Perdas de 59 mil hectares de cana, mais de 300 animais mortos: os prejuízos do agro com fogo em SP
Onda de incêndios provocou perdas de R$ 1 bilhão na agropecuária, segundo estimativa inicial do Governo de SP
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O agronegócio paulista segue somando os prejuízos decorrentes dos incêndios que atingiram propriedades rurais no estado de São Paulo.
A onda de incêndios em SP provocou perdas de R$ 1 bilhão na agropecuária, segundo estimativa inicial do Governo de São Paulo.
A estimativa é que 3.837 propriedades rurais foram atingidas em 144 municípios paulistas. Os dados são preliminares e foram levantados por 20 das 40 regionais da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI).
A bovinocultura de corte (carne bovina), bovinocultura de leite, cana-de-açúcar, fruticultura, extração de látex para a produção de borracha e apicultura (criação de abelhas para produção de mel, propólis, pólen, etc) são os principais setores afetados.
A Orplana (Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil) fez um balanço preliminar com estimativa de R$ 350 milhões. A entidade revelou que o fogo vai agravar as perdas na cana-de-açúcar em SP, que sofre com seca desde abril e vai impactar os preços do açúcar e do etanol.
Além disso, mais de 300 animais da pecuária morreram em incêndios no interior de São Paulo, de acordo com a ONG Sinergia Animal.

Perdas na safra de cana
Os incêndios desse final de semana só pioraram a situação dos produtores de cana de açúcar que já sofriam com a seca desde abril.
Segundo a Orplana, os incêndios fizeram o agro paulista não só perder a cana que estava em pé que seria colhida nesta safra, como também rebrotas que dariam origem à próxima colheita. Tudo foi queimado.
"Queimar cana é queimar dinheiro", diz o CEO da Orplana, José Guilherme Nogueira, que revela que o impacto se dará no custo do produtor para renovar as plantações, que vai aumentar.
Além disso, o impacto do fogo vai mitigar a produtividade e deve impactar os preços do açúcar e do etanol
A safra de cana-de-açúcar estava estimada em São Paulo em 420 milhões de toneladas – estimativa feita em abril. Hoje, a Orplana projeta uma colheita de 370 milhões de toneladas, queda de 12% em relação à previsão inicial.
Para Nogueira, os incêndios devem trazer efeitos diretos sobre os preços de açúcar e etanol.
“Percebemos uma redução na produtividade na ordem de 50%, até por essa perda de biomassa que acabou sendo incendiada. Com isso, já temos impactos diretos nos preços do etanol e do açúcar e no canavial do próximo ciclo”, afirmou Nogueira.
A entidade conta, atualmente, com 33 associações de fornecedores de cana e representa mais de 12 mil produtores de cana-de-açúcar e identificou 59 mil hectares queimados em áreas de cana de açúcar e rebrota.
Entre sexta-feira (23) e sábado (24), foram identificados mais de 2,1 mil focos de incêndios.
Mortes de animais
Centenas de animais da pecuária perderam a vida nos incêndios, neste fim de semana, no interior de São Paulo.
Segundo a ONG Sinergia Animal, em um único assentamento na área rural da cidade de Pradópolis, as chamas vitimizaram 217 porcos, frangos e galinhas. E em Santo Antônio do Aracanguá, ao menos 43 bois morreram carbonizados em uma fazenda.
“Confinados por cercas ou em galpões, muitos desses animais sequer tiveram a chance de fugir. Em casos como esse, os animais criados pela pecuária são tão vítimas quanto os animais silvestres”, lamenta a diretora da ONG Sinergia Animal no Brasil, Cristina Diniz.
Em uma fazenda em Itirapina, cerca de 70 bois conseguiram romper a cerca para fugir do fogo. Outros não tiveram a mesma sorte — em Ribeirão Preto, a Defesa Civil relatou que vacas e porcos presos em um curral não conseguiram escapar das chamas.
Mais casos
De acordo com a ONG, o mesmo ocorreu em Boa Esperança do Sul, onde 10 porcos e um bezerro foram mortos pelo incêndio que se alastrou rapidamente. Casos semelhantes foram registrados em Santa Isabel e em um haras tomado pelo incêndio em Guapiaçu.
“Abram suas porteiras, é uma questão de vida”, suplicou a prefeita do município de Lucélia, Tati Guilhermino, em um apelo feito aos produtores rurais no rádio. A Defesa Civil declarou que ainda está levantando o número total de animais impactados pela tragédia nas cidades da região.
“Mesmo os animais que sobreviveram agora correm risco de sofrer com a falta de alimento em áreas de pasto amplamente devastadas pelo fogo, como já vem ocorrendo no Pantanal”, alerta Diniz.
Em apenas dois dias, segundo o Inpe, São Paulo registrou quase 7 vezes mais incêndios do que em todo o mês de agosto de 2023 e mais focos do que todos os meses de agosto desde 1998.
Foram 2.300 focos de incêndio só no fim de semana, queimando mais de 20 mil hectares e deixando 48 cidades do interior de São Paulo em alerta máximo para queimadas.
“Estamos diante de uma tragédia de proporções imensuráveis. Lamentavelmente, este não é um caso isolado — como vimos nos incêndios no Pantanal e nas enchentes no Rio Grande do Sul, onde mais de um milhão de animais da pecuária foram impactados. É preciso urgentemente estabelecer planos de contingência eficazes que incluam esses animais em casos emergenciais”, conclui a diretora da Sinergia Animal no Brasil.
Seguro Rural
O Governo de São Paulo, por meio da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, disponibilizou o valor recorde de R$ 100 milhões para produtores afetados pelos incêndios de subvenção ao seguro rural.
Ofertado pelo Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (FEAP), conta com 15 seguradoras credenciadas, que concedem subvenções que variam de 25% a 30%, dependendo da cultura produtiva. O limite, por produtor rural, é de R$ 25 mil e qualquer agricultor prejudicado pode acessar o crédito.
A subvenção tem como objetivo amenizar os impactos das perdas de produção, causadas pela seca e outras intempéries, além de disponibilizar recursos para custeios emergenciais.