O produtor enterra dinheiro na terra e sem seguro todo o risco é dele, diz Tirso Meirelles
Em entrevista exclusiva, o presidente da Faesp alerta para o risco climático crescente, comenta juros elevados e detalha os novos centros de excelência em SP

Para Tirso Meirelles, o produtor brasileiro segue arcando sozinho com riscos que o governo deveria compartilhar
“O produtor pega o dinheiro e enterra na terra. Se chover pouco ou demais, perde. Sem seguro, é impraticável”, disse Tirso Meirelles, presidente do Sistema FAESP/Senar-SP, ao avaliar o ciclo de 2025 para o agro paulista e brasileiro.
A frase, repetida por ele ao longo da conversa com o Agrofy News durante o 6º Encontro Nacional das Mulheres Cooperativistas (Enmcoop), em Itupeva (SP), sintetiza a atenção total que o setor precisa ter diante de um cenário que combina clima imprevisível, juros elevados, custos crescentes e falta de proteção adequada ao produtor.
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Tirso afirma que 2025 tem sido “um ano muito complexo”, especialmente após a taxação de 50% imposta pelos Estados Unidos, que, segundo ele, gerou uma perda de 5 bilhões de dólares e desmontou parte do mercado exportador.
“Perdemos mercado, mas mostramos resiliência e abrimos novos destinos, como México e Argentina”, disse, ao criticar a falta de habilidade diplomática do governo brasileiro no episódio.
No campo doméstico, o presidente da FAESP não suaviza o diagnóstico.
“O arcabouço fiscal não está funcionando e a taxa de juros é muito elevada”, afirmou.
“Com 22%, eu pedi aos produtores que não fizessem investimentos. É abusivo, não tem como pagar.” A orientação, segundo ele, foi priorizar custeio e produtividade, evitando riscos desnecessários num ambiente econômico instável.

Clima imprevisível e o risco que só cresce
A metáfora do dinheiro enterrado volta sempre que ele fala de clima. Para Tirso, a imprevisibilidade dos ciclos extremos tornou a operação agrícola ainda mais vulnerável.
“Antes, esses ciclos demoravam 20 anos. Agora caem para cinco, três anos. Fica mais difícil controlar”, explicou.
É por isso que a irrigação, segundo ele, deixou de ser opção. “A irrigação é o seguro que nós precisamos.” Tirso critica o fato de o Plano Safra ter sido lançado sem um seguro rural robusto. “Nos Estados Unidos, 96% das propriedades têm seguro. Aqui, chegamos a 4%. Não faz sentido.”
Ele também aponta dificuldades no campo ambiental.
“Fizeram um plano ambiental prejudicando o produtor. Não podemos compensar APP e reserva legal. Hoje o código florestal é o mais severo do mundo”, disse. Para ele, o governo cria restrições “surreais” ao tratar espécies como pínus, eucalipto, manga, tilápia e limão como exóticas e limitadas na produção.
Centros de excelência por todo o estado
Apesar das críticas, Tirso dedica boa parte da conversa a falar dos investimentos estruturantes da FAESP e do Senar-SP. Ele lista um conjunto de centros de excelência que começam a ser inaugurados em 2025 e que, segundo ele, fortalecem tecnologia, inovação e capacitação no campo. São eles:
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São Roque – Centro de Big Data, inteligência artificial e bioinsumos (inauguração em maio).
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Ribeirão Preto – Centro de biocombustíveis e cana-de-açúcar (maio).
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Avaré – Centro de agroindústria e irrigação.
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Mirante do Paranapanema – Centro de agricultura familiar (julho).
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São Paulo (capital) – Centro de cultura urbana, em parceria com Ricardo Nunes.
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Miracatu (Vale do Ribeira) – Centro de cacau com banana.
- São José do Rio Preto – Centro de cacau com seringueira, com ações voltadas também para melhoria de carcaça e leite.
“Vamos abrir para o Brasil todo, para que recebam o aprendizado e levem tecnologia para as regiões produtoras”, disse Tirso.
Ele cita ainda o programa de saúde rural em parceria com o Hospital Albert Einstein, que atua diretamente nas propriedades; a assistência técnica gerencial que acompanha 5 mil produtores por dois anos e aumenta a produtividade média em 42%; e as ações voltadas às mulheres, que já reuniram 3.500 participantes e devem alcançar 30 mil anualmente.
O desafio de 2025 e a necessidade de cautela
Apesar de reconhecer que os preços seguem achatados e que a lucratividade do produtor “é muito pequena”, Tirso mantém uma visão pragmática para o futuro.
“A vantagem do Brasil é que podemos fazer três, quatro safras por ano. O mundo não tem estoque e vai precisar da agricultura”, afirmou.
Para ele, o caminho é seguir com produtividade, união e planejamento. Mas reforça: enquanto o risco continuar exclusivamente no colo do produtor, o cenário exige cautela. “O produtor pega o dinheiro e enterra na terra. Se chover muito perde, se não chover perde”, repetiu. “Sem seguro, é impraticável.”
