Por que o dólar é tão importante para o agronegócio?

    Entenda porque novas moedas podem ser uma oportunidade para o setor e a economia em geral

    A criação de uma moeda no Mercosul tem riscos e vantagens, mas é uma ideia a ser considerada. (foto - ilustrativa)

    A criação de uma moeda no Mercosul tem riscos e vantagens, mas é uma ideia a ser considerada. (foto - ilustrativa)

    27deJaneirode2023ás11:44

    O produtor rural brasileiro praticamente não tem como escapar dos impactos da variação do dólar, a moeda dos Estados Unidos, em seu negócio. E isso não é apenas no Brasil não, mas em todo o mundo.

    De fato, este sobe e desce pesou nesta semana nas cotações de várias commodities agrícolas, como soja, milho e outras. Mas por que a variação do dinheiro dos estadunidenses é tão importante?

    A primeira parte da resposta poderia ser: isso ocorre porque a moeda norte-americana baliza a maior parte do comércio internacional, ao menos, desde meados do século XX.

    Esse privilégio, anteriormente, pertenceu à libra esterlina do Reino Unido. Antes disso, só para se ter ideia, o lastro da economia mundial era o ouro, o que de certa maneira, limitava a expansão do comércio. Mas essa é outra história.

    Enfim, o dólar em alta torna o poder de compra dos agentes estrangeiros maior em relação ao real ou outras moedas, estimulando o aumento das exportações e, portanto, também aumento de cotações.

    Ou seja, se os imporadores vão pagar em dólar e seu dinheiro está valendo relativamente mais, suas compras ficam estimuladas.

    Já quando o câmbio cai, ocorre o inverso. Se o real sobe, os produtos e serviços ofertados pelo país tornam-se “mais caros” em dólar, o que pode afastar importadores ao redor do mundo.

    Ou seja, se os imporadores vão pagar em dólar e seu dinheiro está valendo relativamente menos, suas compras ficam desestimuladas. Simples assim, mas em grande escala.

    Então, seria ótimo se o dólar subisse às alturas? A resposta é um grande não. Isso porque, ao mesmo tempo que o Brasil exporta, os brasileiros também importam, inclusive o agronegócio, itens como fertilizantes, defensivos, combustíveis, maquinários e até mesmo produtos agrícolas.

    Vivemos uma economia já amplamente globalizada e integrada. Assim, se as importações ficassem mais caras com um câmbio muito apreciado, os custos de produção também disparariam, assim como a inflação que, em curto ou médio prazo, afetaria toda a economia para pior.

    Em outras palavras, a variação entre as diferentes moedas do mundo em relação ao dólar influencia, no mínimo, as tendências de todo o comércio internacional, assim como a economia doméstica. Deste modo, há uma faixa ideal para a taxa de câmbio.  

    Mas o dólar não é neutro e aí está uma vantagem competitiva fundamental para os estadunidenses. É o governo dos Estados Unidos e o FED (Federal Reserve, que equivale ao nosso Banco Central), que determinam a emissão de dólares e a taxa de juros dos empréstimos em dólar.  

    Deste modo, podem “dosar” essa tendência de acordo com seus objetivos de política econômica interna ou externa. Por exemplo, se querem o dólar mais barato, o que torna a produção brasileira relativamente mais cara, diminuem a taxa de juros ou emitem mais moeda. Já imaginou?

    Todo esse poder foi construído e conquistado pela potência econômica, política e até mesmo bélica dos países nos diferentes períodos históricos. Não se trata de um “determinismo divino”.

    Por isso mesmo, outros países, blocos, como a União Europeia (EU), ou até moedas digitais tentam apresentar alternativas. Na UE, por exemplo, o comércio entre países europeus pode prescindir do dólar. Os vizinhos da China negociam com o gigante asiático em Yuan e assim por diante.

    Dai vem a ideia, ainda embrionária, de consolidar uma moeda para o Mercosul, que voltou às notícias recentemente. Em teoria, a “Sur”, como foi apresentada, poderia ser positiva por trazer mais independência aos países do bloco para comercializar entre si e até com outros países.

    No entanto, como se diz, "na teoria a prática é outra". Ainda que fosse apenas para comércio internacional, uma nova moeda poderia ser a porta de entrada para “enfermidades econômicas” de um país ao outro, como a inflação.

    Esse é o motivo pelo qual a UE exigiu certo grau de estabilidade econômica para os países membros e, também, os Estados Unidos puderam firmar-se como “confiáveis” a ponto de terem sua moeda eleita para indexar toda a economia global. Ainda estamos longe disso, até em nível regional, mas não deixa de ser uma ideia.

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