Guerra no Irã dispara alerta no agro: entenda impactos em fertilizantes, fretes e exportações
Escalada no Oriente Médio pressiona petróleo, eleva custos logísticos e expõe dependência brasileira de insumos importados
Por |
A ofensiva militar de Estados Unidos e Israel contra o Irã coloca o agronegócio brasileiro em alerta em duas frentes sensíveis: mercado e insumos.
Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 2,9 bilhões em produtos agropecuários para o país persa, ao mesmo tempo em que depende do Irã como fornecedor relevante de ureia, fertilizante essencial para a produção agrícola.
A combinação expõe uma relação de interdependência que se torna mais vulnerável em um cenário de escalada geopolítica, que não tem previsão para acabar.
O agravamento do conflito no Oriente Médio já produz efeitos imediatos na economia global. Nesta segunda-feira, o petróleo disparou 13%, pressionando custos energéticos e logísticos — um movimento que tende a se espalhar pela cadeia do agronegócio.
Além disso, no primeiro dia útil após o início dos ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, o dólar chegou a superar os R$ 5,20, mas desacelerou a alta durante a tarde. A bolsa de valores subiu, sustentada por ações de petroleiras, que se beneficiaram da disparada do petróleo.
>> SIGA O CANAL DO AGROFY NEWS NO WHATSAPP
>> ENCONTRE PRODUTOS E SOLUÇÕES PARA O AGRO NO AGROFY MARKET
O dólar comercial encerrou esta segunda-feira (2) vendido a R$ 5,166, com alta de R$ 0,032 (+0,62%). A cotação disparou durante a manhã, chegando a R$ 5,21 por volta das 11h, mas diminuiu o ritmo durante a tarde, com a leve recuperação das bolsas estadunidenses.
Embora o Irã responda por menos de 1% das exportações totais do Brasil, sua importância é maior dentro do agro. O país foi o 31º principal destino das vendas externas brasileiras em 2025 e o quinto no Oriente Médio, atrás de Emirados Árabes Unidos, Egito, Turquia e Arábia Saudita. Ainda assim, superou mercados como Suíça, África do Sul e Rússia.
A região, como um todo, concentra entre 10% e 15% das exportações brasileiras, com destaque para milho e proteínas animais.

Fertilizantes: ponto mais sensível
A principal vulnerabilidade está nos insumos. A escalada das tensões reacende um problema estrutural do agro brasileiro: a dependência externa de fertilizantes nitrogenados, especialmente a ureia.
O Irã ocupa posição estratégica nesse mercado. Em 2025, o Brasil importou cerca de R$ 420 milhões em produtos agrícolas iranianos, sendo aproximadamente R$ 330 milhões apenas em ureia — o equivalente a 184,7 mil toneladas, segundo o Comex Stat.
Embora não esteja entre os três maiores fornecedores, o país é um dos principais exportadores globais do insumo. Em um mercado integrado, restrições logísticas, sanções ou instabilidade na região tendem a pressionar preços internacionais.
O impacto ocorre principalmente via preços. Reduções na oferta ou dificuldades operacionais no Golfo Pérsico elevam as cotações, com repasse rápido ao produtor brasileiro. O encarecimento do gás natural, matéria-prima da ureia, reforça esse movimento.
Hoje, o Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome. No caso dos nitrogenados, a dependência é ainda maior.
Milho: exposição na demanda
Se há risco no custo, também há exposição relevante na receita. O Irã foi, em 2025, o principal comprador de milho brasileiro, com cerca de 9 milhões de toneladas, volume equivalente a aproximadamente 23% das exportações do cereal.
O produto abastece a indústria iraniana de proteína animal, especialmente a cadeia de frango, uma das maiores da Ásia.
Esse fluxo reforça a relação direta entre os dois países: o Brasil exporta milho e importa fertilizantes. Uma deterioração nas relações ou restrições comerciais pode afetar simultaneamente esses dois pilares.
No caso do milho, eventual redução das compras exigiria redirecionamento para outros mercados, possivelmente com ajustes de preço para manter competitividade.
Segundo o diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Glauber Silveira, parte dos negócios já está fechada, o que reduz impactos imediatos.
"Mesmo sem afetar diretamente o comércio, o preço desses insumos já sobe. O produtor é o elo mais fraco e perde mais nessas situações", disse ao Globo Rural.
