“Vazio energético” limita expansão da agricultura irrigada
Estudo aponta déficit de energia elétrica nos polos irrigados e cobra políticas públicas para o setor
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A falta de infraestrutura elétrica adequada no campo está travando o avanço da agricultura irrigada no Brasil.
Um mapeamento inédito da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) escancarou o que produtores já sentem na prática: a escassez de energia elétrica de qualidade é um dos principais entraves ao crescimento da irrigação, essencial para a produtividade agrícola em um país com forte sazonalidade de chuvas.
O estudo, elaborado em parceria com a Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), aponta a urgência de investimentos em infraestrutura energética rural para garantir a continuidade da produção e reforçar a segurança alimentar nacional e global.
Segundo o levantamento, a intenção é fornecer dados que subsidiem políticas públicas, orientem o planejamento do setor e atraiam investimentos.
“Os resultados obtidos não apenas oferecem uma visão clara da situação eletroenergética atual da irrigação no Brasil, mas também servirão como ferramentas valiosas para a análise das futuras expansões”, destaca o relatório.
O levantamento evidenciou uma demanda reprimida nas principais regiões agrícolas do país. Em muitos casos, a energia que chega ao campo é insuficiente ou de baixa qualidade, comprometendo o funcionamento dos sistemas de irrigação e impactando diretamente a produção.

Indicadores de alerta
Entre os principais instrumentos desenvolvidos estão o Índice de Adensamento Rural (IAR) — que mede a presença de rede elétrica de média tensão em áreas rurais — e o indicador de Energia Não Suprida (ENS), que avalia a frequência e duração das interrupções no fornecimento.
Ambos confirmam o cenário deficitário: a eletricidade fornecida hoje não atende de forma plena às exigências da agricultura irrigada.
“O não suprimento de energia significa falta de água nas lavouras, tempo que os equipamentos de irrigação não puderam funcionar por falta de energia, portanto, afeta diretamente a produção agrícola”, reforça o documento.
Expansão exige mais rede elétrica
O estudo também projeta o futuro. Para atender à demanda esperada da irrigação, a expansão da rede elétrica precisaria crescer entre 5% e 7% ao ano — taxa que chega a ultrapassar os 20% em estados da Região Norte, como Amazonas e Tocantins.
A estimativa de crescimento da irrigação no Brasil foi baseada em dados da Esalq/USP e do Atlas da Irrigação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), com projeções até 2040 compatíveis com os marcos atuais do planejamento agropecuário.
Em um recorte regional, o Norte concentra os maiores desafios estruturais. Já a Região Sudeste, onde a pressão por expansão é alta, exige esforços técnicos para elevar a capacidade instalada em estados como São Paulo e Minas Gerais.
Em alguns locais, como o Oeste da Bahia, o déficit já compromete polos consolidados de agricultura irrigada.
O estudo também analisou 16 polos de agricultura irrigada em todo o país. A conclusão: o déficit atual de energia elétrica nessas regiões é de 2,5 gigawatts. Para 2040, esse número deve dobrar, alcançando 5 GW, o que evidencia a necessidade de ações estruturais urgentes.
Propostas para políticas públicas
Entre as estratégias sugeridas, estão ajustes no Procedimentos de Distribuição de Energia Elétrica (Prodist) e na Política Nacional de Irrigação, com foco em adaptar os critérios de planejamento à realidade do campo.
A proposta inclui maior integração entre os setores de energia e irrigação, ampliação do horizonte de planejamento e atenção especial a áreas de baixa densidade de carga.
O estudo também destaca que, até hoje, nenhuma política energética nacional considerou, de forma estruturada, as necessidades específicas da irrigação.
“É preciso articular o setor agropecuário com os agentes do setor elétrico para garantir que o planejamento contemple as demandas reais do campo”, conclui o relatório.