Será o leite o novo “vilão” da inflação de alimentos?

Custo de produção aumentou 62% e preço do litro atinge R$ 8, diz Embrapa

Por |
Foto: divulgação Embrapa.

Foto: divulgação Embrapa.

05deJulhode2022ás12:30

Com o litro do leite chegando a custar R$ 8 em alguns estabelecimentos, é inevitável que o consumidor brasileiro questione o porquê de aumento tão expressivo em 2022. Será o surgimento de um novo vilão da inflação? 

Para responder tal questionamento, especialistas do Centro de Inteligência do Leite da Embrapa analisaram os motivos para a alta no preço do produto. A resposta é que, além da entressafra, que naturalmente reduz a oferta, produzir leite está cada vez mais caro.

Somente nos primeiros cinco meses de 2022, os produtores registraram um aumento de 62% nos custos, gerando uma elevação de 43% no preço ao consumidor.

De janeiro a junho deste ano, de acordo com a Embrapa, o preço médio do leite pago ao produtor, deflacionado pelo custo de produção, recuou cerca de 3,8% comparado ao mesmo período de 2021.

O cenário está diretamente relacionado ao conflito entre Rússia e Ucrânia e a alta mundial nos preços dos fertilizantes e dos combustíveis, uma vez que até o frete marítimo internacional, também em alta, entra nessa conta.

“Produzir silagem e adubar pastagens está bem mais caro”, constata o analista da Embrapa, José Luiz Bellini Leite, ao lembrar que o insumo é o item que mais tem pesado no caixa do produtor, com alta de 51% na comparação de maio deste ano com o mesmo mês de 2021.

Como exemplo, o preço da ureia no Brasil saltou de R$ 2,3 mil por tonelada, no início do ano passado, para cerca de R$ 6,3 mil em março de 2022. O cloreto de potássio foi de R$2 mil/t para R$6 mil/t. 

Queda nas vendas

Ainda segundo a Embrapa, os laticínios brasileiros compraram 10,5% menos leite dos produtores no primeiro trimestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2021, registrando-se a quarta queda trimestral consecutiva.

Uma explicação está na redução da produção uma vez que, mesmo em alta, o preço não está sendo suficiente para cobrir os custos. A queda na rentabilidade nas fazendas, que vem sendo um problema nos últimos dois anos, também tem levado os produtores a diminuírem a oferta, reduzindo a alimentação das vacas.

“O volume de leite adquirido no primeiro trimestre deste ano foi o equivalente ao observado em 2017, o que significa que a indústria regrediu cinco anos em termos de captação de leite”, explica o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Glauco Carvalho. 

Vilão: sim ou não?

Para os pesquisadores e analistas do Centro de Inteligência do Leite ( Cileite/Embrapa), a crise econômica que reduziu o poder de compra da população está evitando que a crise de oferta torne os preços dos lácteos mais elevados. Ainda assim, o leite não pode ser visto como “maior vilão” da inflação de alimentos.  

Segundo dados do IPCA, entre os produtos de proteína animal (carne, frango, ovos e lácteos), leite e derivados são os que apresentaram menor alta nestes dois anos.

Desta forma, os integrantes do Cileite/Embrapa reforçam que o desafio dos produtores de leite na gestão de custo nas fazendas tem sido gigante e que a solução vem sendo a modernização do setor. “No rastro desse momento de adversidade, tem ocorrido um processo mais acelerado de consolidação no setor, com modernização tecnológica da produção, exigência de maiores investimentos e pressão por economia de escala”, afirma Bellini Leite.

Ao consumidor, resta esperar. E sem muitas expectativas de redução a curto prazo. A análise da Embrapa é que os números do segundo trimestre, com o início da entressafra, repitam o cenário de escassez do primeiro trimestre e os preços mantenha-se em alta.

Cargando...