Jogo virou no crédito rural: CPR dispara 38% e muda o perfil do setor
Produtores reduzem investimento, recorrem mais a instrumentos privados e aumentam a seletividade no financiamento agrícola
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O crédito rural até cresceu na safra 2025/2026, mas o movimento por trás dos números revela uma virada importante no campo: produtores reduziram investimentos e passaram a depender mais de instrumentos privados, como a Cédula de Produto Rural (CPR), que disparou 38% no período.
Esse avanço da CPR ajuda a explicar o crescimento do crédito rural empresarial, que registrou alta de 10% no volume total contratado entre julho de 2025 e março de 2026, alcançando R$ 404 bilhões, ante R$ 368 bilhões no mesmo intervalo da safra anterior. Já os recursos efetivamente concedidos somaram R$ 387 bilhões, avanço de 5%.
O principal destaque foi justamente a emissão de CPR, que atingiu R$ 183,1 bilhões no período. Como o instrumento é majoritariamente voltado ao custeio da safra, sua soma com o crédito tradicional eleva o volume destinado a essa finalidade para R$ 303,1 bilhões — alta de 13% na comparação anual.
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“O crescimento de 10% nas contratações e de 5% nas concessões demonstra a solidez do financiamento agropecuário brasileiro, mesmo em um cenário de maior seletividade por parte dos produtores e do sistema financeiro”, afirmou a Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura.
Menos investimento e mais seletividade
Apesar do avanço no volume total, o comportamento das linhas de crédito indica mudança no perfil de financiamento.
A industrialização foi o segmento com maior expansão, com alta de 74% nas contratações (R$ 28,1 bilhões) e de 64% nas concessões (R$ 26,4 bilhões), refletindo a demanda por processamento agroindustrial.
Já as linhas tradicionais recuaram. O custeio caiu 11% nas contratações (R$ 120,0 bilhões) e 15% nas concessões (R$ 114,3 bilhões).
O crédito de investimento teve queda ainda mais intensa: recuo de 16% nas contratações (R$ 45,5 bilhões) e de 30% nas concessões (R$ 37,6 bilhões). A comercialização também apresentou retração, com queda de 10% nas contratações (R$ 27,2 bilhões) e de 16% nas concessões (R$ 25,5 bilhões).
Segundo o boletim, o recuo no investimento reflete a cautela do produtor diante do atual patamar de juros, em meio à expectativa de queda da Selic em cerca de 2 pontos percentuais até o fim de 2026.
Menos contratos, mais concentração
O número de operações reforça essa mudança de comportamento. O total de contratos firmados recuou 24%, passando de 534.351 para 408.353 operações.
Por segmento, o Pronamp registrou 156.485 contratos, enquanto os demais produtores somaram 127.615 operações. As operações vinculadas à CPR totalizaram 125.310 contratos.
Na distribuição regional, a região Sul mantém a liderança em número de operações, enquanto o Sudeste concentra o maior volume financeiro.
LCA ganha espaço no financiamento
Do lado das fontes de recursos, as linhas controladas totalizaram R$ 106,5 bilhões em concessões, com redução de 7%.
Os Recursos Obrigatórios cresceram 19%, somando R$ 42,8 bilhões. Já a LCA Controlada teve avanço expressivo de 3.564%, atingindo R$ 26,9 bilhões. A Poupança Rural Controlada somou R$ 7,5 bilhões, enquanto os Fundos Constitucionais totalizaram R$ 14,5 bilhões.
Entre as fontes não controladas, o volume chegou a R$ 97,3 bilhões. A LCA respondeu por R$ 47,8 bilhões, enquanto a Poupança Rural Livre somou R$ 44,4 bilhões, com crescimento de 39%. O BNDES Livre recuou 11%, totalizando R$ 4,4 bilhões.
Execução ainda tem espaço para avançar
Até março de 2026, foram concedidos R$ 43,4 bilhões dos R$ 113,4 bilhões programados em recursos equalizáveis no Plano Safra 2025/2026 — o equivalente a 38% da execução, com 62% ainda a serem contratados.
No custeio, foram liberados R$ 24,7 bilhões de um total de R$ 63,0 bilhões (39% executado). No investimento, R$ 18,4 bilhões de R$ 49,5 bilhões (37%). Já na comercialização, foram aplicados R$ 307 milhões de R$ 845 milhões previstos (36%).
O Banco do Brasil lidera a execução, com R$ 7,1 bilhões em custeio (34% do programado) e R$ 7,0 bilhões em investimento (39%). O Sicoob executou 59% do volume de custeio (R$ 5,6 bilhões) e 69% no investimento, enquanto o sistema Cresol já atingiu 100% das metas previstas no custeio.
Crédito contratado ainda não liberado
Além dos valores já concedidos, há R$ 21,7 bilhões em crédito contratado que ainda não foi liberado aos produtores.
Desse total, R$ 10,8 bilhões referem-se a financiamentos sem vínculo com programa específico, R$ 2,2 bilhões ao Pronamp, R$ 0,9 bilhão ao PCA, e R$ 0,6 bilhão tanto para o Funcafé quanto para o Moderfrota.
Perspectiva: crescimento com mudança de perfil
Os dados indicam um setor que mantém a expansão no volume global de crédito, mas com alteração relevante na forma de financiamento.
“O Boletim do Crédito Rural de julho/2025 a março/2026 revela um setor agropecuário que mantém a trajetória de crescimento no volume global de recursos, com destaque para a expansão da CPR e da industrialização.
Ao mesmo tempo, a retração nas linhas de investimento e custeio convencional sinaliza maior seletividade dos produtores, associada ao ambiente de juros elevados”, destacou a Secretaria de Política Agrícola.