Compradores se aproveitam da falta de armazenagem no Brasil para barganhar valores

    Presidente da Aprosoja-MT critica gargalo estrutural e defende política fiscal responsável para viabilizar investimentos no agro

    Lucas Beber também reforçou a importância de melhorar a comunicação sobre os avanços sustentáveis da agricultura brasileira

    Lucas Beber também reforçou a importância de melhorar a comunicação sobre os avanços sustentáveis da agricultura brasileira

    16deMaiode2025ás14:41

    “Nós temos esse grande gargalo que é a armazenagem no Brasil. O produtor precisa despachar o milho porque é caro pagar armazenagem. O comprador sabe disso, se aproveita e compra barato”, afirmou Lucas Beber, presidente da Aprosoja-MT, durante o 3º Congresso da Abramilho, realizado em Brasília.

    A declaração escancara um problema antigo do agro brasileiro, que volta ao centro do debate em meio à entrada da nova safra de milho no mercado.

    Segundo Beber, a oferta elevada pressiona os preços no curto prazo, e a ausência de infraestrutura adequada agrava ainda mais o cenário para o produtor. “Agora já está entrando a nova safra, então o mercado já sabe disso, a oferta. No curto prazo, tende-se a diminuir os preços do milho”, explicou.

    O dirigente também apontou que o Brasil vive uma oportunidade estratégica no mercado internacional, especialmente diante da disputa comercial entre China e Estados Unidos.

    “A briga é justamente pela guerra comercial. A China tem começado a importar milho nos últimos anos, e os dois maiores exportadores são Estados Unidos e Brasil. O milho norte-americano ficando mais caro abre espaço para a China procurar milho aqui no Brasil”, destacou.

    Lucas BIeber_aprosoja

    Apesar da pressão nas cotações em Chicago, o Brasil pode se beneficiar com o aumento dos prêmios de exportação. “Chicago pode baixar, mas o prêmio tende a subir aqui, porque eles precisam demandar milho brasileiro. E se estiver mais barato, vão comprar aqui”, afirmou Beber.

    Questionado sobre as perspectivas para o milho até o fim do ano, Beber foi cauteloso, mencionando a dependência do desenvolvimento da safra norte-americana. “Agora está difícil falar. A gente precisa ver como vai se desenvolver a soja norte-americana. Mas temos esperança de que os preços não fiquem abaixo dos patamares da pré-colheita da segunda safra.”

    Juros altos travam investimentos em armazenagem

    Além da falta de estrutura física, Beber criticou o custo elevado do crédito rural. “Hoje é caro pagar armazenagem. Tudo tem custo. E com os juros do jeito que estão, não tem como o produtor investir nisso. Por mais que se peça aumento de recurso todo ano, não é viável construir armazém com esses juros.”

    Para ele, é necessário um Plano Safra robusto e com taxas realmente equalizadas. “O produtor faz o bom trabalho da porteira para dentro, mas tem que ter também o bom trabalho da porteira para fora. Para isso, precisamos de um Plano Safra adequado, que aporte recursos suficientes com juros mais baixos”, argumentou.

    Ele também associou o problema à ausência de compromisso fiscal por parte do governo.

    “Como você vai diminuir os juros se o governo não está comprometido com a responsabilidade fiscal? Se não tem capacidade fiscal, você afasta capital estrangeiro, o dólar aumenta, e o custo de produção sobe. Aumenta o juro, aumenta o dólar.”

    Segundo ele, o produtor sente isso na prática. “Nos últimos anos, o Plano Safra não tem corrigido a inflação. Por mais que aumente nominalmente, o poder de compra real diminui. E com os juros altos, o crédito não é atrativo.”

     
     
     
     
     
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    Beber também fez críticas à reforma tributária aprovada. 

    “Ela vai complicar ainda mais, principalmente a vida do pequeno produtor, que vai ter que optar por um sistema simplificado e abrir mão de crédito e débito fiscal — ou encarar mais burocracia e custos contábeis. Muitos não têm estrutura para isso.”

    Sustentabilidade precisa ser comunicada

    Beber também reforçou a importância de melhorar a comunicação sobre os avanços sustentáveis da agricultura brasileira. “Temos que levar aquilo que o produtor brasileiro faz de bom. Sistema de agricultura tropical, plantio direto... sequestramos mais de 1,6 tonelada de carbono por hectare no sistema soja-milho.”

    Ele lembrou que o Brasil é o único país onde o produtor preserva floresta nativa dentro da propriedade. “No bioma Amazônico, 80% está preservado. No Cerrado, 35%. Nenhum país faz o que a gente faz em sustentabilidade.”

    Por fim, deixou um recado claro ao governo federal. “A ministra do Meio Ambiente deve se preocupar com a preservação, mas também tem que mostrar aquilo que fazemos de positivo, que é infinitamente maior do que aquilo que há de negativo.”

    Ferrogrão e industrialização do milho

    Durante o congresso, Beber voltou a defender a conclusão da Ferrogrão. “Mato Grosso, que tem o mesmo tamanho territorial de França e Alemanha juntos, tem mais de 70 mil quilômetros de ferrovia. Mas opera com menos de 400 km. É mais do que necessária a conclusão da Ferrogrão.”

    Ele também rebateu críticas feitas por lideranças internacionais. “Quando nós vemos o presidente Macron vir ao Brasil para falar mal da Ferrogrão, é sinal de que ela realmente é muito boa. Vai deixar o produtor mato-grossense — e o brasileiro — mais competitivo.”

    Segundo ele, a obra também tem impacto ambiental positivo: “A Ferrogrão deve deixar de emitir 3,4 milhões de toneladas de carbono por ano. É totalmente sustentável e viável.”

    O presidente da Aprosoja-MT ainda ressaltou o impacto social e econômico do milho industrializado. “Hoje, o estado já processa mais de 10 milhões de toneladas de milho. De uma tonelada, se faz 420 litros de etanol, gerando R$ 300 por tonelada em arrecadação. Além disso, temos o DDG para exportação. Isso é desenvolvimento regional.”

    Ele finalizou destacando o papel do setor na economia global. “Temos a agricultura mais sustentável do mundo. O que falta é levar a nossa realidade para a sociedade, dentro e fora do país.”

     

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