Depois do Enem, questão do Concurso Unificado gera nova revolta no agro

    Pergunta relacionou o agronegócio à exploração predatória da terra

    Por |
    Depois do Enem, questão do Concurso Unificado gera nova revolta no agro
    21deAgostode2024ás12:05

    No ano passado, três questões aplicadas na prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) provocaram protestos do agronegócio brasileiro.

    Agora é a vez de do Concurso Nacional Unificado (CNU), o “Enem dos Concursos”, causar revolta no setor. A polêmica da vez aconteceu na questão 7 da prova, aplicada no último fim de semana.

    O enunciado fez uma indagação sobre terras indígenas, porém relacionou o agro à exploração predatória da terra.

    Assim como aconteceu no ano passado, o setor acusa a prova de "desinformação” e afirma que a pergunta foi mal formulada, além de ser prejudicial a imagem do agronegócio.

    “O enunciado parte de uma visão deturpada que não condiz com o pensamento do setor. O agronegócio brasileiro é responsável, inovador e comprometido com a sustentabilidade”, afirmou o presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), Ricardo Nicodemos, em entrevista ao Canal Rural.

    Pesquisa apontou

    No ano passado, a Associação De Olho no Material Escolar à Fundação Instituto de Administração (FIA) realizou uma pesquisa que apontou que os conteúdos dos materiais didáticos utilizados nas escolas têm 60% mais citações negativas do que positivas quando abordam o agronegócio. Além disso, apenas 3,7% das fontes citadas têm embasamento científico.

    “Precisamos unir o setor e trabalhar para levar o conhecimento real à sociedade urbana”, declarou Nicodemos, citando a pesquisa.

    Ele ainda apontou que a relação entre indígenas e o agronegócio mostrada no concurso é equivocada. “Os indígenas fazem parte do agronegócio Hoje, temos índios que sobrevivem no setor, produzindo café e cacau de excelente qualidade e o setor os acolhe muito bem”, disse.

    A ABMRA pretende buscar esclarecimentos junto aos organizadores do concurso, visando evitar que informações equivocadas sejam propagadas.

    Questão polêmica no ‘Enem dos Concursos’

    A questão de número 7 do Concurso Nacional Unificado trazia o enunciado e as alternativas de resposta abaixo. Pelo gabarito, a opção correta seria a “c”:

    Veja a pergunta:

    “No contexto da redemocratização política do Brasil, em especial em função da promulgação da Constituição Federal de 1988 e graças à mobilização da sociedade civil e de lideranças indígenas, observou-se a ampliação do direito à proteção e ao usufruto das terras dos povos originários.

    É muito comum nos depararmos com afirmações de que, no Brasil, ‘há muita terra para pouco índio’, geralmente acompanhadas de assertivas segundo as quais as populações indígenas e tradicionais são um ‘entrave ao desenvolvimento’. 

    Em função desse modelo de desenvolvimento, voltado para a exportação de produtos primários, os povos indígenas continuam sendo considerados um empecilho ao desenvolvimento, mas um desenvolvimento praticado de forma predatória, ao bem dos interesses particulares de poucos, e não do interesse comum.

    Levando em conta o texto acima, a noção de que “há muita terra para pouco índio":

    •  (a) sustenta-se numa premissa nacional-desenvolvimentista, cuja atualização em nossos dias tem como principal objetivo a produção de riqueza e  sua distribuição mais equânime, justa e igualitária.
    •  (b) fundamenta-se no reconhecimento da natureza conservacionista dos povos originários, que representam um obstáculo ao desenvolvimento sustentável do país.
    •  (c) relaciona-se com uma certa concepção de desenvolvimento, associada a um tipo de exploração predatória da terra, da qual decorre desacertadamente que o reconhecimento da propriedade indígena representaria um suposto entrave à economia sustentável do país.
    •  (d) justifica-se pela condescendência da legislação indigenista, própria da constituição federal de 1988, a qual  privilegia os povos originários.
    •  (e) legitima-se pelo avanço do agronegócio no Brasil, uma vez que concorre para a ampliação das fronteiras agrícolas, na mesma medida em que contribui para a proteção do direito à terra e para a manutenção dos modos de vida dos povos originários.

    Polêmica do ano passado gerou PL

    Por conta da polêmica em 2023, um projeto de lei do senador Cleitinho (PL-MG) quer vedar a utilização desses conteúdos nas provas para combater estes questionamentos de viés ideológico no Enem ou em concursos públicos. A proposta ainda está em análise das comissões.

    De acordo com o PL 6.138/2023, fica proibida a utilização de questões com viés ideológico nas provas do Enem, de concursos públicos e de vestibulares de universidades públicas.

    Ainda conforme o texto, caso a medida não seja cumprida, a banca examinadora ficará sujeita à penalidade de suspensão de até cinco anos na participação de concursos públicos e vestibulares de universidades públicas e multa, nos termos de regulamento.

    Ministro teve que se explicar

    Além do PL, o ministro da Educação, Camilo Santana, foi convocado, em 2023, para uma audiência pública na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados para esclarecer as questões polêmicas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e foi confrontado pela bancada ruralista.

    Os deputados membros da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) consideram que houve politização do tema nas provas e discriminação do setor agropecuária em três questões específicas (70, 71 e 89). Segundo eles, as perguntas associariam o agronegócio brasileiro ao desmatamento nos biomas do país; à exploração de trabalhadores do campo; e à invasão de terras indígenas.

    Durante a audiência, o deputado e membro da FPA, Paulo Bilynskyj (PL-SP) questionou o ministro sobre a abordagem sobre os fatores negativos do agronegócio no Cerrado.

    “A questão está errada. Esta classificação não existe, por uma questão técnica óbvia. Senhor ministro, não existe chuva de veneno. Isso é impossível. Chuva é uma precipitação da água da atmosfera”, disse para continuar. 

     

    Temas nesta notícia