Da curiosidade científica ao “Nobel”: a trajetória da pesquisadora Mariangela Hungria na agricultura

Com 43 anos dedicados à Embrapa, pesquisadora é referência mundial em fixação de nitrogênio no solo e avanço dos biológicos no agronegócio

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Da curiosidade científica ao “Nobel”: a trajetória da pesquisadora Mariangela Hungria na agricultura
15deJaneirode2026ás10:33

Se o que hoje conhecemos de insumos agrícolas biológicos, técnicas de produção de baixo carbono e agricultura sustentável, sobretudo àquela que garante segurança alimentar a 10% do mundo em que vivemos, muito se deve às pesquisas, ambições e contribuições de uma cientista brasileira: Mariangela Hungria.

Reconhecida internacionalmente pelos trabalhos de fixação de nitrogênio no solo a partir do uso de bioinsumos e pelas mais de 500 publicações científicas na academia, Hungria carrega - para além de toda a inteligência que transborda - uma trajetória marcada por estudo, empoderamento e família.

Hoje, com 43 anos completos dedicados à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a pesquisadora celebra a conquista de ser a primeira mulher brasileira a receber, em 2025, o Prêmio Mundial da Alimentação, o chamado “Nobel da Agricultura”, pela World Food Prize Foundation, e vê o crescimento da tecnologia agrícola avançar ano a ano, com potencial de elevar o uso no campo de 15% para 50%.

Trajetória

A curiosidade científica que levou a então pesquisadora a alcançar o topo começou lá trás, há muitos anos, quando ainda criança o contato com a natureza era ensinado e permeado pela cientista, professora e avó materna. Em entrevista ping-pong especial à CropLife Brasil, Mariangela divide sua história e trabalhos na agricultura. 

O resultado completo do material, você acompanha no site da CLB: Curiosidade científica ao “Nobel”: trajetória da Mariangela Hungria - CropLife

 

“Desde que eu me entendo por gente, eu tinha assim essa curiosidade científica”
 Mariangela Hungria

 

1 – Professora, me conta um pouco da sua história. Como você chegou a ser pesquisadora, se esse sonho é de criança ou não, como você se interessou pelos bioinsumos. Quem é Mariangela Hungria?

Eu nasci em São Paulo, capital, mas minha família é do interior. Não sei como minha mãe naquela época conseguiu, porque eu nasci de 8 meses, mas ela tomou o trem para ir de Itapetininga até São Paulo, não sei te dizer como. Voltei para a minha cidade do interior, que é Itapetininga onde vivi. Tive aquela infância bem diferente dos dias de hoje, que a gente brincava muito na rua, era muito solto, tudo. Mas desde que eu me entendo por gente, eu tinha, assim, essa curiosidade científica.

Eu me interessava muito pelas coisas, queria saber como é que funcionavam. Tive muita sorte. Eu tive uma avó e sempre me identifiquei muito com ela, porque ela era da área de ciência, entende? Ela era farmacêutica e bioquímica de formação e estudou para ser professora, naquela época chamava-se de “ciências químicas, físicas e biológicas”. Foi professora em escola estadual da nossa cidade e ela quem descobriu isso [a ciência] em mim.

Eu tinha muita afinidade com ela, sempre me incentivou muito. Lia comigo os livros de ciências dela, fazia experiência comigo no fundo do quintal. Tipo, cobria as folhas das plantas, que daí sem luz ela ficava amarela, não fazia fotossíntese, ou pesava a bexiga para mostrar que o ar tem peso. Foi assim, uma influência bem mágica. Sempre que eu tinha alguma pergunta, de como funcionavam as coisas, eu lembro que as respostas eram “dos ventos”, “da vida no solo” ...

