“John Deere dará visão às máquinas para manejo planta a planta até 2030”, diz CEO
Antonio Carrere anunciou um Centro de Pesquisa em Agricultura Tropical no Estado de São Paulo e testes do motor a etanol no Brasil

"Nosso investimento no Brasil é uma constante há muitos anos e vamos continuar a fazer", reforça Antonio Carrere, presidente da John Deere no Brasil. (foto - divulgação)
A John Deere fomenta uma profunda jornada de inovação tecnológica cujos resultados contribuem para multiplicação da produtividade, da sustentabilidade e do lucro dos produtores brasileiros nos últimos 25 anos.
No entanto, a próxima década reserva saltos ainda mais altos na leitura de Antonio Carrere, presidente da John Deere no Brasil, que gentilmente concedeu entrevista ao Agrofy News.
O executivo enfatizou o foco da empresa em agricultura digital, revelou a estratégia para acelerar a adoção de motorização com combustíveis sustentáveis (como o motor a etanol) e anunciou em primeira mão a construção do Centro Brasileiro de Desenvolvimento de Tecnologia sobre agricultura tropical no Estado de São Paulo.
Carrere é nascido no Uruguai, tem formação em engenharia agronômica nos Estados Unidos e está na John Deere desde 2001. Ao tratar do “nosso querido Brasil”, como ele mesmo se referiu, ressaltou a resiliência e capacidade dos produtores rurais.
Confira a íntegra da entrevista:
"Agrofy News - Antonio, primeiro que você desse as suas primeiras palavras aí sobre a importância da tecnologia para o agronegócio brasileiro...
Antonio Carrere - Daniel, eu realmente agradeço a possibilidade de conversar contigo aqui e com toda a tua audiência. Para nós sempre é um grande prazer poder compartilhar com o mundo, o que está acontecendo na agricultura hoje. É importantíssimo que as pessoas saibam todo o trabalho e a tecnologia que está embarcada na produção de alimentos e de uma matriz energética sustentável. As pessoas têm que saber como é feito esse alimento de cada café da manhã ou cada janta.
Nesse sentido, a John Deere está em uma jornada de transformação. Uma empresa de manufatura que tem mais de 185 anos, mas que começou uma jornada de tecnologia faz 25 anos com os primeiros GPS em suas máquinas.
Temos uma evolução fantástica desde aquele ponto até hoje. Uma jornada fantástica. Hoje em dia já temos equipamentos com inteligência artificial que permitem que a máquina funcione cada vez com mais eficiência, produtividade e sustentabilidade. Daniel, se você não me parar, eu vou ficar falando o dia todo aqui...
Agrofy News - Então eu tenho a primeira pergunta: os grandes e os pequenos produtores, eles já assimilaram esses conceitos de agricultura digital e agricultura 4.0. Se não, o que falta para isso?
Antonio Carrere - É pergunta muito boa... A John Deere, entendendo que a responsabilidade contratar um cientista de dados é conosco e não do produtor, nosso foco é trazer tecnologias que sejam de fácil utilização. Ou seja, se você sabe trabalhar um celular você vai poder trabalhar com nossa tecnologia.

A sua pergunta é muito boa porque hoje as nossas máquinas já vêm embarcadas com tecnologia como, por exemplo, as colheitadeiras de grãos que são produzidas em Horizontina, Rio Grande do Sul.
Elas já vêm com inteligência artificial e sensores que permitem que a máquina se auto ajuste a cada três minutos dependendo de várias variáveis ao longo do dia na geografia que você está utilizando a máquina.
Mas, por outro lado, nós temos apenas 30% de utilização dessa tecnologia. Ou seja, os produtores ainda não estão aproveitando todo o valor da máquina. Nós estamos trabalhando junto com a nossa rede de concessionárias para que os clientes se sintam tranquilos, confiem na tecnologia.
Agrofy News - Na Agritecnica, uma das grandes novidades foi a apresentação do motor movido a etanol da John Deere. A empresa pretende acelerar a oferta de maquinários com combustíveis alternativos? Como isso vai acontecer?
Antonio Carrere - Daniel, nós estamos numa jornada de ajudar aos clientes a produzir cada vez mais e de cada vez uma forma mais sustentável e cuidando do meio ambiente. É uma jornada de trabalhar todos os elos da cadeia desde o nosso fornecedor, nossa fábrica, os elos de produção e na própria fazenda. Nossa intenção é trabalhar todas as máquinas ao longo do tempo para trazer tecnologias que permitam desempenho e sustentabilidade. Levar impacto positivo dentro da fazenda. Na cadeia de produção dos grãos por exemplo.
Nós já lançamos faz algum tempo diferentes opções de motorização para equipamentos da linha urbana e de tratores menores como, por exemplo, modelos de trator elétrico ou uma cortadora de grama elétrica ou uma escavadeira elétrica. Todos os equipamentos menores.
Com a tecnologia que hoje existe no mundo, não existe uma bateria suficientemente grande para armazenar a energia ou os cavalos de força que você precisa em nossas máquinas maiores. Por isso, a John Deere investe em tecnologia de combustíveis alternativos para utilizar o motor a combustão interna.
Então nesse sentido está o grande anúncio que fizemos na Agritechnica. A John Deere está trabalhando e fazendo uma pesquisa avançada no que se refere à utilização de etanol como um dos combustíveis alternativos.

