COP30 põe à prova promessas de financiamento climático e transição energética

    Conferência reúne 194 países e cobra ação concreta para adaptação, transição justa e cumprimento das metas do Acordo de Paris

    Por |
    COP30 põe à prova promessas de financiamento climático e transição energética
    10deNovembrode2025ás09:08

    Belém, capital do Pará, se torna, a partir desta segunda-feira (10), a  capital mundial das discussões sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas  e sobre os investimentos necessários para alcançar esses objetivos. 

    A 30ª Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês) ocorre até 21 de novembro e marca a primeira edição realizada na Amazônia, bioma que abriga a maior biodiversidade do planeta e funciona como regulador do clima global. 

    O evento tem a missão de recolocar o tema climático no centro das prioridades internacionais. Segundo a presidência da COP30, delegações de 194 países e da União Europeia confirmaram participação.

    >> SIGA O CANAL DO AGROFY NEWS NO WHATSAPP

    A capital paraense deve receber mais de 50 mil visitantes, entre negociadores, cientistas, representantes de governos, organizações civis e movimentos sociais. 

    Cúpula do Clima reforça o tom político 

    Nos dias que antecederam a conferência, Belém sediou a Cúpula do Clima, que reuniu cerca de 70 países e reforçou o tom político das negociações.

    O anfitrião Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ações concretas e o compromisso global de evitar o aumento permanente da temperatura média do planeta acima de 1,5°C. 

    “A COP30 é a COP da verdade”, afirmou Lula, ao reiterar a urgência do financiamento para adaptação e transição energética e a necessidade de reduzir a dependência de combustíveis fósseis. 

    cop30-belem-financiamento-transicao-energetica

    Para o secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, a reunião de líderes foi um passo relevante. 

    “O presidente Lula disse que quer ver, no fim da conferência, um mapa do caminho, um roteiro de como fazer a transição, porque ela não vai acontecer da noite para o dia. Esse recado foi fundamental”, afirmou. 

    Segundo dados da plataforma Climate Watch, o uso de combustíveis fósseis responde por 75% das emissões globais de gases de efeito estufa. A agricultura representa 11,7%, seguida por resíduos (3,4%), processos industriais (4%) e desmatamento (2,7%). 

    Conjuntura desafiadora 

    O cenário global é de tensão. Conflitos armados, o recuo dos Estados Unidos do Acordo de Paris sob o governo Donald Trump e o aumento recente das emissões de CO₂ reacenderam o alerta. 

    Até agora, menos de 80 países atualizaram suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) — compromissos assumidos no Acordo de Paris para reduzir emissões. Esses países representam 64% das emissões globais. China, EUA e União Europeia já apresentaram novas metas, mas a Índia, terceira maior emissora, ainda não. 

    “Você esperava que eles apresentassem essas promessas durante a cúpula, mas isso não aconteceu. Foi um lado muito ruim”, criticou Astrini. 

    Em carta divulgada no sábado (9), o presidente-designado da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, apelou para que Belém marque “um ciclo de ação” e defendeu união e cooperação internacional. 

    Eventos preparatórios como a Conferência de Bonn, em junho, e a Pré-COP, em Brasília, ajudaram a pavimentar as negociações. As decisões da COP exigem consenso entre as 198 partes da Convenção e do Acordo de Paris, um processo sempre complexo. 

    Adaptação e transição em foco 

    Três eixos devem dominar as discussões: adaptação climática, transição justa e a implementação do Balanço Global (GST) do Acordo de Paris. 

    A adaptação trata da preparação de cidades e territórios para eventos extremos — como o tornado que destruiu Rio Novo do Iguaçu (PR). A COP30 deverá estabelecer indicadores para o Objetivo Geral de Adaptação Climática, medindo o progresso dos países. 

    A transição justa busca garantir políticas públicas para trabalhadores e comunidades impactadas pela mudança para economias de baixo carbono. Já a implementação do GST, iniciado na COP28 em Dubai, orienta os países sobre como superar os desafios do aquecimento global.

    Financiamento: o gargalo das negociações 

    O financiamento climático é considerado o principal impasse. 

    “Os países ricos prometeram colocar dinheiro na mesa para permitir que outros se desenvolvessem sem gerar pobreza, mas o dinheiro nunca apareceu. Isso criou uma crise de confiança”, afirma Márcio Astrini. 

    Para destravar o tema, foi apresentado o “Mapa do Caminho de Baku a Belém”, elaborado pelas presidências da COP29 e COP30, com a meta de viabilizar US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento climático. 

    O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado durante a Cúpula do Clima, integra essa estratégia.

    O projeto prevê US$ 5,5 bilhões para financiar a preservação de florestas tropicais em cerca de 70 países, com pelo menos 20% dos recursos destinados a povos indígenas e comunidades tradicionais. 

    Mobilização da sociedade civil

    Além da diplomacia, a COP30 promete ser uma das mais participativas da história. A Zona Verde, no Parque da Cidade, será aberta ao público e reunirá organizações, comunidades e projetos de inovação.

    “Clima não é conversa de ambientalista ou diplomata. Clima tem a ver com o nosso dia a dia — com o preço do café, com a conta de luz, com o prato de comida”, lembra Astrini.

    Ele destaca ainda a amplitude da mobilização brasileira.

    “Essa já é a COP vitoriosa, porque movimentou diversos setores, religiosidade, movimento negro, saúde, educação — que se aproximaram da agenda do clima.”

    A Cúpula dos Povos, organizada por movimentos sociais, começa na quarta-feira (12) na Universidade Federal do Pará (UFPA), com uma barqueata pelo Rio Guamá e uma grande marcha dos povos no dia 15.

    “O que precisamos é que os acordos firmados sejam cumpridos. E que quem lida com a proteção territorial e a preservação esteja à mesa de negociação — de igual para igual”, afirma Dinamam Tuxá, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

    Temas nesta notícia