“O momento não é de sair plantando a esmo”, alerta Ibrahort após excesso de oferta e crédito caro
Diretor executivo, Manoel Oliveira, alerta para descapitalização no setor; alho enfrenta pressão das importações

Manoel Oliveira, diretor-executivo do Ibrahort, recomenda cautela aos produtores. Foto: Fabio Manzini
Após um período de excesso de oferta e preços pressionados em 2025, produtores de hortaliças entraram em 2026 com dificuldades para recuperar a capacidade de investimento.
Embora algumas cadeias já registrem melhora nas cotações e até falta de produtos no mercado, parte dos agricultores segue descapitalizada, com acesso restrito a crédito, financiamento e seguro agrícola.
Para o diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort), Manoel Oliveira, a orientação é de cautela diante de um cenário ainda instável, marcado pelo ajuste entre oferta e demanda, dificuldade de acesso a recursos e riscos climáticos.
“Planeje bem, seja bastante cauteloso. O momento não é o momento de sair plantando a esmo", explica em entrevista ao Agrofy News.
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O setor vive uma fase de ajuste após anos de mudanças na cadeia produtiva desde a pandemia, de acordo com ele.
Os anos de 2023 e 2024 foram relativamente positivos, mas o cenário mudou em 2025, quando as condições climáticas favoreceram a produção em diversas regiões, aponta.
“2025 foi um ano climaticamente excepcional. A gente teve chuva distribuída o ano inteiro. Tivemos verão fresco. Altas produtividades. E isso impactou no excesso de oferta que infelizmente o mercado não conseguiu absorver”, lamenta.
Com maior volume disponível e demanda incapaz de absorver toda a produção, os preços recuaram e o impacto foi transferido para os produtores. Oliveira afirma que muitos agricultores encerraram o período com dificuldades financeiras.
“Muitos produtores descapitalizados. Nós não temos um dinheiro barato hoje, o financiamento é muito difícil, seguro agrícola muito difícil, sem recursos do Governo Federal. Então, o produtor está passando bastante aperto”, aponta.

Preços reagem, mas falta capital para investir
Segundo Oliveira, o setor começa a passar por um reposicionamento entre oferta e demanda. Algumas cadeias que enfrentaram forte pressão nos preços já apresentam recuperação, mas os produtores não conseguem reagir na mesma velocidade.
A batata é citada como exemplo. Depois de um período de preços baixos, o produto passou a registrar valores médios mais favoráveis. Ainda assim, a falta de capital limita a expansão da produção, aponta.
“O mercado está promissor, está faltando produto, mas o produtor não consegue acompanhar no mesmo ritmo.”
Para o dirigente, a combinação entre menor oferta e dificuldade de investimento cria uma situação contraditória: há espaço para ampliar a produção, mas parte dos agricultores não dispõe de recursos para comprar insumos, renovar estruturas ou aumentar a área plantada.
Mercado interno concentra vendas
O mercado interno segue como principal destino das hortaliças brasileiras. As exportações de produtos frescos, como tomate, cebola, alho, batata e cenoura, ainda têm participação reduzida e ocorrem de forma pontual, principalmente em períodos de entressafra ou de problemas de produção em países do Mercosul.
Em algumas situações, de acordo com ele, o Brasil consegue enviar cenoura e tomate para mercados vizinhos, mas o volume exportado permanece baixo em relação ao tamanho da produção nacional.
A dependência do consumo interno aumenta a exposição do setor às oscilações de oferta e preço. Quando a produção cresce acima da capacidade de absorção do mercado, a pressão recai diretamente sobre a renda do produtor.
Segundo semestre ainda exige cautela
Apesar da melhora em algumas cadeias, Oliveira avalia que o segundo semestre ainda é delicado. O setor acompanha os riscos climáticos e tenta se adaptar a problemas que se tornaram mais frequentes nos últimos anos, como o avanço de pragas antes consideradas menos relevantes.
A resposta tem sido o desenvolvimento de materiais genéticos mais resistentes e capazes de suportar melhor variações climáticas e pressão de pragas. Segundo ele, empresas de genética vêm introduzindo cultivares mais robustas, mas a transformação não é imediata.
“Demora 1, 2, 3 anos para essa transformação toda acontecer. Então ainda é delicado.”
Além da genética, o setor tem ampliado investimentos em produtos biológicos, manejo integrado de pragas, tecnologias de produção e aumento de produtividade. Para Oliveira, esses avanços são necessários para tornar a produção mais resiliente e garantir alimentos mais seguros.
“O produtor está fazendo seu trabalho, cada vez produzindo produtos mais seguros.”
Alho concentra maior pressão
Entre as cadeias mais afetadas, o alho é apontado por Oliveira como uma das situações mais críticas.
O produto enfrenta concorrência de importações, principalmente da Argentina e da China, além do aumento da oferta interna provocado por ganhos de produtividade nos últimos anos.
Segundo o dirigente, a produção argentina entra no Brasil sem barreiras tarifárias por causa das regras do Mercosul, enquanto o alho chinês chega ao mercado brasileiro com preços mais baixos.
“O alho tem uma concorrência da produção argentina que entra sem nenhum controle, por pertencer ao Mercosul.”
Oliveira afirma que a produção brasileira avançou em tecnologia e qualidade, inclusive em características como teor de alicina, composto associado ao sabor do alho. Ainda assim, o aumento da produtividade também elevou a oferta nacional, ampliando a pressão sobre os preços.
“O ano passado começou a ser difícil, esse ano tende a ser difícil também.”
O setor discute com o governo mecanismos de monitoramento para avaliar possíveis práticas de dumping nas importações. Segundo Oliveira, a Associação Nacional dos Produtores de Alho tem atuação forte no tema, mas o controle é complexo devido à ausência de barreiras tarifárias para a entrada do produto argentino.
Logística limita competitividade
Outro desafio apontado pelo executivo é a falta de investimentos na cadeia do frio.
Para ele, a ampliação da infraestrutura de refrigeração e conservação é fundamental para reduzir perdas, aumentar a durabilidade das hortaliças e ampliar o alcance da distribuição. “Nós temos que investir mais na cadeia do frio.”
Oliveira cita os Estados Unidos como exemplo. Segundo ele, hortaliças produzidas na Califórnia conseguem ser distribuídas por todo o país com maior garantia de durabilidade.
No Brasil, a vida útil mais curta dos produtos limita a logística e aumenta as perdas ao longo da cadeia. “Lá com garantias de durabilidade de alface de 15 dias. Aqui se a gente tiver 5 dias é muito.”
Planejamento e cautela
Apesar das dificuldades, Oliveira mantém uma visão positiva para o futuro do setor. No curto prazo, porém, a recomendação aos produtores é evitar ampliar o plantio sem planejamento e buscar apoio técnico, tecnologias e estratégias que reduzam riscos.
Para o diretor, a recuperação do setor dependerá de maior equilíbrio entre oferta e demanda, acesso a crédito, investimentos em tecnologia e melhorias na infraestrutura. Até lá, a recomendação é evitar decisões de plantio sem planejamento, em um mercado ainda marcado pela descapitalização de parte dos produtores.