O que eu acho incrível assim, sabe, é que minha vó era uma mulher realmente a frente do tempo. Ela tinha um carinho pelo solo e sempre me falava que ali tinha muita vida. O que mudou a minha vida foi ela ter me dado um livro, quando eu tinha 8 anos, que chamava “Caçadores de Micróbios”. Achei fantástica a vida dos microbiologistas. Fiquei apaixonada e falei no dia seguinte para minha avó que eu queria ser uma microbiologista.

Só que eu não queria a vida deles [microbiologistas], a maioria a vida era relacionada à microbiologia médica. E falei: “não, mas eu nunca gostei de medicina". Falava: "eu queria alguma coisa assim de natureza, de produzir alimentos". Porque, desde que eu me conheço por gente, ficava muito chocada quando eu via pessoas passando fome. Algumas pessoas iam lá em casa e minha avó tinha até um kit de prato, talher, copo, que separava e dava comida para as pessoas. Aquilo já me determinou. Então, desde que eu era criança foi isso, queria fazer alguma coisa para produzir alimentos e queria ser uma cientista de microbiologia.

Quando eu fiz 10 anos, minha mãe, meu irmão e eu fomos para São Paulo, voltamos para ter melhor estudo. Estudei em um lugar fantástico, Colégio Rio Branco, com bolsa de estudos, durante sete anos. Minha mãe jamais poderia pagar aquele colégio. Lá foi muito importante para mim e para minha formação, sou eternamente grata e tenho contato com o colégio até hoje. De lá fui fazer Agronomia, porque eu queria essa coisa de produzir alimento.

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A cientista brasileira esteve na COP30, Conferência do Clima da ONU, sediada em 2025 em Belém-PA. Lá, exibiu as raízes de soja e trabalhos da Embrapa. Foto: Saulo Coelho/ Embrapa.

2 – Como foi no início dos seus estudos e das pesquisas e desenvolvimento na área biológica? Houve resistência? Naquela época já se vislumbrava a adesão de técnicas sustentáveis ou a introdução ocorreu com o tempo, conforme demonstração da inovação da tecnologia?

Aí tem uma coisa engraçada, que naquela época a agronomia era uma “sub carreira”, sabe.

Eu era a primeira aluna do colégio, fui a única lá todos os anos que cursei e os professores não se conformavam, até chamaram minha mãe para falar: "Mas não pode, ela é primeira aluna, ela tem que ir para a medicina. Como que ela vai para essa coisa de agronomia?”. E minha mãe falava: "Ah, não adianta. É isso que ela quer fazer, deixa para lá. Só não quero que ela sofra sendo professora", já que minha mãe era professora, só que da parte de humanas, de francês. E assim eu fui para a agronomia.

Apesar de ser uma profissão que não era considerada “top”, graças à Deus, as coisas mudaram muito. Eu tenho muito orgulho de ser engenheira agrônoma. Vejo que hoje é uma profissão muito considerada, valorizada e foi muito bom ver essa mudança. Na época, também era majoritariamente masculina e, pior, machista. Podia não ser, mas era muito.

(...) Quando entrei na faculdade, era tudo químico, químico, químico, mas por quê? Porque na década anterior, a gente importava alimento, me lembro disso desde criança. Por exemplo, frutas, maçã era uma coisa, assim, que vinha da Argentina, muito caro. Frango era comida de domingo. Daí, veio Norman Borlaug e Revolução Verde, que, por melhoramento e fertilizantes químicos, conseguiu aumentar muito a produção brasileira (...) inclusive o conceito dele foi que permitiu a expansão para o Cerrado. E todas essas ideias estavam chegando no Brasil.

Não tinha espaço para biológicos. Mas eu tinha dentro de mim, desde criança, que eu queria trabalhar com biológicos na agricultura. Naquela época a gente não tinha bolsas de iniciação científica, o que hoje tem e é uma coisa muito importante. Fiquei grávida por acidente no segundo ano da faculdade, depois no terceiro tive uma outra filha, então tive que trabalhar durante a graduação. Trabalhava na biblioteca, fazia tradução de inglês, fazia serviço de datilografia e consegui economizar um dinheiro.