Juros elevados ameaçam Plano Safra e colocam agronegócio em alerta
Setor teme taxas impraticáveis e cortes no seguro rural às vésperas do anúncio oficial
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A poucos dias do anúncio oficial do Plano Safra 2025/2026, o clima no agronegócio brasileiro é de forte apreensão.
Previsto para ser divulgado entre segunda (30) e terça-feira (1º), o novo pacote de crédito rural chega cercado de incertezas, especialmente quanto ao custo do financiamento e à redução no orçamento do seguro rural.
Lideranças do setor temem que os juros elevados inviabilizem a produção, pressionem os pequenos e médios produtores e provoquem um efeito dominó na cadeia do agronegócio — da compra de insumos à oferta de alimentos.
Crédito que sufoca
Para Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA), o cenário atual é preocupante. “O crédito rural existe para dar fôlego ao produtor, não para sufocar. Se os juros ultrapassarem 15% ao ano, como se prevê, muitos simplesmente não conseguirão financiar sua atividade. E sem seguro rural adequado, o risco de quebrar é ainda maior”, alerta.
Rezende reforça que o crédito rural foi criado para impulsionar a produção.
“Se o Plano Safra vier com taxas impraticáveis, quem mais vai sofrer é quem mais precisa: o pequeno e médio produtor.” Para ele, o corte no seguro rural envia um sinal negativo. “Estamos falando de um país com riscos climáticos enormes. Tirar essa proteção do produtor é o mesmo que pedir para ele plantar no escuro.”
Corte no seguro rural amplia insegurança
A apreensão aumentou após o governo federal anunciar o corte de R$ 445 milhões no Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), justamente na reta final da elaboração do novo Plano Safra. O movimento foi interpretado por lideranças do campo como um recado de desprestígio à política agrícola.
A senadora e ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina, foi direta.
“A agricultura não sobrevive com juros de 20%. Isso está totalmente fora da realidade de quem lida com sol, chuva e risco todos os dias.” Segundo ela, o campo não pode continuar refém de promessas. “O crédito precisa ser acessível e o seguro, garantido.”
Custo do dinheiro trava o setor
Maurício Buffon, presidente da Aprosoja Brasil, destaca que o custo do crédito já começa a impactar a compra de insumos e a comercialização da safra.
“O produtor está sentindo o peso do custo do dinheiro — e isso está freando as compras de insumo e diminuindo a comercialização da nova safra. O Plano Safra precisa equalizar juros e garantir segurança no campo, caso contrário, será difícil atender a demanda do setor.”
Para Buffon, o corte no seguro rural é mais do que um ajuste fiscal. “Esperamos que o governo entenda que não se trata de privilégio, mas de proteção para manter a produção e a cadeia alimentícia funcionando.”
Plano Safra como política de Estado
A cobrança por medidas estruturais também chegou ao Congresso.
O deputado Pedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), defendeu que o Plano Safra seja tratado como uma política de Estado, livre de ideologias. “Investir no campo é combater a inflação dos alimentos, não rebater preços nas prateleiras”, afirmou.
Impacto direto na produção
No Mato Grosso do Sul, a leitura é a mesma. Fábio Caminha, da Federação da Agricultura e Pecuária do estado (Famasul), diz que o corte no seguro e os juros altos representam um risco real de retração da atividade. “O produtor daqui vem de anos difíceis, com perdas climáticas e frustração de safra. Para muitos, só resta o crédito para tentar se manter. Com menos apoio do governo, o risco aumenta.”
Paulo Renato Stefanello, da Aprosoja-MS, ressalta que o novo cenário pode frear os investimentos. “O seguro foi reduzido quase pela metade. Isso não só desprotege o produtor como inibe o investimento. E se o crédito vier caro, a produção vai encolher. Não é o que o Brasil precisa.”