"Pessoas estão viciadas no Bolsa Família", diz Rei do Ovo
Empresário Ricardo Faria critica burocracia, alta carga tributária e aponta entraves ao crescimento das empresas no Brasil
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O empresário Ricardo Faria, fundador da Granja Faria e presidente da Global Eggs, afirmou que o ambiente de negócios no Brasil é travado pela burocracia, pelo excesso de impostos e pela falta de liberdade para empreender.
Em entrevista à Folha de S. Paulo, Faria também criticou o programa Bolsa Família e disse que o modelo atual desestimula a qualificação profissional e dificulta a contratação de mão de obra.
“Está um desastre no Brasil. Por duas razões. Primeiro, porque as pessoas estão viciadas no Bolsa Família. Não temos nem a chance de trazer essas pessoas para treinar e conseguir dar uma vida melhor, porque elas estão presas no programa”, disse.
Faria lidera um conglomerado global com sede em Luxemburgo que reúne, além da Granja Faria no Brasil, o Hevo Group na Espanha e a Hillandale Farms nos Estados Unidos, uma das maiores fornecedoras de ovos do país. Ao todo, sua operação produz cerca de 13 bilhões de ovos por ano.
Ao ser questionado sobre o crescimento acelerado de suas empresas, Faria destacou que o segredo está em uma gestão baseada em meritocracia e escolhas estratégicas.
“Se você quer ter um processo de crescimento rápido e um ambiente meritocrático, o grande desafio é se livrar do B”, afirmou à Folha, referindo-se a gestores que contratam profissionais menos qualificados por insegurança.
Ele também revelou que tem adquirido uma empresa por mês como parte do plano de expansão da holding RCF Capital, que inclui negócios de grãos, fertilizantes e gestão agrícola.
Burocracia e entraves ao empreendedorismo
Faria comparou as dificuldades de operar no Brasil com remar contra a correnteza. “Operar no Brasil é comprar uma canoa, pegar o remo e começar a remar rio acima. É uma árvore caída e daqui a pouco você vê uma cobra, um jacaré. Isso é tocar o negócio do Brasil.”
Segundo ele, as diferenças com outros países são evidentes. “Nos Estados Unidos, tudo é fácil. Quer montar uma empresa? Demora duas horas. Quer fechar a empresa, é uma hora e meia. Quer contratar, chega na rua e contrata a pessoa.”
Apesar da aprovação da reforma trabalhista em 2017, Faria acredita que há um retrocesso em curso. A solução, segundo ele, passa pela desburocratização e redução da interferência estatal. “Tirar o Estado se metendo em tudo que o cidadão e as empresas vão fazer”, resumiu.

Tributação e mudança de residência fiscal
Faria também comentou a decisão de transferir sua residência fiscal para o Uruguai. Ele afirmou à Folha de S. Paulo que a escolha não teve relação com medidas do governo atual, mas com a estratégia de internacionalização da empresa. “Nosso negócio hoje é 80% fora do Brasil.”
Ao criticar o aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), classificou a medida como mais um custo que desestimula o financiamento. “Faz dois anos que eu não faço financiamento no Brasil. Vou ficar mais uns cinco.”
Preço do ovo e gripe aviária
Faria também se manifestou sobre o aumento do preço do ovo, que ganhou destaque no início de 2024 e chegou a ser citado pelo presidente Lula em tom crítico. Para o empresário, o tema foi exagerado.
“É falta de assunto. Houve um descasamento de oferta e demanda por 30 dias. Em fevereiro, teve um calor absurdamente alto e houve naquele momento uma mortalidade de aves fora do normal. O Brasil deve ter perdido aí pelo menos uns 3% do seu plantel.”
Segundo ele, o mercado já se normalizou.
“A água voltou para o mar. O plantel das empresas já voltou ao normal.” Faria ainda comparou a situação sanitária brasileira com a americana. “Estamos falando de 50 milhões de galinhas que morreram lá [nos EUA]. Aqui morreram 16 mil. O Brasil tem uma grande fortaleza sanitária. Os hábitos de higiene no segmento de avicultura no Brasil são os melhores do mundo.”
Nascido em Niterói (RJ), Ricardo Castellar de Faria tem 50 anos e é formado em engenharia agronômica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Passou a infância em Santa Catarina, onde fundou a Granja Faria, hoje sediada em Lauro Müller. Ele também é presidente da Associação Catarinense de Avicultura (ACAV) e lidera uma das maiores produtoras de ovos comerciais, ovos férteis e pintos de um dia do país.
Apesar de ter ganhado o apelido de “rei do ovo”, diz não se identificar com o título. “Não sou rei de nada. Sou um cara que trabalha duro, tomo risco, não herdei nada. Não tem muito a ver. O Financial Times botou ‘egg king’, aí matou (risos).”