El Niño pode gerar superoferta de grãos na América Latina, aponta estudo

    Fenômeno climático tende a elevar a produtividade de soja e milho no Brasil e na Argentina, enquanto o aumento da oferta pode pressionar a rentabilidade do setor

    Por |
    Colheitadeira realiza a colheita de grãos em lavoura sob céu com nuvens.

    Colheita de grãos em área agrícola; estudo aponta que o El Niño pode favorecer a produtividade em parte da América Latina.

    21deJulhode2026ás16:37

    O fenômeno do El Niño 2026-27 tem potencial para se tornar um dos eventos climáticos mais intensos em mais de uma década.

    Na agricultura da América Latina, especialmente no Brasil e na Argentina, o fenômeno tende a elevar a produtividade e ampliar a oferta de grãos, embora isso não signifique, necessariamente, maior rentabilidade para os produtores.

    Essa é a conclusão do estudo Super El Niño risk: more inflation in Asia, oversupply in Latin America yet little disruption in financial markets, elaborado pela Allianz Research, divisão de pesquisa macroeconômica da Allianz Trade, líder mundial em seguro de crédito.

    Segundo o levantamento, dados de episódios anteriores de El Niño mostram que as safras brasileiras registraram desempenho acima da tendência dos cinco anos anteriores.

    A produção de soja chegou a ficar até 4% acima dessa tendência, em 2015, enquanto o café arábica atingiu até 5% acima do esperado.

    Oferta maior pressiona preços e armazenagem

    Apesar de o clima mais úmido favorecer as lavouras de grãos e oleaginosas no Sul da América do Sul, o estudo alerta que o aumento da produção pode pressionar a rentabilidade do setor.

    Entre os principais desafios apontados pelos economistas da Allianz Research está a queda dos preços das commodities agrícolas. Com uma oferta mais elevada, a tendência é de redução nos valores de comercialização.

    Como a demanda por alimentos é considerada inelástica, o aumento do volume produzido não é suficiente para compensar a queda das cotações, reduzindo a rentabilidade dos produtores.

    Outro ponto destacado é a pressão sobre a infraestrutura de armazenagem.

    A superoferta pode esgotar rapidamente a capacidade de estocagem disponível, elevando significativamente os custos de armazenamento para produtores e tradings.

    Efeitos variam entre as regiões do Brasil

    O estudo ressalta que os impactos do El Niño no Brasil tendem a ser desiguais entre as regiões. Enquanto as áreas agrícolas do Sul devem ser beneficiadas pelo aumento das chuvas, o Norte do país e a bacia amazônica permanecem mais expostos ao risco de seca.

    Essa condição coloca o Brasil, ao lado de Colômbia e Peru, entre os países latino-americanos com vulnerabilidades inflacionárias específicas associadas ao fenômeno.

    Entre os possíveis efeitos estão pressões sobre os preços dos alimentos, dificuldades na logística de transporte e impactos na geração de energia elétrica.

    Mercado global e crédito

    No cenário internacional, os autores avaliam que a maior oferta de grãos, especialmente soja e milho, na América Latina poderá atuar como um fator de equilíbrio para as pressões inflacionárias sobre os alimentos.

    O quadro contrasta com o observado no Leste Asiático e na África Ocidental, regiões que enfrentam risco elevado de seca em culturas como cacau, óleo de palma e arroz.

    Para o setor corporativo, a Allianz Trade projeta que exportadores agrícolas brasileiros poderão apresentar condições operacionais e de crédito mais favoráveis em razão do maior volume produzido.

    Em contrapartida, processadores de alimentos e intermediários tendem a enfrentar maior pressão financeira devido à volatilidade e à queda dos preços das commodities agrícolas no mercado internacional.

    Temas nesta notícia