Por que as cotações agropecuárias caíram tanto?

    Preços menores não significam, necessariamente, lucros menores ou prejuízo

    O pior já passou em termos de queda de preços, o que, dependendo do caso, pode não ser tão ruim. (foto - CNA)

    O pior já passou em termos de queda de preços, o que, dependendo do caso, pode não ser tão ruim. (foto - CNA)

    05deJulhode2023ás16:48

    As cotações das principais commodities agrícolas e pecuárias registraram quedas impactantes no primeiro semestre de 2023 frente aos preços praticados no mesmo período de 2022 e mesmo de anos anteriores.

    Por exemplo, o preço da saca de soja passou a marca dos R$ 200 em março do ano passado e fechou junho de 2023 com média mensal de R$ 136,45, segundo o indicador do Cepea. Um dos valores mais baixos desde 2020.

    No caso do milho, a saca de 60 quilos caiu de R$ 100 em março de 2022 para cerca de R$ 55 no final do mês passado, desvalorização superior a 44%. Em valores reais, trata-se das menores cotações para a saca de milho desde 2019.

    Movimentos de baixa mais ou menos intensos também ocorreram nas cotações agropecuárias de algodão, trigo, café, arroba do boi e outras commodities.

    O que explica a forte queda no preço das commodities?

    A primeira explicação é a guerra entre Rússia e Ucrânia que gerou forte incerteza quanto à oferta global. Os dois países são grandes produtores e, assim, o conflito impactou mercados de alguns desses itens mundo afora, bem como seus substitutos.

    Mas não se trata só do conflito no Mar Negro. Se fosse assim, seria de imaginar que as cotações agrícolas e pecuárias retornassem a algo próximo aos patamares pré-guerra, e não de até 3 ou 4 anos atrás.

    Daí, fica mais fácil lembrar o outro motivo que inflou os preços agropecuários: a pandemia de Covid-19. De fato, o índice global de preço dos alimentos realizado pela FAO, órgão da ONU, mostra exatamente as oscilações segundo esses dois fatores.

    O indicador, elaborado pelo órgão desde 1990, vinha subindo desde o início da pandemia e atingiu o nível mais alto da história em março de 2022, aos 159,3 pontos logo após o início da guerra. A partir daí, começou a cair mês a mês até completar exatamente um ano de queda, em março de 2023, e iniciar uma reação.

    Então, cabe a pergunta: se voltou a subir, mesmo que em patamares menores, por que as principais commodities brasileiras também não começaram a subir?

    Neste caso, é preciso considerar também as particularidades de cada cultura e o contexto global. O principal fator é sempre a relação entre oferta e demanda, mas também outros elementos sociais, políticos e econômicos influenciam o vai-e-vem do mercado.

    No caso dos grãos, por exemplo, o IGC (International Grain Counceil) projeta um aumento de 33 milhões de toneladas, para 2,292 bilhões de toneladas, na safra 2023/24, a segunda maior safra da história.

    No caso do Brasil, a safra atual já é um recorde histórico, na casa do 315 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), cerca de 15% mais em relação ao ano anterior.

    Mas também outros elementos afetam o mercado doméstico, como a desvalorização do dólar em relação ao real, que deixa nossos produtos mais caros internacionalmente, o clima, pragas e mesmo momento da economia nacional e global, especialmente da China.

    Os preços das commodities agrícolas seguirão caindo?

    Previsões exatas estão mais para bola de cristal do que para conhecimento confiável. Os preços vão evoluir segundo os fatores de sempre, como clima, tamanho das colheitas, variação das moedas e demanda.

    Em todo caso, o pior já passou em termos de queda de preços, o que, dependendo do caso, pode não ser tão ruim, talvez, até positivo. Deixe-me explicar. Do mesmo modo que as cotações das commodities caíram, alguns dos principais insumos, como os fertilizantes, também despencaram.

    Desse modo, vale a capacidade não só produtiva, mas, especialmente, administrativa, de cada produtor para proteger e, quem sabe, até aumentar suas margens de lucro. Nesse agro mais complexo, há muitas ferramentas para isso.  

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