Brasileiro consome menos do recomendado de frutas, legumes e verduras e setor prepara estratégia nacional
Pesquisa inédita busca mapear hábitos dos brasileiros e orientar iniciativas voltadas à alimentação saudável

Setor aposta em conveniência, inovação e alimentos mais acessíveis para ampliar a presença desses produtos no dia a dia dos brasileiros.
Apesar de o Brasil estar entre os maiores produtores mundiais de frutas, legumes e verduras, o consumo desses alimentos pela população segue muito abaixo do recomendado por especialistas em saúde.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a ingestão diária de pelo menos 400 gramas de frutas, legumes e verduras, quantidade associada à prevenção de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares.
O cenário tem levado entidades do setor a desenvolver uma pesquisa nacional inédita para entender os hábitos dos consumidores e subsidiar ações voltadas ao aumento do consumo no país.
Segundo representantes da cadeia produtiva, o brasileiro consome menos da metade do volume recomendado pela OMS, o que evidencia tanto um desafio para a saúde pública quanto uma oportunidade para o agronegócio.
A preocupação foi toma durante a Hortitec, realizado em Holambra.
Para o diretor-executivo do Ibrahort (Instituto Brasileiro de Horticultura), Manoel Oliveira, o consumo nacional está longe do ideal e exige um esforço conjunto de produtores, indústria, varejo e poder público.
“A OMS fala 400 gramas por dia de FLV. E a gente consome 160, 180 gramas por dia na média nacional”, disse em entrevista ao Agrofy News.
A avaliação é compartilhada pelo diretor-executivo da Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados), Eduardo Brandão. De acordo com ele, quando se considera o consumo anual, o brasileiro também está distante dos parâmetros considerados adequados.
“Quando se fala em frutas e legumes e hortaliças, o brasileiro hoje consome algo em torno de 68 kg per capita ano. E a OMS recomenda 140 kg. A gente está menos da metade do que seria o aceitável”, aponta.
Pesquisa vai mapear hábitos dos consumidores
Para entender as razões por trás do baixo consumo, Abrafrutas, Ibrahort e outras entidades do setor estão conduzindo uma pesquisa nacional sobre hábitos de consumo de frutas, legumes, verduras e flores.
O levantamento busca compreender por que o brasileiro consome menos desses produtos do que o recomendado e identificar os fatores que influenciam esse comportamento.
A primeira etapa do estudo já foi concluída e os resultados devem começar a ser apresentados nos próximos meses, explica Brandão. “Esse consumo é baixo e a gente quer saber o porquê o brasileiro consome pouco.”
Manoel Oliveira destaca que ouvir o consumidor é fundamental para que a cadeia consiga se adaptar às novas demandas da sociedade.
“Nós estamos fazendo nesse exato momento uma pesquisa nacional de consumo de frutas, vegetais e flores. E você ouvindo o consumidor, ele é ávido pelo nosso produto. O nosso produto é um produto saudável”, explica.
A expectativa das entidades é divulgar os resultados da pesquisa em setembro e utilizar as informações para orientar ações do setor e subsidiar políticas públicas voltadas à alimentação saudável.
Saúde pública impulsiona debate
A preocupação com o consumo insuficiente de frutas e hortaliças não está restrita ao setor produtivo. Segundo Brandão, o próprio Ministério da Saúde tem acompanhado o tema devido aos impactos que a alimentação exerce sobre os gastos públicos com doenças crônicas não transmissíveis.
O executivo afirma que estudos do governo apontam que o aumento do consumo desses alimentos pode reduzir significativamente os custos do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Cada quilo a mais de FLV que o brasileiro come, o impacto do gasto do Brasil com SUS com doenças não transmissivas é muito grande.”
A expectativa das entidades é utilizar os resultados da pesquisa para apoiar campanhas nacionais de incentivo ao consumo ainda neste ano.
Conveniência deve ser caminho para ampliar consumo
Além de estimular hábitos alimentares mais saudáveis, o setor também busca adaptar seus produtos às mudanças no perfil dos consumidores.
Segundo Manoel Oliveira, famílias menores, rotina acelerada e falta de tempo para preparar refeições exigem soluções mais práticas.
“O que a gente tem que fazer, nós, da base produtiva, é ter um produto mais acessível. Produtos já prontos para o consumidor moderno”, aponta.
Na avaliação do executivo, produtos lavados, cortados, embalados e prontos para o consumo devem ganhar espaço nos próximos anos.
“Você tem que entregar um produto já pronto para essa sociedade. Você tem que entregar um produto já processado, cortado, lavado.”
Oliveira afirma que a redução do tamanho das famílias e as mudanças no comportamento de compra exigem que a cadeia adapte sua oferta para atender um consumidor que busca conveniência sem abrir mão da qualidade e da saudabilidade.
O movimento já é percebido dentro da própria entidade. “O setor que mais cresce dentro do Ibrahort é o dos processados.”
Além dos processados frescos, os produtos congelados também começam a ganhar relevância dentro da cadeia.
Produção mais segura e menos perdas
O esforço para ampliar o consumo também passa pela modernização da produção e da distribuição.
Os produtores, de acordo com Oliveira, têm ampliado investimentos em produtos biológicos, manejo integrado de pragas e tecnologias voltadas à produção de alimentos mais seguros. “O produtor está fazendo seu trabalho, cada vez produzindo produtos mais seguros.”
O executivo também destaca a necessidade de avanços na cadeia do frio, considerada fundamental para ampliar a durabilidade dos produtos e reduzir perdas ao longo da comercialização. “Nós temos que investir mais na cadeia do frio.”
Como exemplo, ele cita os Estados Unidos, onde a logística permite distribuir hortaliças por longas distâncias mantendo a qualidade dos produtos por períodos superiores aos observados no Brasil.
Espaço para crescer
Apesar dos desafios, as entidades enxergam um enorme potencial de expansão do mercado interno. Para Manoel Oliveira, o interesse do consumidor por saúde e bem-estar deve impulsionar o setor nos próximos anos.
“Eu sou muito otimista. Nós somos abençoados porque nós somos um produto que é saúde.”
Na avaliação do dirigente, o Brasil reúne condições para ampliar significativamente o consumo de frutas, legumes e verduras, desde que a cadeia consiga oferecer produtos mais acessíveis, práticos e alinhados às necessidades do consumidor moderno.
“Mas a cadeia toda tem que melhora", confessa.
