Trump busca “chifre em cavalo" com investigação sobre Pix, etanol e desmatamento
Tarifaço provocaria prejuízo bilionário ao Brasil, mas ainda maior aos Estados Unidos

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a criticar o Brasil ontem (dia 16) ao anunciar que seu governo abrirá investigações formais sobre o sistema de pagamentos Pix, o programa de etanol e as políticas de preservação ambiental brasileiras.
As alegações, segundo ele, estariam relacionadas a “concorrência desleal”, “manipulação tecnológica” e “falsas credenciais verdes”. O movimento acirra ainda mais o desconforto diplomático entre os dois países, dias após a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.
As novas alegações se somam na escalada que vem alimentando a tensão bilateral. Entre eles, o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, que ganhou projeção internacional, decisões contra práticas de big techs americanas e a narrativa infundada de que os Estados Unidos enfrentariam um déficit comercial com o Brasil.
O imbróglio melhorou inclusive a popularidade do governo brasileiro. Após atingir o pior índice de aprovação desde o início do mandato em junho — com apenas 40% de avaliação positiva e 57% de desaprovação — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viu sua aprovação subir em julho.
Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana, a aprovação do governo subiu três pontos, de 40% para 43%, enquanto a desaprovação recuou para 53%, reduzindo o saldo negativo de 17 para 10 pontos percentuais.
Brasil está pronto para o escrutínio?
Os novos alvos do mandatário americano, no entanto, são alguns dos melhores exemplos do Brasil, seja o Pix, o etanol e até mesmo o tema da preservação ambiental.
Lançado em 2020, o Pix transformou o sistema de pagamentos brasileiro e se tornou referência mundial em inclusão financeira.
Com mais de 160 milhões de usuários e volume de transações que supera o PIB de muitos países, o sistema é operado pelo Banco Central e adotado inclusive por fintechs norte-americanas como benchmark.
Para alguns especialistas, alegar manipulação ou dumping tecnológico seria como acusar o e-mail de ser concorrência desleal ao correio.
No setor de energia, o etanol brasileiro — especialmente o de cana-de-açúcar — é apontado por estudos da Agência Internacional de Energia como um dos mais sustentáveis do mundo, com balanço positivo de carbono e produção integrada a sistemas de rotação de cultura e preservação de solo.
Os Estados Unidos, por sua vez, subsidiam fortemente o etanol de milho, cuja pegada ambiental é significativamente maior.
Já sobre desmatamento, o Brasil preserva 66% de sua vegetação nativa, segundo dados da Embrapa Territorial. Levantamentos da própria Nasa (National Aeronautics and Space Administration) mostram um número ainda melhor: 68%.
A título de comparação, o índice de preservação nos Estados Unidos não passa de 25%. Além disso, o Código Florestal, um dos mais rigorosos do planeta, exige a manutenção de até 80% da vegetação em propriedades da Amazônia.
Embora ainda existam desafios, os avanços no monitoramento por satélite, embargo de áreas ilegais e rastreabilidade estão sendo incorporados inclusive por importadores europeus.
Independentemente das posições políticas internas, a tentativa de ingerência direta sobre instituições brasileiras, sobretudo o Judiciário, por parte de um chefe de Estado estrangeiro, é vista como um gesto sem precedentes.
A inclusão do julgamento de Bolsonaro como argumento para medidas comerciais revela um grau de personalismo e de uso político do comércio que acende alertas em diversas democracias.
Pior para todos
A retaliação tarifária anunciada por Trump já afeta duramente cadeias produtivas nos dois lados. No Brasil, produtores de café, frigoríficos e cooperativas de suco de laranja amargam perdas de contratos, redirecionamentos logísticos e insegurança jurídica.
No curto prazo, o impacto é maior sobre exportadores, mas o efeito bumerangue nos EUA não tardará em aparecer. Consumidores americanos devem enfrentar aumentos nos preços de produtos essenciais do café da manhã — como café, suco e proteínas animais — em plena alta inflacionária.
Além disso, muitas empresas norte-americanas processam esses produtos brasileiros, seja em torrefações, indústrias alimentícias ou refinarias de etanol. A quebra dessas cadeias pode ser mais custosa para os Estados Unidos do que para o Brasil.
Estudos preliminares do Peterson Institute for International Economics indicam que, a depender do escalonamento da disputa, os impactos no PIB americano podem ser proporcionalmente maiores.
No lado brasileiro, o prejuízo poderiam ser bilionários para o café (US$ 2,1 bilhões), pecuária (US$ 1,3 bilhão) e laranja, entre outros, como pescado, aves e frutas.
Brasil unido?
No Brasil, as reações vieram de toda a sociedade. O Itamaraty divulgou nota repudiando as declarações de Trump e classificando as investigações como “movimentos unilaterais, infundados e potencialmente lesivos à boa-fé nas relações comerciais”.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), manifestou apoio ao governo Lula em relação ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos.
“Vejo nesse momento uma agressão ao Brasil e aos brasileiros, o que não é correto. Temos que ter firmeza, resiliência e tratar essa reação com serenidade”, disse Alcolumbre. “O Parlamento está ao lado do povo brasileiro.”
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, reforçou o papel do legislativo como "retaguarda do executivo”citando a Lei de Reciprocidade como exemplo de prontidão da casa diante de embates.
“O Brasil não pode ser levado a situações em que decisões externas venham a interferir na nossa soberania”, afirmou.
Empresários e entidades também reagiram com perplexidade. A Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) classificou como injustificável a medida do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Esta medida unilateral não se justifica pelo histórico das relações comerciais entre os dois países, que sempre se desenvolveram em clima de cooperação e de equilíbrio, em estrita conformidade com os melhores princípios do livre comércio internacional”, destacou a CNA.
