Brasil organiza defesa em investigação da China sobre carne bovina
Processo chinês deve durar cerca de oito meses
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No final do ano passado, o Ministério do Comércio da China anunciou uma investigação para a possível aplicação de medidas de salvaguarda sobre a carne bovina importada, afetando grandes exportadores, como Brasil, Argentina e Austrália.
O processo, que abrange o período entre 2019 e o primeiro semestre de 2024, deve durar cerca de oito meses.
O principal argumento da China é que o excesso de oferta no mercado interno tem pressionado os preços da carne bovina a mínimas históricas.
Como maior importador mundial do produto, o país avalia mecanismos para proteger sua indústria local, justificando as salvaguardas como medidas temporárias permitidas pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A estratégia brasileira
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) será representada pelo escritório Barral Parente Pinheiro Advogados. Segundo Welber Barral, sócio da firma, a defesa brasileira focará em demonstrar que as exportações não causaram impacto significativo na produção doméstica chinesa.
“Nosso argumento central é que não houve surto imprevisto de importações e que não há evidências de dano grave à indústria local, conforme exigido pelo Acordo de Salvaguardas da OMC”, destacou Barral em entrevista ao Estado de São Paulo.
Ele também representa o Instituto Nacional de Carnes (INAC), do Uruguai, no caso.

Segundo ele, um dos principais argumentos é que não há um dano grave para a indústria chinesa. "Porque a China consome 12,6 milhões de toneladas e só 2,6 milhões de toneladas são importados. A maior parte da produção ainda é doméstica”, explicou.
Além de apontar a ausência de impacto severo, a defesa pretende argumentar que as medidas de salvaguarda, caso aplicadas, poderiam gerar inflação e prejudicar o abastecimento no mercado chinês.
Como alternativa, segundo ele, caso as salvaguardas sejam inevitáveis, a estratégia será buscar uma cota de exportação que minimize os danos ao setor brasileiro.
Cooperação bilateral
No ano passado, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informou que, durante o período de análise, o governo brasileiro, em parceria com o setor exportador, buscará exatamente isso: demonstrar que a carne bovina brasileira não prejudica a indústria chinesa.
A nota reforça que, pelo contrário, a carne brasileira complementa a produção local da China, estimada em 12 milhões de toneladas anuais.
Impacto no setor
A China é o principal destino das exportações brasileiras desse produto, representando 42% do valor total do comércio de carne bovina, seguido pela Argentina (15%) e Austrália (12%).
A exportação de carne bovina do Brasil atingiu um marco inédito em 2024, consolidando o país como um dos maiores players no mercado global de proteínas animais.
O volume exportado chegou a 2,89 milhões de toneladas, representando um crescimento de 26,2% em relação ao ano anterior,
Em 2024, a China manteve sua posição como principal compradora da carne bovina brasileira, com 1,33 milhão de toneladas importadas, o equivalente a US$ 6 bilhões em receita.
O volume exportado para o mercado chinês cresceu 11,76%, enquanto o faturamento teve alta de 4,71%.
Segundo Roberto Perosa, presidente da Abiec, a abertura da investigação ainda não impactou a rotina dos frigoríficos nem o planejamento das exportações brasileiras. “Nada muda por enquanto”, garantiu ao Globo Rural.
Com a importância da China para o setor, o Brasil busca evitar impactos significativos e preservar sua posição no mercado internacional de carne bovina.