Embrapa divulga orientações para enfrentar o El Niño no Sul do Brasil
Documento reúne medidas para reduzir riscos à produção rural diante da previsão de chuvas acima da média e eventos climáticos extremos
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Publicação reúne estratégias de manejo e planejamento para aumentar a resiliência das atividades agropecuárias diante das mudanças nas condições climáticas.. Foto: Paulo Lanzetta
Com até 99% de probabilidade de permanecer ativo até o início de 2027, o El Niño levou a Embrapa a divulgar uma série de recomendações para ajudar produtores rurais da Região Sul a reduzir perdas na agropecuária.
A estimativa é da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que também calcula 63% de chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Diante desse cenário, sete unidades da Embrapa — Clima Temperado (RS), Florestas (PR), Pecuária Sul (RS), Soja (PR), Suínos e Aves (SC), Trigo (RS) e Uva e Vinho (RS) — elaboraram um documento com recomendações para reduzir os impactos provocados pelo excesso de chuvas, aumento da incidência de doenças nas lavouras e outros efeitos esperados em diferentes sistemas de produção.
Para a Região Sul, a previsão indica aumento das chuvas, maior nebulosidade e temperaturas acima da média durante o inverno, condições que podem comprometer diferentes atividades agrícolas e pecuárias.
Os centros de pesquisa responsáveis pela publicação integram a Plataforma Colaborativa para Mitigação de Efeitos Climáticos Adversos na Agropecuária da Região Sul do Brasil.
Mais do que alertar para os riscos, a iniciativa busca fornecer informações técnicas para que produtores, técnicos e instituições planejem suas atividades com antecedência, reduzam prejuízos e tomem decisões baseadas em evidências científicas.
Segundo o pesquisador Gilberto Cunha, agrometeorologista da Embrapa Trigo, o conhecimento acumulado nas últimas décadas permite uma atuação mais preventiva diante do fenômeno.
O pesquisador destaca que a incerteza natural dos eventos climáticos não deve ser motivo para inação, mas para fortalecer a gestão de riscos com base em monitoramento e ciência.
"Hoje sabemos muito mais sobre o El Niño do que sabíamos na década de 1980. O desafio não é prever o fenômeno, mas transformar esse conhecimento em decisões no campo", complementa.
Ele ressalta que os impactos do El Niño não são inevitáveis. "O conhecimento acumulado sobre eventos anteriores permite reduzir riscos e, em alguns casos, até aproveitar condições ambientais favoráveis para determinadas culturas", diz.
A estratégia proposta pela Embrapa reúne ações de prevenção, mitigação e transferência de riscos. Além das boas práticas de manejo, o documento reforça a importância do seguro rural e da tomada de decisões com base em previsões climáticas oficiais.
Planejamento e seguro rural são as principais recomendações
Entre as orientações gerais estão o respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), o acompanhamento permanente das previsões meteorológicas emitidas por órgãos oficiais, o planejamento criterioso dos investimentos e a adesão ao seguro rural.
A publicação também recomenda que produtores ajustem investimentos, uso de insumos e expectativas de produtividade às condições previstas para anos de El Niño, evitando decisões baseadas em cenários de rendimento excepcional e adequando o manejo ao potencial real das lavouras.
As orientações foram organizadas por cadeia produtiva, considerando os diferentes impactos do fenômeno sobre cada sistema agrícola.
Para cereais de inverno, como trigo, cevada e aveia, o foco está na prevenção de doenças, no manejo da adubação e no planejamento da colheita. Para soja, milho e arroz irrigado, o material recomenda medidas para reduzir perdas provocadas pelo excesso de chuva, melhorar a drenagem das áreas, proteger o solo contra a erosão e reforçar o monitoramento fitossanitário.
Na fruticultura, culturas como videira, macieira, pessegueiro, oliveira e nogueira-pecã recebem orientações voltadas à drenagem dos pomares, manejo fitossanitário, conservação do solo e planejamento das operações agrícolas.
O documento também apresenta estratégias específicas para silvicultura, horticultura, pastagens e plantas de cobertura.
Segundo o pesquisador Alex Mayer, da Embrapa Clima Temperado, a fruticultura está entre as atividades mais vulneráveis aos efeitos do El Niño.
"A produção de frutas é muito sensível. Além do encharcamento do solo, que pode comprometer o sistema radicular e levar à morte das plantas, também podem ocorrer perdas provocadas por ventos intensos, granizo e erosão, prejudicando pomares, estruturas de cultivo e a própria produtividade", explica.
Além das recomendações para as propriedades rurais, a Embrapa propõe uma abordagem mais ampla de planejamento ambiental, incentivando ações em microbacias hidrográficas, conservação do solo, fortalecimento da infraestrutura natural e adoção de sistemas produtivos mais resilientes, como os Sistemas Agroflorestais (SAFs) e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).
Transferência de tecnologia amplia a preparação dos produtores
Outro destaque da publicação é a importância da transferência de tecnologia e da comunicação com os produtores. A Plataforma Colaborativa prevê a capacitação contínua de profissionais da assistência técnica e o desenvolvimento de conteúdos digitais, aplicativos e materiais de fácil acesso para ampliar a disseminação das recomendações.
Para José Reinaldo Moraes, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, o principal objetivo é preparar o setor para enfrentar um cenário de maior risco climático.
"A principal mensagem da publicação é que, embora o El Niño exija atenção, ele é um evento previsível e não é sinônimo de problema garantido e, sim, de mudança de padrão de risco. Seus impactos podem ser reduzidos com planejamento antecipado, adoção de boas práticas agrícolas e acesso a informações técnicas qualificadas. Essas medidas são fundamentais para aumentar a resiliência dos sistemas produtivos diante dos eventos climáticos previstos", destaca.
Cunha reforça que o histórico de eventos climáticos deve servir como base para uma agricultura mais preparada.
"Não podemos mais aceitar passivamente a inabilidade para lidar com impactos adversos".
Para o pesquisador, as lições deixadas por eventos anteriores não podem ser ignoradas. Elas devem orientar produtores e técnicos na adoção de medidas preventivas durante o período de maior atenção provocado pelo El Niño.
Planejamento, monitoramento climático e adoção de boas práticas seguem, segundo a Embrapa, como as principais ferramentas para reduzir perdas e aumentar a resiliência da agropecuária diante dos desafios impostos pelo fenômeno climático.