Após virar réu no STF, Bolsonaro enfrenta nova fase do processo: entenda os próximos passos
Processo é aberto e julgamento não tem data para ocorrer
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Bolsonaro voltou a se dizer perseguido e afirmou que o Brasil “já não vive mais numa democracia”. (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)
Com a decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta-feira (26), o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete aliados passaram à condição de réus por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado e à abolição do Estado Democrático de Direito.
Quais são os próximos passos do processo?
Ação penal aberta
Com o recebimento da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), o STF abriu ação penal contra os acusados.
Bolsonaro e os demais responderão pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado por violência e grave ameaça, além de deterioração de patrimônio tombado.
Instrução do processo
Nessa fase, são colhidos depoimentos e analisadas provas. As defesas poderão indicar testemunhas e solicitar novas perícias ou documentos para sustentar suas teses.
As oitivas serão conduzidas por um juiz auxiliar vinculado ao gabinete do ministro Alexandre de Moraes, relator do caso.
Julgamento
Encerrada a instrução, o processo segue para julgamento. Caberá aos ministros da Primeira Turma do STF decidir se os réus serão condenados ou absolvidos.
A data ainda não foi definida e depende do ritmo processual. A definição cabe ao presidente da Turma, ministro Cristiano Zanin.
Além de Zanin, o colegiado é formado pelos ministros Alexandre de Moraes (relator), Flávio Dino, Cármen Lúcia e Luiz Fux.
Possibilidade de prisão
Pelo entendimento do STF, a prisão só pode ocorrer após o trânsito em julgado — quando não houver mais possibilidade de recurso. Até lá, os réus respondem em liberdade, a menos que haja justificativa para prisão preventiva, como risco ao andamento das investigações.
No momento, apenas o general Walter Braga Netto está preso, em unidade militar. Segundo a Polícia Federal, ele teria atuado para obstruir as investigações e, por isso, foi detido preventivamente.

A decisão do STF
A Primeira Turma decidiu, por unanimidade, tornar Bolsonaro réu por crimes contra a ordem democrática, previstos nos artigos 359-L e 359-M do Código Penal: tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito.
“Não há então dúvidas de que a Procuradoria apontou elementos mais do que suficientes, razoáveis, de materialidade e autoria para o recebimento da denúncia contra Jair Messias Bolsonaro”, afirmou o ministro Alexandre de Moraes durante a sessão, referindo-se à peça apresentada no mês passado pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Moraes também votou para que Bolsonaro responda por organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio público. Somadas, as penas dos crimes ultrapassam 30 anos de prisão.
O voto do relator foi acompanhado pelos ministros Flávio Dino, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin.

Quem são os réus?
Além de Bolsonaro, outros sete aliados tornaram-se réus na mesma ação penal. Segundo a PGR, eles compõem o “núcleo central” do suposto golpe de Estado:
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Jair Bolsonaro – ex-presidente da República;
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Walter Braga Netto – general do Exército, ex-ministro e ex-candidato a vice-presidente em 2022;
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Augusto Heleno – general da reserva e ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional;
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Alexandre Ramagem – delegado e ex-diretor da Abin;
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Anderson Torres – ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança do Distrito Federal;
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Almir Garnier – almirante e ex-comandante da Marinha;
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Paulo Sérgio Nogueira – general do Exército e ex-ministro da Defesa;
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Mauro Cid – ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e delator no caso.
A denúncia, que atinge ao todo 34 pessoas, foi dividida por núcleos. A Primeira Turma entendeu que há indícios suficientes de materialidade e autoria para que os oito acusados sejam processados criminalmente.
Defesa
Após a decisão da Primeira Turma do STF, Jair Bolsonaro tentou se defender das acusações nesta quarta-feira (26), negando ter articulado qualquer plano de golpe com os comandantes das Forças Armadas para suspender as eleições de 2022 — como sustenta a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR).
“Antes de uma hipotética assinatura de um decreto de um Estado de Defesa, como está no artigo 136 da Constituição, o presidente da República tem que convocar os conselhos da República e da Defesa. Aí seria o primeiro passo. Não adianta botar um decreto na frente do presidente e assinar. Não convoquei os conselhos, nem atos preparatórios houve para isso”, declarou o ex-presidente.
Sem responder a perguntas de jornalistas, Bolsonaro discursou por cerca de 50 minutos em frente ao Senado, em Brasília, acompanhado de aliados no Congresso. A fala ocorreu logo após o julgamento que o tornou réu por crimes contra a ordem democrática.
Durante a declaração, o ex-presidente voltou a lançar dúvidas, sem apresentar provas, sobre a segurança das urnas eletrônicas, disse ser alvo de perseguição política e criticou o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo.
Ao comentar diretamente a denúncia, Bolsonaro afirmou que os comandantes militares “jamais embarcariam em uma aventura” de golpe de Estado. Disse ainda que “discutir hipóteses de dispositivos constitucionais não é crime” — em referência à minuta de Estado de Defesa, interpretada pela PGR como parte do plano golpista.
Perseguição
Na mesma linha que vem adotando desde o início das investigações, Bolsonaro voltou a se dizer perseguido e afirmou que o Brasil “já não vive mais numa democracia”.
Em uma rede social, sugeriu que o objetivo do processo seria evitar sua presença nas próximas eleições, mesmo estando inelegível até 2031.
“A comunidade internacional acompanha de perto o que está acontecendo no Brasil. Juristas, diplomatas e lideranças políticas já reconhecem o padrão: é o mesmo roteiro que se viu na Nicarágua e na Venezuela”, escreveu.