Gaúchos precisarão até 30 anos para recuperar solo afetado pelas enchentes
Para promover a recomposição, será necessário um recurso da ordem de R$ 6,6 bilhões
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A recuperação do agro gaúcho exigirá tempo e investimentos depois da maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, que matou 183 pessoas e deixou um rastro de destruição entre abril e maio.
Para se reerguer, os gaúchos precisarão até 30 anos para recuperar solo afetado pelas enchentes. Esta é a projeção feita durante painel promovido pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) na 47ª Expointer.
Segundo o Departamento de Defesa Vegetal da Seapi, o estado tem cerca de 3,2 milhões de hectares com solos impactados, em alguma medida, pelas enchentes de maio.
O gerente da Extensão Rural do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), Luiz Fernando Siqueira, após um levantamento realizado na região central do estado, uma das mais atingidas pelas enchentes, entre os produtores que cultivam arroz em terras baixas e várzeas, fez a projeção para a recuperação.
Segundo ele, a remoção superficial de solo foi um dos principais problemas identificados na área pesquisada.
“Recuperar um solo é um trabalho de 20, 30 anos. É até difícil mensurar esse tipo de prejuízo, porque formar solo de boa qualidade requer tempo e investimento”, disse.

Segundo ele, foi encontrado uma quantidade significativa de cascalho e areia depositados no solo. “Foram encontrados em um volume tão grande que seriam necessários 3 milhões de caminhões para retirar. Isso vai impactar não só essa safra, mas as próximas”, alertou.
As análises do solo conduzidas não apontaram uma perda imediata de produtividade pela deposição de areia. “Mas acreditamos ser um efeito temporário. Com o passar dos dias, a tendência é de haver lixiviação dos nutrientes e empobrecimento do solo”, complementou. O Irga deve retornar em outubro para novas coletas nas mesmas áreas, para acompanhamento.
Investimento pesado
O diretor da Seapi, Ricardo Felicetti, revelou que o investimento para a recuperação para cerca de 3,2 milhões de hectares com solos impactados é enorme.
“As perdas monetárias dos produtores estão estimadas em R$ 11,5 bilhões. Já para promover a recomposição do solo impactado, será necessário um recurso da ordem de R$ 6,6 bilhões”, detalhou.
Felicetti ressaltou que os diagnósticos situacionais ajudam a embasar iniciativas de recuperação da matriz agropecuária do estado.
“Será preciso um trabalho coordenado de levantamento de dados, que deve envolver governos, instituições de ensino e pesquisa, e entidades do setor produtivo”, finalizou.

Continuar trabalhando
Segundo o gerente técnico estadual da Emater/RS-Ascar, Marcelo Brandoli, o solo não é mais o mesmo.
“O solo mudou não só no que enxergamos, como a erosão, mas em suas composições físicas, químicas e biológicas. Mesmo assim, o produtor está plantando no solo como está, porque ele não pode parar”, destacou.
O cenário com eventos climáticos cada vez mais extremos fez a Emater/RS-Ascar criar um grupo de trabalho de calamidades de forma permanente, com abordagem multidisciplinar.
“Não há solução simples. O único jeito é trabalhar a cidade e o interior, focar nas bacias hidrográficas, adotar os princípios da conservação do solo. São problemas complexos que integram toda a paisagem do estado”, avaliou.
Porteira para fora
O professor de Física do Solo Michael Mazurana, da UFRGS, chamou a atenção que a construção das soluções para problemas tão complexos passa por uma ação articulada entre diversos atores, envolvendo não só a zona rural, mas também a área urbana.
“Não há como pensar em soluções apenas da porteira para dentro. A parte externa da propriedade também precisa ser incluída na conversa: as bacias e microrregiões hidrográficas, construção de terraceamentos para manter a água na lavoura, planos para melhor uso e preservação do solo”, frisou.