Resistência e resiliência no cacau: cooperativa do Pará garante renda a 200 famílias

    Mesmo com a forte oscilação dos preços, a Campaqs mantém a produção de 1.000 toneladas por ano, aposta na sustentabilidade e fortalece a agricultura familiar

    Resistência e resiliência no cacau: cooperativa do Pará garante renda a 200 famílias
    08deDezembrode2025ás16:05

    Em meio à montanha-russa dos preços do cacau desde 2024, a Cooperativa Alternativa Mista dos Pequenos Produtores do Alto Xingu (CAMPPAX), de São Félix do Xingu, no Pará, transformou a instabilidade em estratégia de sobrevivência.

    Com mais de dez anos de atuação e cerca de 200 cooperados, a entidade encerra 2025 sob a marca da resistência e entra em 2026 com resiliência e estabilidade no radar.

    “A palavra que define 2025 é resistência, e 2026 é resiliência”, resume Solange Ferreira Feitosa, administradora da cooperativa. 

    A entrevista foi concedida durante o 6º Encontro Nacional das Mulheres Cooperativistas (Enmcoop), realizado em Itupeva (SP), evento que reuniu lideranças femininas de cooperativas de várias regiões do país para debater gestão, comercialização, sustentabilidade e sucessão no campo. 

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    A disparada histórica do preço do cacau ao longo de 2024, seguida por uma queda brusca no fim do último trimestre, impôs desafios inéditos à cadeia.

    “Tivemos uma alta no preço que nunca havia existido e agora, já no final, o preço caiu de uma vez também. Isso trouxe muitas transformações para o mercado”, relata Solange.

    Segundo ela, em determinados momentos, vender fora da cooperativa chegou a ser mais vantajoso para alguns produtores, o que exigiu da CAMPPAX reorganização de contratos e reforço no controle financeiro para manter o escoamento da produção. 

    “Mas a gente conseguiu muito bem. Com a experiência de 2024, em 2025 já conseguimos sustentar um pouco melhor e trazer melhores resultados”, afirma. 

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    Produção anual de 1.000 toneladas 

    A CAMPPAX trabalha hoje com cerca de 1.000 toneladas de amêndoas de cacau por ano, principal atividade da cooperativa. Além do cacau, também comercializa castanha-do-pará e folha de jaborandi. O foco está no mercado interno, com fornecimento para moageiras e chocolateiras, inclusive empresas que destinam parte da produção ao exterior. 

    A cooperativa ainda mantém um grupo de produtores de cacau orgânico certificado pela IBD. “A gente poderia exportar, mas o nosso cliente já faz esse trabalho. A gente vende com o selo e eles compram”, explica Solange. 

    Três cenários para enfrentar a volatilidade 

    Diante da forte oscilação de preços, a CAMPPAX passou a trabalhar com três cenários de mercado para orientar o planejamento. O primeiro, mais conservador, considera valores entre 20 e 25. Um segundo cenário gira em torno de 30. Já o mais otimista, esperado pelos produtores, projeta preços entre 40 e 45. 

    “Mais do que apostar em um preço muito alto, a gente aposta na estabilidade. Com preço estável, o produtor se programa melhor e a cooperativa também consegue atender melhor”, diz. 

    Produção sustentável e foco na agricultura familiar 

    A base produtiva da CAMPPAX é o sistema agroflorestal, no qual o cacau é cultivado em meio à vegetação nativa. A cooperativa incentiva fortemente a redução do uso de agrotóxicos, com avanço no uso de produtos biológicos.

    “O cacau é uma cultura perene. Não tem desmatamento. Ao contrário, é uma forma de reflorestar”, destaca Solange. Toda a produção é conduzida por agricultura familiar, sem mecanização pesada. “São famílias trabalhando, gerando renda dentro da própria casa.” 

    Cooperativa muda a lógica dos preços 

    Antes da atuação da CAMPPAX na região, o mercado era dominado por atravessadores. “Eles colocavam o preço que queriam, sempre abaixo do mercado”, lembra Solange. Com a cooperativa consolidada, essa lógica mudou. 

    “Hoje a cooperativa mantém o preço de acordo ou acima do mercado. Mesmo quem não entrega para a gente acaba sendo beneficiado, porque a nossa presença força todo mundo a manter o preço”, afirma. 

    Região em transformação econômica 

    São Félix do Xingu é um dos maiores municípios do Brasil em extensão territorial e historicamente foi marcado pela pecuária e pela mineração. Nos últimos anos, a paisagem econômica começou a mudar. A agricultura familiar ganhou força, a soja avançou, e o cacau passou a ocupar um espaço estratégico. 

    “O cacau hoje já divide praticamente meio a meio com a pecuária”, observa Solange. Antes secundária, a cultura passou a ser uma das bases da renda no campo. 

    Da resistência à resiliência 

    Se 2025 foi marcado pela resistência, a expectativa para 2026 é de resiliência e maior previsibilidade. “Mesmo que o preço não seja aquele que o produtor sonha, a estabilidade é melhor para todo mundo”, avalia a administradora. “Para a cooperativa e para o produtor.”

    A história de Solange com o cooperativismo começou no trabalho social, por meio da Comissão Pastoral da Terra, ligada à Igreja. Atuou em associações de agricultura familiar, se afastou para se formar e retornou mais tarde já como administradora da CAMPPAX, responsável pela parte administrativa e financeira. 

    “Minha irmã e meu cunhado são produtores de cacau e sócios da cooperativa. Sou apaixonada por esse trabalho social. Enquanto a cooperativa estiver cumprindo seu papel, eu estarei lá”, afirma.

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