Conflitos globais e disputa entre potências reduzem margem de manobra do agro brasileiro
Especialista avalia que guerras, protecionismo europeu e tensões entre China e Estados Unidos ampliam incertezas, elevam custos e dificultam avanços comerciais do Brasil no agro

Guerras, tensões comerciais entre grandes potências e o avanço do protecionismo europeu estão reduzindo a capacidade de negociação do Brasil no comércio agrícola global e ampliando as incertezas para o agronegócio. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, João Estevam.
Segundo ele, o atual cenário geopolítico pressiona cadeias produtivas, aumenta custos logísticos e limita o espaço de negociação de economias emergentes como o Brasil, especialmente em setores estratégicos ligados às commodities agrícolas.
“Com a perspectiva de continuidade do conflito no Oriente Médio, é perceptível que há um aumento nos custos generalizados das cadeias produtivas globais, inclusive das commodities. Então, a gente consegue ver uma perspectiva de aumento principalmente nos custos de comercialização, mas também uma possibilidade de aumento das receitas, do valor desses produtos”, afirmou.
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O movimento reforça a percepção de maior volatilidade no comércio internacional de commodities agrícolas em meio ao avanço das tensões geopolíticas.
Dependência da China segue sem alternativa no curto prazo
Para João Estevam, o Brasil continua altamente dependente da China na exportação de commodities e ainda não há sinais concretos de redução dessa dependência.
“É inegável hoje que o Brasil é extremamente dependente da China na comercialização das commodities, dos bens primários como um todo, e seria extremamente positivo para o país não depender de um único mercado consumidor”, disse.
Apesar disso, ele pondera que poucos países possuem capacidade semelhante de absorver os volumes exportados pelo Brasil.
“A questão é que existem poucos países com capacidade de absorver em proporção semelhante (ou com valor semelhante) os bens primários produzidos aqui no Brasil. Então, ainda mais no contexto de conflito armado internacional, em várias partes do globo, além da instabilidade também dos mercados, infelizmente, no curto prazo é muito difícil perceber ou enxergar alguma diminuição na dependência brasileira para a exportação de commodities.”
Segundo o professor, a dificuldade de diversificação comercial ocorre justamente em um momento de maior volatilidade internacional, o que reduz as alternativas estratégicas do Brasil no mercado global.
Guerra comercial perde espaço diante dos conflitos armados
Na avaliação do especialista, a disputa comercial entre Estados Unidos e China segue relevante, mas deixou de ocupar o centro das atenções do governo norte-americano diante da escalada dos conflitos internacionais.
“É perceptível que existe uma tentativa por parte do governo brasileiro de barganhar entre Estados Unidos e China, a fim de elevar os seus ganhos. E a continuidade, uma guerra comercial entre as duas grandes potências, pode permitir alguma capacidade de barganhar por parte do governo brasileiro”, afirmou.
Ao mesmo tempo, ele avalia que o ambiente geopolítico atual enfraquece a margem de manobra de economias médias como o Brasil.
“A questão é que diante de um cenário bastante complexo, bastante instável, as capacidades de barganha de países de potências médias, economias médias, como é o caso do Brasil, ficam bastante afetadas.”
O foco estratégico dos Estados Unidos, segundo João Estevam, também mudou nos últimos meses.
“Existe uma perspectiva de estabilidade, desde meados do ano passado, nessa guerra comercial entre Estados Unidos e China – o que, aparentemente, com o conflito armado no Oriente Médio, não deve ser a grande pauta do governo norte-americano nos próximos dias e nem nos próximos meses.”
França mantém pressão sobre acordo Mercosul-União Europeia
Outro ponto destacado pelo professor é a dificuldade de avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia, principalmente pela resistência francesa ligada ao setor agropecuário. O acordo entrou em vigor no dia 1º de maio. No dia 3, poré,ma União Europeia decidiu retirar o Brasil da relação de países habilitados a exportar animais e produtos de origem animal destinados ao consumo humano no bloco. A medida passa a valer em 3 de setembro.
“Apesar de ter havido avanços bem significativos desde o ano passado nas negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia, existem entraves burocráticos e políticos por parte dos setores do agrobusiness francês”, afirmou.
Segundo ele, a postura mais protecionista da França limita alternativas comerciais importantes para o Brasil e mantém a forte dependência do mercado chinês.
“A gente consegue ver uma tendência mais protecionista por parte da França. Isso também impede que o Brasil consiga destravar a possibilidade de comercializar as suas commodities, principalmente os produtos ligados ao agronegócio, para a Europa, permitindo uma menor dependência em relação à China.”
O professor também aponta impactos indiretos sobre a indústria e os custos internos da economia brasileira. “Também não permite a possibilidade de barateamento de custos de produção de bens industrializados aqui no Brasil, o que também acaba não efetivando um potencial de diminuição de custos internos, inclusive da inflação aqui no país.”
Ainda segundo João Estevam, existe preocupação com a possibilidade de reabertura das negociações. “Existe uma tendência, por parte da França, de querer rever o acordo como um todo, de elaborar um novo acordo que pode levar anos de negociação a serem perdidos, embora esse elemento ainda tenha que ser acompanhado com cautela.”
BRICS enfrentam limitações no atual cenário global
João Estevam avalia que os Brics enfrentam dificuldades para ampliar sua influência econômica diante do aumento das tensões geopolíticas e da instabilidade nos mercados internacionais. Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia e Irã fazem parte do bloco.
“Acredito que, no curto prazo, devido a todas as instabilidades políticas e econômicas existentes nos mercados mundiais, aos conflitos armados, às políticas do governo Trump e também de outras grandes potências, existe uma tendência de diminuir o espaço que outros grupos multilaterais possam ter, no sentido de permitir um avanço nas posições desses países. Inclusive é o caso do Brasil, mesmo em relação a setores importantes, como é o caso do agronegócio”, explica.
Segundo o professor, além do ambiente internacional mais turbulento, o próprio peso político de China e Rússia dentro do BRICS acaba limitando avanços mais amplos para países como o Brasil.
“Aliás, já existe uma questão estrutural no papel do Brics, que é o peso significativo das demandas chinesas e russas no interior do grupo.”
Por isso, ele considera difícil que o bloco se torne, no curto prazo, uma alternativa relevante para ampliar receitas ou reduzir custos do agronegócio brasileiro.
“Então, devido a essas dificuldades estruturais e conjunturais, acho difícil que os BRICS consigam ser uma saída significativa para diminuir os custos e aumentar as receitas do agronegócio brasileiro.”
Na avaliação de João Estevam, conflitos armados, protecionismo e disputas entre grandes potências reduzem justamente o espaço de negociação do Brasil em um momento de elevada dependência externa do agronegócio.
