Leilão de arroz foi anulado por falcatrua, diz Lula
Presidente defendeu a compra no exterior como forma de baixar o preço do alimento
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“Tivemos anulação do leilão porque houve uma falcatrua em uma empresa". A frase foi dita hoje (dia 21) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao admitir que houve irregularidades no leilão para importação de arroz.
Na semana passada, o governo federal cancelou a compra de 263,3 mil toneladas de arroz importado, sob a alegação de que as quatro vencedoras de um leilão não comprovaram capacidade técnica e não eram do ramo. Com o cancelamento, o então secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller, foi demitido
Ainda hoje, Lula defendeu a compra de arroz no exterior como forma de baixar o preço do alimento no mercado interno.
“O cara me mostrou um pacote de arroz de 5 quilos a R$ 36 reais, a R$ 33. Eu falei ‘não é possível’, o povo não pode pagar R$ 36 num pacote de 5 kg, esse arroz está caro, aí tomei a decisão de importar. Depois tivemos a anulação do leilão porque houve uma falcatrua em uma a empresa”, contou em entrevista à Rádio Meio Norte, em Teresina, no Piauí.
O presidente afirmou que os leilões para a importação de 1 milhão de toneladas do grão estão mantidos. Novo edital será publicado, com mudanças nos mecanismos de transparência e segurança jurídica, mas ainda não há data para o novo leilão.
“Mas por que eu vou importar? Porque o arroz, ele tem que chegar na mesa do povo [no máximo] a R$ 20 um pacote de 5 kg, que compre R$ 4 um quilo de arroz, mas não dá para ser a um preço exorbitante”, disse, reafirmando ainda a intenção do governo em expandir a área produtiva de arroz do país.
“Vamos financiar, vamos oferecer o direito do cara plantar e a gente vai dar uma garantia de preço para que as pessoas não tenham prejuízo.”
O objetivo da importação do arroz é garantir o abastecimento e estabilizar os preços do produto no mercado interno, que tiveram uma alta média de 14%, chegando em alguns lugares a 100%, após as inundações no Rio Grande do Sul em abril e maio deste ano.
O estado é responsável por cerca de 70% do arroz consumido no país. A produção local foi atingida tanto na lavoura como em armazéns, além de ter a distribuição afetada por questões logísticas no estado.
As entidades e os produtores, porém, contestam e afirmam que não há risco de desabastecimento.
Abriu diálogo
Para minimizar o estrago causado pela polêmica do leilão de arroz, os ministros do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, da Agricultura e da Pecuária, Carlos Fávaro, e presidente da Conab, Edegar Pretto, se reuniram na quarta-feira (19) com representantes da Câmara Setorial de Arroz e da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz).
O governo considerou aceitar as propostas dos arrozeiros para encaminhar soluções para a crise que se estabeleceu.
“Nós abrimos um canal de diálogo direto com o governo no sentido de buscar alternativas quanto ao leilão. Vai depender de um entendimento de toda a cadeia arrozeira”, destacou o presidente da Federarroz, Alexandre Velho.

A proposta alternativa será construída pelos produtores e deverá ser apresentada ao governo no próximo dia 27 de junho.
O presidente da Federarroz disse, ainda, que a reunião foi uma oportunidade de trazer, por parte do setor produtivo, um esclarecimento.
“Fazê-los entender os grandes riscos que o setor pode ter com o atual plano. Nós abrimos um canal de diálogo e vamos trabalhar nos próximos dias para apresentar uma alternativa e ter uma definição final do governo”, afirmou Velho.
Desgaste e pedido de CPI
A anulação causou um desgaste no governo. Além da demissão de Geller, o o diretor executivo de Operações e Abastecimento da estatal, Thiago José dos Santos, deixou o cargo por causa do leilão. Ele, que é ex-assessor de Geller, tirou licença remunerada. Thiago será substituído pelo diretor de Política Agrícola e Informações (DIPAI) Silvio Porto.
O motivo do seu afastamento por enquanto temporário não foi explicado pela Conab. Em entrevista ao Estado de São Paulo, Santos revelou que seu afastamento não foi por conta das denúncias e sim, por questões pessoais. “Saí para cuidar da minha família”, disse,
Após seu retorno, não é descartada sua demissão.
A proximidade entre Geller e Thiago foi um dos motivos para que o leilão fosse anulado por conflito de interesses.
Na terça-feira (dia 18), a Comissão de Agricultura aprovou o envio de representação ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), ligado ao Ministério da Justiça, pedindo a investigação de suspeitas de cartel naquele leilão cancelado.
No requerimento aprovado por unanimidade pela Comissão de Agricultura, o deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) e outros cinco parlamentares disseram, após citarem dados do leilão, que existem “indícios robustos da prática de cartel pelos licitantes
Na quarta-feira, o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (PP-PR), sinalizou apoio para a instalação da “CPI do Arroz”.
“Gostaria que o presidente da Conab estivesse explicando a compra do arroz importado. O governo não pode achar que a simples exoneração de Neri Geller vai cessar a questão do arroz", disse.
Entenda as denúncias
As denúncias surgiram pela participação no leilão de supostas empresas de fachada e empresários próximos a Geller.
A Bolsa de Mercadorias de Mato Grosso (BMT) e a Foco Corretora de Grãos são empresas criadas em maio de 2023 por Robson Luiz de Almeida França, ex-assessor do então deputado federal Neri Geller. Thiago dos Santos também foi colega de Robson.
Thiago e Robson chegaram até postar fotos juntos na rede social no mesmo período em que a BMT foi cadastrada entre as 13 Bolsas de Mercadorias da Conab.
As duas empresas intermediaram a venda de 44% das 263,3 mil toneladas de arroz importado vendido no certame público. As empresas negam qualquer tipo de favorecimento no leilão.
As duas companhias negociaram 116 mil toneladas no pleito, cujos arremates das suas clientes vão somar R$ 580,1 milhões dos R$ 1,3 bilhão movimentados.
A BMT e a Foco faturariam comissões de corretagem em cima desses valores. Elas representaram três das quatro empresas arrematantes do leilão: ARS Locação de Veículos e Máquinas, Zafira Trading e Icefruit Indústria e Comércio de Alimentos.