Número de agricultores familiares cai 35,9% no Brasil, diz Ipea

    Agricultura familiar perdeu 2,2 milhões de postos entre 2012 e 2023

    Número de agricultores familiares cai 35,9% no Brasil, diz Ipea
    10deJunhode2025ás15:55

    O número de agricultores familiares no Brasil caiu 35,9% entre o primeiro trimestre de 2012 e o fim de 2023, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

    A retração equivale à perda de cerca de 2,2 milhões de postos de trabalho nas ocupações de trabalhadores por conta própria e trabalhadores familiares auxiliares — as duas principais categorias associadas à agricultura familiar.

    A análise está no estudo Dinâmica do Trabalho Agrícola no Brasil entre 2012 e 2023: uma análise a partir dos dados da PNAD Contínua, publicado em maio de 2025 pelo Ipea. A pesquisa é assinada por Fábio Alves, Eduardo Zen, Tomás de Faria Balbino e Juliane da Silva Ciríaco, com base em microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE.

    Em 2012, havia cerca de 4,7 milhões de trabalhadores por conta própria e 1,5 milhão de familiares auxiliares.

    No final de 2023, os números caíram para 3,3 milhões e 672 mil, respectivamente. A retração conjunta — de 6,2 milhões para 3,972 milhões — representa uma perda de 2.228.000 pessoas, ou 35,9%.

    Segundo os autores, “conta própria e trabalhadores auxiliares familiares representam praticamente 100% das quedas registradas no final de 2023 em relação ao início de 2012”. Isso mostra que a redução do trabalho agrícola no Brasil ocorreu quase exclusivamente no âmbito da agricultura familiar.

    Queda concentrada no Nordeste

    A maior parte dessa retração ocorreu no Nordeste, que respondeu por 71% da redução total de ocupações agrícolas no período analisado.

    A região, que abriga o maior número de agricultores do país, foi severamente impactada por eventos climáticos extremos, como os seis anos consecutivos de seca entre 2012 e 2017.

    Só os trabalhadores por conta própria no Nordeste caíram de 2,26 milhões para cerca de 1,1 milhão — uma perda superior a 50%. No caso dos trabalhadores familiares auxiliares, a queda foi ainda mais expressiva: de mais de 650 mil para 189 mil postos de trabalho, uma redução de 71%.

    “O Nordeste vivenciou uma queda acentuada e contínua nas ocupações agrícolas ligadas à agricultura familiar, e isso coincide com o período de uma das piores secas da história recente da região”, destacam os autores.

    Para os pesquisadores, o impacto climático pode ter acelerado um processo já em curso, forçando as famílias a diversificarem suas fontes de renda para enfrentar as dificuldades.

    Apesar da redução nas ocupações agrícolas, os autores ressaltam que isso não configura um êxodo rural. Em muitos casos, as famílias continuam vivendo no campo, mas passaram a se engajar em outras atividades, agrícolas ou não, dentro ou fora dos seus estabelecimentos.

    Modernização e diversificação

    Enquanto os empregos ligados à agricultura familiar recuaram fortemente, os postos formais e informais no setor agrícola se mantiveram relativamente estáveis entre 2012 e 2023.

    O número de empregados com carteira assinada passou de 1,63 milhão para 1,65 milhão (alta de 1,4%). Já os sem carteira assinada subiram de 1,97 milhão para 2,05 milhões (crescimento de 4%). 

    Esses dados reforçam que a retração foi concentrada nos pequenos produtores e não representa uma crise generalizada no mercado de trabalho agrícola.

    O estudo aponta que a tendência está ligada a fatores estruturais, como a modernização tecnológica da agropecuária, o avanço da mecanização, a urbanização do campo e a diversificação das economias rurais. 

    Para os autores, esse novo cenário exige políticas públicas mais robustas voltadas à valorização da agricultura familiar e ao desenvolvimento rural integrado.

    “A especificidade dessa redução em uma única categoria social, a agricultura familiar, e a maior intensidade dessa redução na região Nordeste apontam para uma possível relação com a grande seca ocorrida entre 2012 e 2017”, conclui o texto.

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