Lula provoca e desafia o dólar às vésperas de encontro tenso com Trump
Presidente volta a defender a desdolarização do comércio internacional; Trump exaltou tarifas à carne brasileira em resposta a críticas de pecuaristas
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Em viagem ao Sudeste Asiático, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a defender a redução da dependência do dólar nas trocas internacionais.
Em declaração na Indonésia, ele defendeu ampliar o uso de moedas locais como alternativa ao dólar, afirmando que o século 21 exige coragem para mudar práticas comerciais e reduzir dependências.
A fala, que volta a tocar numa pauta sensível ao governo norte-americano, ocorre na antessala de novo encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na cúpula da ASEAN na Malásia, que deve acontecer no domingo (26) – o primeiro encontro oficial entre as autoridades desde que o tarifaço passou a valer. Os dois se encontram na ONU de forma informal.
Lula mencionou que o fluxo comercial entre os dois países (Brasil e Indonésia) gira hoje em torno de US$ 6,3 bilhões e defendeu esforços para ampliá-lo.
O fluxo comercial do Brasil com os países da ASEAN (Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Brunei, Vietnã, Mianmar, Laos e Camboja) cresceu de US$ 3 bilhões em 2002 para US$ 37 bilhões em 2024, e o bloco foi apontado como o quinto maior parceiro comercial do país, respondendo por 20% do superávit brasileiro e saldo positivo de US$ 15,5 bilhões em 2024.
Por outro lado, rebatendo críticas de pecuaristas locais, Trump afirmou que “a única razão pela qual eles (pecuaristas) estão indo bem, pela primeira vez em décadas, é porque eu impus tarifas sobre o gado que entra nos EUA, incluindo uma tarifa de 50% sobre o Brasil".
Ou seja, quem espera o fim imediato da sobretaxa sobre a carne brasileira ficou com as barbas de molho.
O recado está dado por ambas as partes, e analistas traduzem os discursos atuais dos presidentes para suas bases: na prática, sinalizam que vão cobrar caro por concessões nesses temas, tidos como centrais.
Lula-Trump
O presidente Lula disse acreditar que a "relação humana é química" e que fazer de forma digital não tem o mesmo resultado que uma conversa presencial: "Olho no olho, pegar na mão, abraçar a pessoa."
Lula listou assuntos que podem ser tratados: de Gaza à Ucrânia, passando pela Rússia, pela Venezuela e pela crescente ofensiva americana no mar do Caribe, além de temas ligados a minerais estratégicos e terras raras.
Analistas e diplomatas veem o provável encontro com Trump como uma oportunidade para jogar água na fervura das tensões entre Brasília e Washington e, se possível, avançar na reversão do tarifaço.
Na fala pública, Lula também conectou as tarifas a efeitos domésticos nos EUA, citando preços mais altos da carne e do café como argumento político para mostrar que medidas protecionistas podem ter efeito contrário ao desejado.
Também no radar, Lula declarou disposição para discutir sanções, direitos humanos e questões de soberania, repetindo que pretende levar ao diálogo números e argumentos para convencer interlocutores de que certas medidas contra o Brasil são injustificadas, referindo-se ao cancelamento de visto americano para várias autoridades brasileiras e à Lei Magnitsky (Global Magnitsky Act), que sanciona atualmente o ministro Alexandre de Moraes e sua mulher, Viviane Barci.
O encontro entre os dois presidentes será acompanhado de perto por mercados e governos, diante do potencial impacto sobre tarifas, cadeias de suprimento e o próprio debate sobre o papel do dólar no comércio internacional — tema que tem ganhado força entre países do BRICS e parceiros do Sul Global.