Imaflora lança selo de carne livre de desmatamento e firma parceria com a China

    No sistema certifica proteína brasileira em quatro níveis e mira mercados que exigem cadeias produtivas sustentáveis

    Imaflora lança selo de carne livre de desmatamento e firma parceria com a China
    21deOutubrode2025ás13:51

    O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) lançou, nesta terça-feira (21), o sistema Beef on Track (BoT), que certifica carne livre de desmatamento e já conta com parceria da China, principal destino das exportações brasileiras.

    As empresas que compõem a Tianjin Meat Association se comprometeram a adquirir 50 mil toneladas de carne com o selo até junho de 2026.

    O BoT também deve facilitar o acesso da pecuária nacional a mercados como União Europeia e Reino Unido, que exigem cadeias produtivas livres de desmatamento.

    A iniciativa está alinhada às metas da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil, que busca reduzir emissões de gases de efeito estufa e o desmatamento associado à agropecuária.

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    O lançamento ocorre menos de vinte dias da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), em novembro, em Belém.

    “Hoje parte da produção pecuária nacional já está isenta de desmatamento e atende a requisitos de conformidade legal e social, mas não há um instrumento que dê visibilidade a isso. O BoT vem preencher essa lacuna”, explica Marina Piatto, diretora executiva do Imaflora. “Com a certificação, a carne livre de desmatamento será identificada por um selo que permitirá seu rápido reconhecimento pelo mercado – sejam varejistas, importadores ou consumidores finais.”

    Exportação e mercados internacionais

    O selo deve facilitar a vida de frigoríficos exportadores que buscam atender mercados com restrições ambientais, como a União Europeia — cuja lei antidesmatamento entra em vigor em 2026 —, o Reino Unido, que aprovou a Environment Act 2021, e a China, principal destino da carne brasileira e signatária de acordos bilaterais sobre o tema.

    Além da parceria com a Tianjin Meat Association, o projeto recebeu apoio de instituições como Tropical Forest Alliance, Proforest, Amigos da Terra, WRI, WWF e National Wildlife Federation (NWF).

    “Muitos mercados internacionais precisam de produtos sem desmatamento para cumprirem seus compromissos climáticos. Mostrar de modo transparente e acessível que a carne brasileira é livre de desmatamento será uma vantagem competitiva”, diz Piatto.

    Quatro níveis de certificação

    O BoT possui quatro níveis, que avaliam dados da cadeia da pecuária de corte para garantir ausência de desmatamento e conformidade social:

    • BoT Bronze – fornecedores diretos livres de desmatamento ilegal, trabalho escravo e produção em terras públicas destinadas;

    • BoT Prata – fornecedores diretos livres de desmatamento legal ou ilegal, trabalho escravo e produção em terras públicas destinadas;

    • BoT Ouro – fornecedores diretos e indiretos livres de desmatamento ilegal, trabalho escravo e produção em terras públicas destinadas;

    • BoT Platinum – fornecedores diretos e indiretos livres de desmatamento legal ou ilegal, trabalho escravo e produção em terras públicas destinadas.

    A leitura do selo é intuitiva: quanto mais alta a barra verde, maior a área de floresta monitorada. A expectativa é que os frigoríficos evoluam gradualmente até o nível mais alto, o platinum.

    Monitoramento e rastreabilidade

    A certificação utiliza um sistema de monitoramento, relato e verificação (MRV) baseado em protocolos reconhecidos pelo setor, como o Boi na Linha, usado pelo Ministério Público Federal na Amazônia Legal, e o Protocolo do Cerrado, de adesão voluntária.

    Para fornecedores com rastreabilidade completa desde a origem, o BoT se apoia nas normas do Grupo de Trabalho de Fornecedores Indiretos (GTFI) e no Deforestation Free Commitment (DFC).

    “O Boi na Linha, por exemplo, tem mais de 15 anos. Essa compatibilização é muito positiva, por diminuir o custo da certificação”, afirma Piatto.

    Frigoríficos com 95% de conformidade com o Boi na Linha ou com o Protocolo do Cerrado já são elegíveis ao BoT. O Imaflora prevê protocolos equivalentes para outros biomas, como Mata Atlântica, Pampas e Caatinga, e regras para transição entre níveis.

    Aplicação do selo

    O BoT é voltado à cadeia de compra da pecuária, como frigoríficos, curtumes, varejo e importadores. As fazendas não são auditadas diretamente, mas as plantas de abate são avaliadas individualmente.

    Assim, um mesmo grupo frigorífico pode ter diferentes níveis de conformidade socioambiental.

    O selo será aplicado nas peças de carne, e não por lotes, com um sistema de balanço de massas. Por exemplo, se um lote misturar carne BoT Bronze e Prata, o comprador receberá cortes identificados proporcionalmente.

    As auditorias serão anuais, e as empresas certificadas deverão evoluir continuamente nos critérios de sustentabilidade. A implementação do sistema começa em 2026, com a participação da Tianjin Meat Association.

    Próximos passos

    Segundo Piatto, o avanço dos programas públicos de rastreabilidade deve ampliar o alcance da certificação. A expectativa é que o BoT seja homologado pela plataforma AgroBrasil +Sustentável, desenvolvida pelo governo federal via SERPRO, que já incorpora os critérios do Boi na Linha e do Protocolo do Cerrado.

    O Imaflora também planeja parcerias com frigoríficos e instituições financeiras, que poderão usar o selo para dar mais segurança a operações de crédito e emissões de títulos verdes.

    “O BoT chega para dar visibilidade às boas práticas da pecuária e criar oportunidade para o engajamento de novas empresas. O sistema comporta diferentes realidades de produção e traz o compromisso de evoluir até o desmatamento zero, o que o torna, simultaneamente, inclusivo na implementação e ambicioso nos objetivos”, finaliza Piatto.

     

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