Crédito travado e seguro fraco: o alerta do agro para o Plano Safra 2026/27
Encontros da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil nas regiões revelam entraves no acesso ao crédito e pressão por mais recursos para seguro rural

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) encerrou na quinta-feira (23) a rodada de encontros regionais que embasam as propostas do setor para o Plano Agrícola e Pecuário (PAP) 2026/2027.
O diagnóstico que aparece nas diferentes regiões é semelhante: o crédito rural está mais restrito e burocrático, enquanto os instrumentos de gestão de risco seguem insuficientes diante do aumento das perdas climáticas.
Os debates reuniram produtores, federações e sindicatos para discutir temas como crédito, apoio à comercialização, mercado de capitais e seguros.
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As sugestões serão consolidadas em um documento a ser entregue ao governo federal e ao Congresso Nacional, servindo de base para a construção do próximo Plano Safra.
Mais do que pautas isoladas, os encontros reforçam um diagnóstico recorrente no setor: o problema não está apenas no volume de recursos, mas nas condições de acesso, hoje marcadas por exigências maiores, entraves operacionais e limitações na contratação.
Nordeste: custo cartorial e venda casada travam financiamento
Na região Nordeste, a última rodada de discussões expôs um gargalo operacional relevante: os custos cartorários e a lentidão dos processos foram apontados como entraves diretos à contratação de crédito rural. A prática de venda casada também apareceu como fator de distorção no acesso aos financiamentos.
Os produtores ainda destacaram a importância de programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), além da necessidade de fortalecimento de linhas de investimento como o Proirriga e o Moderforta.
Sudeste: garantias pressionam e limitam novas operações
No Sudeste, o principal ponto de tensão está na exigência crescente de garantias. A alienação fiduciária foi citada como um dos principais obstáculos ao crédito, especialmente para arrendatários, que enfrentam maior dificuldade para acessar financiamento.

Segundo os relatos, o aumento do endividamento rural tem levado bancos a endurecerem as condições, o que reduz a capacidade de novas contratações, já que muitas propriedades estão comprometidas em operações anteriores.
Entre as propostas, está a elevação do limite de renda bruta anual do Pronaf, de R$ 250 mil para R$ 300 mil, além da redução das taxas de juros.
Também foram citadas demandas por maior acesso a programas como Renovagro, Proirriga e PCA (armazenagem), diante do avanço da produção de grãos e da necessidade de maior autonomia comercial.
Centro-Oeste: acesso mais difícil e entraves nos investimentos
No principal polo produtivo do país, o diagnóstico segue na mesma linha: maior dificuldade de acesso ao crédito, com aumento de critérios e exigências por parte das instituições financeiras.
Produtores de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e do Distrito Federal relataram limitações tanto nas linhas de custeio quanto de investimento. Programas como Proirriga e PCA foram apontados como estratégicos, mas de difícil acesso na prática.
Também houve críticas à falta de recursos para instrumentos de gestão de risco, como o PSR, além da manutenção de práticas como a venda casada. No caso do PAA, os produtores defenderam a ampliação do limite individual de comercialização, atualmente em R$ 15 mil.
Norte: entraves fundiários e falta de instrumentos adequados
Na região Norte, os desafios estruturais seguem mais evidentes. As federações apontaram a ausência de produtos financeiros adaptados à realidade local, além de entraves relacionados à regularização fundiária e às exigências ambientais — fatores que impactam diretamente o acesso ao crédito.
Também foram destacadas a necessidade de ampliar os recursos para o seguro rural e ajustes no PAA, como forma de fortalecer a comercialização da produção.
Sul: perdas climáticas elevam pressão por seguro
No Sul, a agenda foi dominada pelo impacto das quebras de safra recentes. Produtores do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina reforçaram a necessidade de ampliar os recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e ao Proagro.
Segundo as entidades, a combinação de eventos climáticos extremos, aumento dos custos de produção e queda nos preços das commodities agravou a situação financeira no campo.
Um recado direto ao governo
Apesar das diferenças regionais, há um ponto de convergência claro: o próximo Plano Safra precisará ir além do volume de recursos e atacar gargalos estruturais.
Na prática, o recado ao governo é direto: sem destravar o acesso ao crédito e reforçar os instrumentos de seguro rural, o Plano Safra corre o risco de ampliar recursos no papel, mas seguir travado na ponta..
