EUA querem impor solução legalmente impossível ao Brasil, afirma Haddad
Ministro da Fazenda critica tarifa de 50% dos EUA e diz que comércio bilateral deve cair ainda mais
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Segundo o ministro, o comércio bilateral entre os dois países já representa hoje metade do que foi nos anos 80. (Foto - Rovena Rosa)
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta segunda-feira (18) que as negociações com os Estados Unidos para reduzir a tarifa de 50% sobre exportações brasileiras estão travadas porque o país norte-americano insiste em uma exigência “constitucionalmente impossível” para o Brasil.
Segundo Haddad, os EUA querem que o Executivo interfira em decisões do Poder Judiciário, o que fere a Constituição brasileira.
“Hoje nós temos documentos oficiais demonstrando que a negociação só não ocorre porque os Estados Unidos está tentando impor ao Brasil uma solução constitucionalmente impossível, que é Executivo se imiscuir em assuntos de outro poder, que é o Poder Judiciário. Nós não temos uma situação constitucional que nos permita, política e juridicamente, atuar no caso. Então, gerou-se um impasse que é pedir o que não pode ser entregue”, disse o ministro.
Haddad destacou que o comércio bilateral já encolheu pela metade em relação aos anos 1980 e deve recuar ainda mais diante do cenário atual.
“Nós tínhamos exportações da ordem de 25% com os Estados Unidos, hoje elas significam 12% e, pelo andar dos acontecimentos, eu acredito que o comércio bilateral, infelizmente, vai cair ainda mais”, afirmou.
As declarações foram dadas durante a abertura do evento FT Climate & Impact Summit Latin America e Brasil 2030: Uma Nação de Oportunidades, promovido pelo Financial Times, em São Paulo.
Cancelamento de reunião e pressão política
O ministro também comentou o cancelamento da reunião que teria com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, em julho. Segundo ele, o episódio foi provocado por interlocutores da extrema-direita brasileira.
Haddad afirmou que o encontro anterior com Bessent, em maio, havia sido positivo. “[Foi uma reunião] excelente. Agora, o que mudou de maio para julho, tem que ser perguntado para eles”, disse.
Ele acrescentou que causou estranhamento ver Bessent reunido com o deputado Eduardo Bolsonaro no mesmo horário em que a reunião oficial seria realizada.
"Eu nunca cometeria uma deslealdade dessa com um homólogo meu de outro país, por mais hostil que o outro país fosse. Se eu marquei um compromisso, eu cumpro”, declarou.
Mais tarde, em entrevista a jornalistas, Haddad acusou a família do ex-presidente Jair Bolsonaro de trabalhar “para impedir que as negociações se estabeleçam”.
Plano de contingência
Enquanto as negociações não avançam, o governo brasileiro prepara medidas para apoiar o setor produtivo atingido pelo “tarifaço” de 50%. O plano prevê R$ 30 bilhões em crédito e será viabilizado por meio da Medida Provisória chamada de MP Brasil Soberano.
“A tarefa dessa semana é regulamentar o plano de contingência, fazer chegar na ponta os recursos liberados e proteger o Brasil dessa agressão externa”, disse.
O ministro ressaltou que o programa está “bem calibrado” e não deve ser ampliado. “Se o cenário se confirmar, eu não vejo razão para ampliar. Mas vamos ver o desdobramento da coisa. Nesse momento, eu devo dizer que não”.
Globalização em disputa
Haddad também criticou a postura do governo Trump, que vem impondo tarifas e, segundo ele, “mudando o jogo” da globalização.
“Eles venderam para o mundo a globalização, com desregulamentação financeira, a descentralização das atividades produtivas, o ganho de eficiência que isso ia gerar, a acumulação flexível. E aí, quando eles perceberam que eles ganharam muito, mas que a China ganhou ainda, aí [decidiram] ‘vamos melar o jogo’, ‘vamos mudar o jogo’”, afirmou.
Para o ministro, os Estados Unidos se beneficiaram enormemente do processo, mas passaram a enfrentar um “desafio inesperado” diante do avanço da China e resolveram alterar as regras.