Para Banco Central, endividamento rural está em situação ‘alarmante’
Quem precisa pagar pelo arrendamento da área em que produz não está mais conseguindo honrar os financiamentos
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O diretor do Departamento de Regulação, Supervisão e Controle das Operações do Crédito Rural e do Proagro (Derop), do Banco Central, Claudio Figueiras, afirmou que o endividamento rural chegou num estágio “alarmante”.
A fala de Figueiras ocorreu durante audiência pública no Senado Federal. Na ocasião, ele apresentou um balanço financeiro sobre o tema, onde demonstrou que a situação é ainda pior para aqueles que precisam pagar arrendamento das áreas em que produzem.
Estes já estão amargando prejuízos e não estão mais conseguindo honrar os financiamentos.
O mais recente levantamento divulgado pelo Banco Central segue pelo mesmo caminho, apontando que a inadimplência no crédito rural alcançou 7,9% a pessoa física no primeiro trimestre de 2025, acima dos 7% registrados no mesmo período de 2024, um sinal de alerta para a sustentabilidade financeira do setor.
Ainda segundo o BC, o endividamento e o inadimplemento cresceram especialmente entre produtores de grande porte, que registraram taxa de 10,7%, especialmente no Paraná, Centro Oeste e São Paulo.
A análise revela que muitos desses produtores recorreram a diversas linhas de créditos em sequência, mesmo após perdas, dobrando a aposta em um padrão de risco e endividamento crescente que pesa sobre a saúde financeira da atividade rural.
Outros Motivos
De acordo com dados públicos e com especialistas do setor, há uma combinação de fatores pressionando o agronegócio: juros elevados, custo alto de insumos, aumento nos custos de produção e crise climática.
Essas variáveis aumentam os riscos de safra e reduzem as margens de lucro, tornando mais difícil honrar compromissos financeiros.
Já os produtores que não recorreram a crédito ou financiaram parcialmente mostraram resultados melhores, o que sugere que o grau de endividamento e financiamento influencia diretamente na capacidade de retorno financeiro.
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BNDES libera crédito para afetados pelo clima
O BNDES liberou R$ 2,45 bilhões por meio de seu programa de “Liquidação de Dívidas Rurais” para apoiar agricultores que sofreram perdas significativas de safra em função de eventos climáticos extremos.
A linha de crédito já beneficiou cerca de 8,3 mil operações distribuídas em 485 municípios de 16 estados. Deste total, aproximadamente R$ 1,5 bilhão (61%) foram direcionados a produtores familiares e médios, justamente os mais vulneráveis a quebras de safra.
O programa permite usar os recursos para quitar dívidas de custeio, investimento ou Cédulas de Produto Rural (CPR), contratadas até 30 de junho de 2024.
As condições de pagamento são favoráveis: até nove anos de prazo, com um ano de carência. Para ter acesso à linha de crédito, os produtores precisam comprovar que suas propriedades estão em municípios que, entre 2020 e 2024, tiveram declaração de emergência ou calamidade pública por eventos climáticos, e que sofreram perdas acima de determinados percentuais em safras recentes.
Incertezas para o Futuro
O aumento da inadimplência traz preocupações estruturais para o agronegócio. Quando os produtores enfrentam dificuldade de cumprir seus compromissos, há risco de retração de investimentos, atraso em insumos, corte de custos e até abandono de áreas, cenário que afeta produção, oferta e pode agravar a inflação de alimentos no mercado.
Além disso, o crescimento de operações renegociadas, prorrogadas ou em atraso (15% da carteira rural, segundo o Banco Central) mostra que muitos produtores já estão com dificuldade de fluxo de caixa, o que aumenta o risco para o crédito rural.
Para arrendatários e produtores que dependem totalmente de financiamento, as perspectivas são sombrias: o endividamento se tornou uma armadilha financeira, especialmente em anos de safra complicada ou de custos elevados.
O quadro atual força uma reflexão sobre o modelo vigente, que vem mostrando fragilidades quando há sequência de adversidades.
Para muitos especialistas do setor, é urgente rever taxa de juros, prazos, exigências e mecanismos de mitigação de risco, como seguro rural mais robusto, maior flexibilidade para renegociação e incentivo a práticas de produção menos dependentes de insumos caros.
Para os produtores, o momento é de planejar a safra com realismo, evitar endividamento excessivo, diversificar culturas, usar insumos e técnicas de manejo que reduzam custo e risco, e manter liquidez para atravessar períodos difíceis.