Neri Geller diz ter sido contra leilão de arroz: “decisão da Casa Civil”

    Ex-secretário de Política Agrícola afirma estar chateado' com Fávaro

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    Neri Geller diz ter sido contra leilão de arroz: “decisão da Casa Civil”
    19deJunhode2024ás09:42

    O ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller, afirmou ontem (dia 18) Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados que foi contra o governo federal comprar arroz importado.

    Ele revelou ter sido voto vencido e que a decisão do leilão foi da Casa Civil. Neri Geller deixou o ministério em decorrência do cancelamento do leilão de arroz importado. Na semana passada, o governo federal cancelou a compra de 263,3 mil toneladas de arroz importado, sob a alegação de que as quatro vencedoras de um leilão não comprovaram capacidade técnica.

    “Fomos voto vencido nos debates do comitê de crise liderado pela Casa Civil sobre a necessidade de leilão para compra de arroz importado”.

    Geller destacou ainda que sua sugestão inicial, em reunião na Casa Civil, foi retirar a TEC (Tarifa Externa Comum) de 12% para importação de fora do Mercosul, para a chegada de mais oferta do cereal.

    “Já tínhamos 83% de arroz colhido no Rio Grande do Sul (quando ocorreram as inundações) e boa parte dos 17% restantes podia ser recuperada. Não se sabia qual percentual tinha sido afetado”, pondera.

    Sobre irregularidades na operação, Geller ressalta que o leilão é público. “Só participa quem está credenciado com rigores claros, conforme edital da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento)”, justifica Geller. “O preço era muito limitado, por isto, não teve participante para comprar as 300 mil toneladas”, pondera.

    Geller também falou sobre a participação do seu filho no certame.

    “Eu tinha por obrigação, sendo voto vencido, de seguir com o governo. Quando saí da questão do arroz, fui cuidar do Plano Safra. Deu-se o leilão e eu não sabia das empresas que estavam participando. Me perguntaram se meu filho estava participando do leilão e eu não sabia. Ele mesmo me falou que estava fora disso.”

    Antes da enchente

    Segundo Geller, a decisão de comprar arroz importado surgiu antes mesmo da catástrofe climática que aconteceu no Rio Grande do Sul.

    “Eu assumi a secretaria em dezembro e em janeiro fui chamado para discutir o preço do arroz com o governo. Colocaram a preocupação do alto preço do arroz, gerando indício de inflação. Fiz uma apresentação ao governo de que na questão do abastecimento precisaríamos ter cautela, pois tínhamos uma janela de oportunidade para a produção nacional.”

    Neri Geller explicou que, após as enchentes no Rio Grande do Sul, o governo teve a preocupação de criar pontes para atender os produtores locais. “Nossa posição foi acudir os produtores, e nossa presença foi exclusivamente para isso”, reforçou.

    Ele também comentou que a atuação sempre foi transparente com o Congresso Nacional e o setor agropecuário. “Decidi sair nesse momento de discussão ideológica, mas deixo os itens esclarecidos. Não tenho o que esconder.”

    Chateado

    Geller expressou ainda sua insatisfação com o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, e explicou que foi demitido sem o seu pedido.

    “O Fávaro não me recebeu e eu não pedi demissão. Fui notificado por e-mail do gabinete do ministro, pedindo minha exoneração a pedido. Pedi uma ratificação, pois não era demissão a pedido meu.”

    Na terça-feira passada, a pasta anunciou a saída de Neri Geller depois de informar que o leilão de arroz realizado pela Conab seria anulado em virtude da desconfiança sobre a capacidade de as empresas vencedoras entregarem o produto. O leilão arrematou 263.730 toneladas de quatro empresas por R$1,3 bilhão.

    Ontem, a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados aprovou  o pedido para que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão ligado ao Ministério da Justiça, investigue as suspeitas de cartel em leilão de arroz importado. 

    Nesses casos, a Lei de Defesa da Concorrência prevê abertura imediata do inquérito administrativo.

    Mais um caiu

    Além de Geller, o diretor executivo de Operações e Abastecimento da estatal, Thiago José dos Santos, deixou o cargo por causa do leilão. Ele, que é ex-assessor de Geller, tirou licença remunerada. Thiago será substituído pelo diretor de Política Agrícola e Informações (DIPAI) Silvio Porto.

    O motivo do seu afastamento por enquanto temporário não foi explicado pela Conab. Após seu retorno, não é descartada sua demissão.

    A proximidade entre Geller e Thiago foi um dos motivos para que o leilão fosse anulado por conflito de interesses.

    FPA critica

    O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Pedro Lupion (PP-PR), destacou que a Conab, em nota técnica de 13 de junho, afirmou não haver risco de desabastecimento no país, uma vez que até o mês passado, já havia 10,4 milhões de toneladas da safra colhida.

     “Como pode o senhor Silvio Porto, diretor técnico da Conab, assinar uma nota técnica dizendo a necessidade da compra de arroz por causa de desabastecimento se a própria Conab emitia documentos reconhecendo que não havia desabastecimento?”

    Ele também ressaltou a ligação de Silvio Porto ao PT da Bahia e mencionou “a compra de milho realizada pelo governo do estado, assinada pelo diretor técnico da Conab, que envolveu uma empresa de locação de veículos, a SR Locações, que nunca tinha se envolvido na compra de cereais. Isso levanta suspeitas de irregularidades.”

    Pedro Lupion manifestou apoio à CPI do Arroz proposta para investigar os detalhes dessa operação, buscando esclarecer as decisões tomadas e seus impactos para o setor agrícola e para o orçamento público.

    O requerimento de uma CPI foi pedido deputado Luciano Zucco (PL-RS). Ele já coletou 145 das 171 assinaturas necessárias para solicitar a abertura da comissão parlamentar de inquérito.

    Ele solicitou a presença do Ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, e do presidente da Conab, Edegar Pretto, para explicarem as decisões tomadas.

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