Pressão sobre custos e decisões no campo
No campo, o principal risco está na elevação dos custos em um ambiente mais volátil. Em culturas como o milho, os fertilizantes nitrogenados representam parcela relevante do custo operacional.
Em ciclos de alta, o efeito costuma ser direto: compressão de margens, revisão de tecnologia e, em alguns casos, redução de área plantada.
Para Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), o cenário reforça uma fragilidade estrutural do país.
“Esse cenário funciona como um alerta claro para o agronegócio brasileiro. Somos altamente competitivos na produção e exportação de grãos e proteínas, mas ainda dependemos de forma excessiva de insumos estratégicos importados, como a ureia. Qualquer instabilidade geopolítica pode afetar diretamente o custo de produção no campo”.
“O Brasil precisa tratar a segurança no abastecimento de fertilizantes como tema estrutural, não conjuntural. Não se trata apenas de preço momentâneo, mas de previsibilidade. O produtor rural trabalha com planejamento de safra, e volatilidade extrema no custo dos nitrogenados compromete decisões de investimento, área plantada e tecnologia aplicada”.
“É fundamental avançar na diversificação de fornecedores e, principalmente, na retomada da capacidade nacional de produção de fertilizantes nitrogenados. O País dispõe de mercado consumidor robusto e potencial energético que pode sustentar esse movimento. Reduzir a dependência externa é uma estratégia de soberania produtiva”.
“Enquanto o cenário internacional permanece incerto, o setor precisa reforçar mecanismos de gestão de risco, contratos antecipados e planejamento logístico. O agro brasileiro já demonstrou resiliência em outras crises globais, mas é preciso transformar essa experiência em política permanente de proteção ao produtor e à segurança alimentar”.
Fretes sob pressão
O conflito já afeta a logística internacional. A tendência é de alta nos fretes marítimos e aéreos, com risco adicional caso haja restrições no Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo global.
Segundo o especialista em comércio exterior Jackson Campos, ao site do Comex
“O desvio de navios para o Cabo da Boa Esperança e a suspensão de rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez têm impacto direto e quase imediato no custo do frete internacional. Quando os armadores deixam de utilizar as rotas mais curtas e passam a contornar a África, o tempo de trânsito aumenta significativamente, o consumo de combustível sobe e isso é repassado ao valor final do frete. Além disso, começam a ser aplicadas sobretaxas de risco de guerra e adicionais emergenciais, o que eleva ainda mais os custos logísticos em escala global”.
No transporte aéreo, ele explica que “a suspensão de voos e o fechamento de espaços aéreos no Oriente Médio geram um efeito em cadeia.”
“Há acúmulo de cargas, redução de oferta de espaço e aumento das tarifas, não apenas para a região afetada, mas também em outras rotas internacionais, já que a malha aérea é interligada. Esse tipo de interrupção costuma levar semanas para ser totalmente normalizado”.
Para o Brasil, o efeito é direto sobre competitividade e custos.
Porto de Santos monitora
Até o momento, não há impacto direto nas operações do Porto de Santos. A avaliação é de monitoramento, diante do caráter global da logística.
“Não há indicação de alteração nas escalas ou comprometimento das operações no porto em função desse cenário. O Porto de Santos é resiliente justamente por ter muitas conexões e alternativas para atender seus cerca de 600 locais de destino”, afirmou o presidente da APS, Anderson Pomini.
Governo vê impacto limitado, por ora
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que não há impacto imediato na macroeconomia, mas destacou a incerteza.
“A escala do conflito vai determinar muita coisa. A economia brasileira está em um momento muito bom de atração de investimento. Mesmo que haja uma turbulência de curto prazo, ela não deve impactar as variáveis macroeconômicas, a não ser, conforme eu disse, que esse conflito venha a escalar".
“Vamos acompanhar com cautela para eventualmente estarmos preparados para uma piora do ambiente econômico que nesse momento é difícil prever que vai acontecer".
Rotas redesenhadas
Exportadores brasileiros já avaliam alternativas logísticas. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, cargas devem ser redirecionadas para o Cabo da Boa Esperança.
“Já está sendo previsto um aumento de custos e também o aumento na demora na entrega dos produtos”, disse ao Globo Rural.
Também estão em análise rotas via Turquia e portos como Salalah, em Omã.
Mais do que um choque pontual, o conflito expõe fragilidades estruturais do agronegócio brasileiro. A dependência de insumos importados, combinada à concentração de mercados compradores, amplia a vulnerabilidade a crises geopolíticas.