Sucesso na Europa motiva gigantes dos insetos a "zunir" no Brasil
Tonelada de moscas para ração animal pode custar até sete vezes mais que a soja

Apesar de ainda significar menos de 1% do mercado europeu, algumas gigantes dos insetos do Velho Continente já planejam zunir no Brasil e picar uma parte do grande mercado nacional.
A produção de insetos para nutrição animal tem crescido rapidamente na Europa como uma alternativa sustentável e saudável em relação a produtos como grãos.
Ainda assim, essa indústria tem grandes desafios pela frente, entre eles, a escala de produção e o preço para tornar-se efetivamente relevante e não apenas uma alternativa.
O Agrofy News entrevistou representantes de duas da maiores empresas produtoras do insumo, na semana passada, durante a Eurotier 2024.
Para se ter ideia, as poucas grandes fazendas de insetos produzem entre 30 e 40 mil toneladas de insetos ao ano, um volume muito pequeno em relação aos centenas milhões de toneladas demandadas por aves, suínos, peixes e bovinos globalmente.
Além disso, o preço por tonelada pode chegar a 3,5 mil euros por tonelada contra os cerca de 500 euros da tonelada de soja, por exemplo.
Ainda assim, o setor avança…
Superalimentos
A Insect Farming, por exemplo, lidera o mercado na Alemanha. Thomas Kuehn, CEO da empresa, destaca os benefícios nutricionais dos insetos, que são uma excelente fonte de proteína de alta digestibilidade.
“Os insetos oferecem um alto valor nutricional, com altos níveis de proteína e 50% de suas gorduras compostas por ácido láurico, conhecido por suas propriedades antibacterianas e antimicrobianas, semelhantes ao óleo de coco”, explica Kuehn.

Além disso, eles contêm peptídeos imunomoduladores que atuam como antibióticos naturais, contribuindo para a saúde dos animais. “Isso proporciona uma digestibilidade superior até mesmo em comparação com a soja”, acrescenta.
Por isso, nos últimos anos, a Insect Farming tem visto um crescimento acelerado, especialmente na Alemanha. A empresa já conta com mais de 10 produtores que utilizam insetos para alimentar suínos, aves e peixes.
“Temos visto um aumento significativo na base de clientes que utilizam insetos diretamente para serem processados em farinha de inseto”, comenta Kuehn.
Apesar desse crescimento, os insetos ainda representam menos de 1% da alimentação animal na Europa, principalmente devido às limitações de produção em larga escala.
A expansão no mercado europeu é uma prioridade para a Insect Farming. "Nosso foco atual é fortalecer nossa atuação na Alemanha e, em seguida, expandir para outros países europeus", afirma Kuehn.
No entanto, a empresa já está de olho em mercados fora da Europa, com planos para América do Norte e Ásia nos próximos anos. Kuehn não descarta uma futura entrada no Brasil, um dos maiores mercados agrícolas do mundo, dentro de três a cinco anos.
Insetos automatizados
A Beta Bugs, sob a liderança de Thomas Farrugia, também está apostando no mercado de proteínas alternativas. A empresa se concentra no uso de tecnologias avançadas para aumentar a eficiência na criação de insetos.
“A produção de insetos envolve a utilização de subprodutos agrícolas ou excedentes alimentares, como resíduos de alimentos e até mesmo esterco, para alimentar os insetos”, explica Farrugia.

Isso permite transformar materiais de baixa qualidade em uma fonte de proteína de alta qualidade para peixes, suínos, aves e até mesmo animais de estimação.
O principal inseto utilizado na indústria é a larva da mosca soldado-negra, que é eficaz na transformação de resíduos em proteína. A Beta Bugs tem investido fortemente em automação para aumentar a escala de produção.
“Sistemas robóticos podem garantir uma produção consistente e eficiente, especialmente em operações de médio e grande porte”, afirma Farrugia.
Como exemplo, ele menciona uma fazenda na Dinamarca capaz de produzir 100 toneladas de larvas por dia, graças à automação.
Farrugia destaca que, embora os insetos ainda não possam competir diretamente com a soja em termos de preço, eles já estão substituindo parcialmente a farinha de peixe na alimentação animal.
Concorrente para os grãos?
Quando questionado sobre a possibilidade de substituir totalmente a soja e o milho pela proteína de insetos, Kuehn é cauteloso.
“Os insetos são usados como um componente proteico, mas ainda não substituem completamente a soja ou o milho. A proteína é sempre a parte mais cara da ração, seja ela proveniente de soja, farinha de peixe ou insetos”, explica.
Ele acredita que a produção de insetos é uma solução sustentável para a crescente demanda por proteínas, mas ainda há desafios de escala a serem superados.
Segundo Kuehn, uma fazenda de insetos típica pode produzir até mil toneladas de insetos por ano, com sistemas modulares que permitem aumentar a capacidade para até quatro mil toneladas.
“Isso é especialmente vantajoso em sistemas de cultivo vertical, maximizando o uso do espaço”, conclui.
Além da escala, outro obstáculo aos insetos é o preço em relação aos grãos, como soja, milho e outros. Segundo Farrugia, a tonelada de insetos para produção de ração animal chegar a ser de quatro a sete vezes mais cara.
“Na Europa, o custo da proteína de insetos varia entre 2.000 a 3.500 euros por tonelada, muito acima do preço da soja, que é de cerca de 500 euros por tonelada. Contudo, estamos vendo uma redução de custos em regiões como o Sudeste Asiático, aproximando-se dos níveis da farinha de peixe”, relata.
Ainda assim, segundo ele, a adoção de insetos na alimentação animal está crescendo na Europa, com empresas agrícolas cada vez mais interessadas em parcerias estratégicas.
“Estamos vendo acordos entre produtores de insetos e grandes empresas como Cargill, ADM e Tyson Foods, o que é crucial para o próximo estágio da indústria”, comenta Farrugia.
Ele acredita que essas alianças são fundamentais para consolidar o setor e atrair investimentos de longo prazo, inclusive no Brasil.
Apesar dos desafios de custo e escala, Farrugia vê um futuro promissor para a proteína de insetos como uma solução sustentável para alimentar uma população crescente.
Ele destaca que os insetos, sendo uma fonte natural de alimento para aves e peixes, podem trazer benefícios nutricionais significativos.
“Com o tempo, esperamos que a proteína de insetos complemente a soja e outras fontes de proteína, especialmente em regiões onde os custos de produção podem ser reduzidos devido ao clima favorável e mão de obra mais barata, como o Brasil”, conclui.
