara.

     

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