“Agro brasileiro é global, mas não estratégico”, diz Marcos Jank ao apontar falhas estruturais
Especialista alerta para dependência de insumos, gargalos logísticos e ausência de planejamento de longo prazo, mas vê chance de o país ampliar seu papel global

No campo, a transformação segue em curso. Jank destaca a integração entre culturas e energia. “A gente agora tem o DDG que vai revolucionar a pecuária”, afirma.
O Brasil se consolidou como uma potência agrícola global, com o maior superávit comercial do planeta no setor. Ainda assim, opera sem uma estratégia de longo prazo — na avaliação do professor do Insper Agro Global Marcos Jank, uma fragilidade que pode limitar seu próprio avanço. “O agro brasileiro é global, mas não é estratégico”, resume.
Ele deu palestra “Brasil: Agro Global e Estratégico” na semana passada durante a Agrishow, em Ribeirão Preto e deu entrevista exclusiva ao Agrofy News.
Segundo Jank, o problema tem raízes estruturais. “A gente tem uma cultura de curto prazo”, afirma.
O ambiente de instabilidade — com inflação, juros elevados e oscilações políticas — somado ao ciclo eleitoral, dificulta a continuidade de políticas públicas. “Aquele que assume o poder quer entregar as coisas que prometeu nesse período, aí entra outro e desfaz o que o anterior fez.”
O contraste com outros países é direto. “Você vê na China, por exemplo, o partido é sempre o mesmo. As pessoas que mandam são as mesmas. Eles pensam 30, 50, 100 anos na frente.”
Ao comparar, ele cita projetos estruturantes, como a integração bioceânica entre Atlântico e Pacífico na América do Sul, que avançam fora do Brasil, mas aqui seguem travados. “Para eles é coisa concreta, para gente não.”
Apesar disso, o país já demonstrou capacidade de planejamento no passado. Jank lembra a ocupação agrícola do Centro-Oeste como exemplo de visão estratégica de longo prazo — uma capacidade que, segundo ele, foi se perdendo.
Vulnerabilidades expostas
Mesmo com protagonismo global, o agro brasileiro enfrenta fragilidades relevantes. “Somos um dos maiores exportadores de commodities, mas a gente tem hoje vulnerabilidades que a gente não conhecia”, afirma, citando fertilizantes, diesel, logística e armazenagem.
