Quanto vale a “tríplice coroa diplomática” do Brasil na geopolítica global?

    Pela primeira vez, país presidirá ao mesmo tempo o G20, o Banco dos Brics e o Mercosul

    Quanto vale a “tríplice coroa diplomática” do Brasil na geopolítica global?
    21deSetembrode2023ás16:30

    O Brasil acumulará, pela primeira vez e de forma concomitante, as presidências do G20, do Banco dos Brics e do Mercosul a partir do final deste ano.

    Este concerto traz uma chance histórica de o país tornar-se mais relevante no cenário geopolítico internacional e, assim, construir legados para os brasileiros e pessoas do mundo inteiro.

    A liderança desses órgãos direciona prioridades acordadas de forma multilateral entre nações e, via de regra, angaria recursos financeiros relevantes para ações concretas nos países (desde obras em infraestrutura até desenvolvimento humano) e mesmo adoção de regras ou metas em comum.

    Mas importante dizer: se a posição destacada pode significar grandíssimas entregas, talvez, uma nova ordem mundial, por outro lado, pode resultar em nada além de mera figuração e discursos repetitivos.

    Depende da respeitada diplomacia brasileira, da adequação e habilidade um tanto quanto imprevisível do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, até mesmo, dos setores produtivos nacionais.

    Livre comércio com a UE

    Comecemos pela nossa vizinhança mais próxima. O Mercosul está em fase avançada de negociação com a União Europeia (UE) para firmar o acordo de livre comércio entre os dois blocos. Lula acredita que poderá concluir as negociações ainda neste ano.

    A possível implementação desse acordo constituirá uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, com população conjunta de cerca de 720 milhões de habitantes e PIB de US$ 19,2 trilhões em 2021, o que representa um quarto do PIB mundial.

    E o agro seria um dos setores mais favorecidos. Segundo estudo da Apex, as novas oportunidades de mercado somariam US$ 5,1 bilhões de importações por parte da UE com base nas médias dos últimos cinco anos apenas na categoria de produtos alimentícios.

    Elas compreendem 17 códigos SH8 (oito dígitos) que se beneficiarão de tratamento tarifário duty free em até 4 anos, contra a faixa atual entre 3,8% e 16%. Entre eles, estão carnes, café, cacau e outros itens com destino a países como Itália, Alemanha e Países Baixos.

    O principal “porém” reside em novas exigências europeias de última hora no quesito meio ambiente com o pacto verde, recentemente aprovado no Parlamento da UE.

    Neste sentido, os indicadores de desmatamento ou queimadas podem influenciar positivamente se mostrarem queda, como vem ocorrendo neste ano.

    O papel de fornecedor confiável de alimentos e o ativo ambiental do Brasil, de fato, são os principais trunfos do país nas mesas de negociações, assim como sua histórica posição multilateralista e inclusiva.

    Brics já é maior que o G7

    Já os Brics, que reunia Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, também terá Argentina, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã a partir de janeiro de 2024.

    A aproximação de todos estes países reúne grande parte da oferta e da demanda de diversas das principais commodities, desde alimentos, fibras e biocombustíveis até petróleo e minerais.

    Para se ter ideia, os países do Brics ampliado estão chegando a 36,6% do total do PIB global, em paridade de poder de compra. O G7, por exemplo, tem 29,98% do PIB global. Então é evidente que o Brics tem poder de fogo agora ainda mais considerável do ponto de vista econômico.

    E a presidência do Banco dos Brics cabe à ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, até 2025. O Banco dos Brics não é uma ficção, pelo contrário, a instituição já emprestou mais de US$ 30 bilhões a seus membros, fazendo frente até mesmo ao FMI (Fundo Monetário Internacional).

    Do ponto de vista do agronegócio brasileiro, inclusive, os Brics são até mesmo uma ferramenta de pressão, além de um enorme mercado com relações preferenciais. Também fala-se sobre a possível criação de uma moeda comum para facilitar o comércio entre tais países.

    O próprio ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, disse que o Brasil direcionará esforços para acelerar a criação de um bloco de livre comércio com os Brics em paralelo aos obstáculos nas negociações com a UE. Seria, por muito, a maior área de livre comércio do mundo.

    G-20: alimentos e sustentabilidade são trunfos

    Finalmente, o G-20 terá Lula como presidente, oficialmente, a partir de dezembro. Ele já recebeu o “martelo” que representa a liderança do grupo das mãos do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, no início desse mês.

    O G-20 apoia o crescimento e o desenvolvimento mundial por meio do fortalecimento da arquitetura financeira internacional e via oportunidades de diálogo sobre políticas nacionais, cooperação internacional e instituições econômico-financeiras internacionais.

    A presidência brasileira no G20 terá três prioridades: o combate à fome e à pobreza; o enfrentamento das mudanças climáticas por meio do desenvolvimento sustentável; e a defesa da reforma das instituições de governança global, que reflita a geopolítica do presente.

    Ambições nacionais

    O Brasil pleiteia um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), status restrito a apenas cinco países atualmente, e também o financiamento à preservação dos ativos ambientais brasileiros em escala condizente com sua importância.

    Enfim, caso nossas lideranças saibam aproveitar a chance, o Brasil poderá fechar acordos de livre-comércio com a UE e os Brics, garantir centenas de bilhões, talvez trilhões, de dólares para desenvolvimento sustentável e, até mesmo, galgar o status de poder vetar medidas sobre os maiores conflitos do planeta.

    Neste cenário ideal, nossa autoridade como o “país que garante sustentabilidade e alimentos ao mundo” poderia afiançar um legado ainda mais positivo para o bem-estar da humanidade, seja para brasileiros ou não.

    Seria não apenas um golaço, mas uma verdadeira goleada histórica, algo do tamanho da vocação e potencial de nosso país.

    Nunca estivemos tão bem posicionados diplomaticamente, mas saberemos aproveitar?

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