O interessante, Daniel, é que nós já completarmos os testes de laboratório que permitem gerar o entusiasmo. Podemos compartilhar com o mundo que nós vamos começar a fazer os testes de campo aqui no Brasil, já no primeiro trimestre de 2024.
A John Deere fabrica seus próprios motores. No caso do motor a etanol, ele tem 9 litros. Para os testes a campo, escolhemos um trator que tem usos múltiplos na produção agrícola. Então, nós vamos primeiramente experimentar o motor de 9 litros com um trator, depois vamos passar para outras equipamentos.
Como a empresa tem uma presença mundial, nós precisamos fazer testes em vários ecossistemas. A empresa está escolhendo a produção de cana-de-açúcar, a agricultura tropical, o Brasil, reconhecendo sua importância como um grande produtor de grãos, proteína e energia.
Agrofy News - Estou sabendo que a John Deere vai criar o primeiro Centro de Pesquisa em Agricultura Tropical. O que que a gente tem de novidade sobre isso?
Antonio Carrere - Realmente você está certo. Você deve ter fontes de informações muito boas. É uma realidade. Vamos anunciar no dia 30 um investimento forte da John Deere no novo Centro de Desenvolvimento de Tecnologias para Agricultura Tropical. A John Deere, com 185 anos, já temos centros de pesquisa em nossas fábricas, assim como também especializados nos Estados Unidos na Europa.
Nesse sentido, será a oportunidade do Brasil para desenvolvermos tecnologias por brasileiros e para o Brasil como uma velocidade cada vez maior para assegurar realmente que os produtores brasileiros possam aproveitar ou mais moderno que a gente tenha de tecnologia aqui em nosso querido do Brasil.
Mas eu vou dar um aqui um segredo para você e a toda sua audiência: vai ser no Estado de São Paulo, tá? O centro de pesquisa será junto com uma fazenda para poder fazer os próprios testes a partir das pesquisas dos nossos engenheiros.

Daniel, a empresa investe de forma considerável por aqui. Se nós olharmos a nossa história aqui no Brasil, desde 1979, nós temos investido de forma rotineira todos os anos para segurar que acompanhamos a necessidade do cliente.
Outro é exemplo recente é a Unimil, aqui de Piracicaba, uma empresa que fornece peças para o setor de cana-de-açúcar que também estamos levando para o setor de graus. Além disso, nosso maior centro de distribuição de peças de América Latina, localizado aqui em Campinas, e que nós já tivemos que expandir esse ano em dois novos prédios.
Então, Daniel, nosso investimento é uma constante há muitos anos e vamos continuar a fazer.
Agrofy News - Esse crescimento da John Deere também é sustentado pelo crescimento do agro brasileiro, mas esse ano em concreto 2023 não tá sendo um ano tá sendo um ano de queda na indústria de maquinário. Como a John Deere projeta 2023? E é possível dizer algo sobre 2024?
Antonio Carrere - Então, 2023 certamente teve um ajuste em comparação a 2022, mas é um ajuste é natural. Lembrando que a agricultura é uma indústria cíclica desde sempre e pelos próprios ciclos do clima. Então, é natural que nós vamos ter momentos muito positivos e vamos ter alguns momentos mais desafiadores.
Por isso, eu mencionei a resiliência que os nossos produtores têm mostrado. Eles investem em tecnologia para segurar que nós tenhamos uma boa produção de grãos. Nesse sentido, 2023 vai ser um pouco menor que 2022, mas vai depender muito do clima nos próximos meses. O que vai acontecer em 2024 ainda bastante cedo, mas sabemos que o clima provavelmente vai jogar um papel importantíssimo. Atualmente, o plantio da soja está tendo muita água no Sul e, no Cerrado, no Mato Grosso, muito pouca. Então, vamos sentir o impacto nesses próximos meses.
Agrofy News - Minha última pergunta, Antônio, e mais uma vez já agradecendo o seu tempo. Como será a operação agrícola daqui a 10 anos, em 2033?
Antonio Carrere - Ah, eu gostaria de realmente ter mais tempo contigo para poder compartilhar tudo o que está acontecendo dentro da empresa, porque muito legal. Eu comecei a dirigir tratores desde criança e é realmente difícil acreditar tudo o que tem acontecido na agricultura. É realmente extraordinário, especialmente aqui na América Latina.
Então, além de máquinas com combustíveis alternativos, nós estamos trazendo máquinas cada vez mais inteligentes. Queremos trazer mais assertividade para os nossos clientes, mais dados para segurar que o cliente possa tomar melhores decisões em tempo real, ou seja, que não precisa aguardar até o final de uma operação.
Ou seja, ele saber qual talhão foi bom ou ruim, qual pode ter utilizar maior ou menor quantidade de insumos. Nós queremos que isso aconteça ao vivo no momento que o cliente possa ter mesmo um impacto positivo real nessa safra. Então, para poder fazer isso, as nossas máquinas estão além de ter uma inteligência artificial, nós estamos colocando visão nas máquinas.
Ou seja, se eu penso no sentido que nós utilizamos como humanos, a visão é um que ajuda a captar muitos dados e isso aqui nós estamos trazendo para as nossas máquinas. Uma vez que ele tenha visão, eu vou poder ter uma predição do que está acontecendo em cada planta para poder ter nesse Impacto real.
Daqui a 10 anos, por exemplo, nós vamos conseguir saber onde eu coloquei a semente, a longitude e latitude dessa semente, e acompanha-la em todo o ciclo de produção de forma individual, planta a planta. Esse é o futuro da John Deere e o nosso compromisso. Até 2030, vamos poder chegar até esse tipo de gestão".
