PF vai investigar origem do metanol e se bebidas adulteradas chegaram a outros estados

    Investigação fala em ligação com crime organizado e cita Porto de Paranaguá

    Por |
    Os ministros Ricardo Lewandowski (Justiça) e Alexandre Padilha (Saúde), durante entrevista para falar sobre os casos de bebidas alcoólicas adulteradas com metanol (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

    Os ministros Ricardo Lewandowski (Justiça) e Alexandre Padilha (Saúde), durante entrevista para falar sobre os casos de bebidas alcoólicas adulteradas com metanol (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

    30deSetembrode2025ás12:09

    A Polícia Federal (PF) abriu inquérito para investigar a origem do metanol usado na adulteração de bebidas alcoólicas que provocaram intoxicações em São Paulo.

    A corporação também apura se há ligação com o crime organizado e se a distribuição clandestina ultrapassa os limites do estado.

    O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, anunciou nesta terça-feira (30) a determinação para que a PF assuma o caso diante de indícios de rede nacional de distribuição. 

    “No momento, as ocorrências estão concentradas no estado de São Paulo, mas tudo indica que há uma distribuição para além do estado de São Paulo. Portanto, sendo uma ocorrência que transcende limites de um estado, isso atrai a competência da Polícia Federal”, afirmou.

    Desde o início de setembro, três pessoas já morreram por contaminação da substância.

    >> SIGA O CANAL DO AGROFY NEWS NO WHATSAPP

    invetsigaçao_`CC_metanol

    Investigação e medidas adotadas

    O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, informou que o inquérito instaurado vai apurar não apenas a origem do metanol, mas também possíveis conexões com o crime organizado.

    Segundo ele, há indícios de que a distribuição de bebidas adulteradas ultrapasse os limites de São Paulo e esteja relacionada a investigações anteriores.

    “Dentre as razões, a questão da interestadualidade [há indícios de distribuição fora do estado de São Paulo] e a possível conexão com investigações recentes que fizemos, especialmente no estado do Paraná, com outras duas de São Paulo, em razão de toda a cadeia de combustível, onde parte disso passa pela importação de metanol pelo Porto de Paranaguá”, explicou.

    Rodrigues destacou ainda que a PF atuará de forma integrada com a Polícia Civil paulista.

    “A gente vai buscar trabalhar de maneira integrada. São investigações que se complementam com investigações na parte administrativa, com investigação a cargo também da Polícia Civil de São Paulo”, afirmou.

    Paralelamente, a Polícia Civil paulista investiga bares e adegas suspeitos de venderem bebidas alcoólicas adulteradas. A Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) aponta também que as adulterações podem estar ligadas à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

    Lewandowski também determinou à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) a abertura de inquérito administrativo para acompanhar os casos do ponto de vista do direito do consumidor.

    “A adulteração de produtos constitui crime comum, capitulado no Código Penal no artigo 272. E também a venda, a distribuição de produtos adulterados constitui crime, de acordo com o Código do Consumidor”, destacou.

    O ministro afirmou ainda que o governo atua em conjunto com o Ministério da Saúde.

    “Tomamos as providências cabíveis. Providências, eu diria, enérgicas, para não só identificarmos a origem e podermos coarctar [restringir] a distribuição desses produtos que são claramente intoxicantes para a população. Também estamos em íntima cooperação com o Ministério da Saúde”, concluiu.

    Balanço de casos

    De acordo com o governo de São Paulo, desde junho foram confirmados seis casos de intoxicação por metanol relacionados a bebidas adulteradas.

    Atualmente, dez casos estão sob investigação, com três óbitos já registrados: um homem de 58 anos em São Bernardo do Campo, outro de 54 anos na capital paulista e o terceiro, de 45 anos, ainda sem residência identificada.

    Origem do metanol

    O diretor de comunicação da ABCF, Rodolpho Heck Ramazzinio, disse em entrevista à TV Brasil que o metanol importado para adulteração de combustíveis pode ter sido desviado para distribuidoras clandestinas de bebidas.

    Segundo ele, esse redirecionamento aumentou após a Operação Carbono Oculto, da Receita Federal, que em agosto desmantelou um esquema de fraudes e falsificação no setor de combustíveis.

    “Você tem as empresas interditadas, a transportadora dos caras, do PCC, fica parada [em razão da operação]. Os tanques, que não estavam dentro dos pátios dessas empresas, começam a ser desovados em outras empresas. Eles começam a vender isso para empresa química, começam a vender isso também para destilarias clandestinas. Os caras fazem isso para ganhar volume, ganhar a escala, eles não estão nem aí com a saúde de ninguém”, afirmou.

    Dados do Anuário da Falsificação da ABCF 2025 indicam que o setor de bebidas foi o mais prejudicado pelo mercado ilegal em 2024, com perdas de R$ 88 bilhões — R$ 29 bilhões em sonegação de tributos e R$ 59 bilhões em faturamento não realizado pelas indústrias legalizadas.

    A Operação Carbono Oculto atingiu cerca de mil postos de combustíveis ligados ao PCC, que movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Parte do metanol importado, que deveria ter outros usos, era desviado para adulterar gasolina.

    Ações do Ministério da Saúde

    O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também se pronunciou nesta terça-feira (30), determinando a notificação imediata de novos casos de intoxicação.

    “Essa notificação imediata é um canal direto com o que nós chamamos de Cievs [Centro Nacional de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde] em cada um dos estados. O ministério acompanha esse trabalho diariamente”, explicou.

    Segundo Padilha, o objetivo é identificar rapidamente novos casos não só em São Paulo, mas também em outros estados.

    “Para que a gente possa identificar mais rapidamente não só o que está acontecendo no estado de São Paulo, mas identificar isso em outros estados do país, algum tipo de crescimento e comportamento clínico e epidemiológico anormal que vai reforçar também as investigações da Polícia Federal e do Ministério da Justiça”, afirmou.

    O que é o metanol

    O metanol é um líquido incolor, inflamável e altamente tóxico. É usado como solvente e na produção de combustíveis, plásticos, tintas e medicamentos, mas não pode ser destinado ao consumo humano. Mesmo pequenas doses podem provocar intoxicação grave e levar à morte.

    A substância também tem sido utilizada pelo PCC para adulterar combustíveis, o que amplia os riscos de sua circulação em redes clandestinas.

    (Atualizado às 12h17)

    Temas nesta notícia