“Rei do Gado” já explicava os conflitos do agro brasileiro nos anos 90

    Novela de Benedito Ruy Barbosa retratou terra, pecuária, mercado e reforma agrária — temas que ainda marcam o campo.

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    “Rei do Gado” já explicava os conflitos do agro brasileiro nos anos 90
    23deFevereirode2026ás12:22

    Atualizado em: 5 de março de 2026

    Enquanto o Brasil discute reforma agrária, sucessão familiar e expansão da pecuária, uma novela exibida nos anos 1990 já colocava esses temas no horário nobre. “Rei do Gado”, escrita por Benedito Ruy Barbosa, retratou conflitos por terra, mercado do boi e transformações no campo que continuam presentes no agro brasileiro.

    Entre café, gado e conflitos por terra, Rei do Gado antecipou debates que ainda dominam o campo brasileiro, da sucessão familiar à reforma agrária.

    Escrita por Benedito Ruy Barbosa, a trama não apenas contou uma história. Em horário nobre, desenhou um retrato complexo do agro. Um retrato que pode ser lido de A a Z.

    O abecedário do agro em Rei do Gado 

    A — Aviação agrícola e Araguaia

    A tecnologia já aparecia como solução no campo nos anos 30 e 40 no Brasil. Na primeira fase, Antônio Mezenga (Antônio Fagundes) cogita contratar um avião para pulverizar a lavoura afetada pela broca, doença que afetou sua lavoura de café. O avião é uma novidade na época. 

    A região do Araguaia também surge como símbolo de expansão e potencial produtivo. 

    B — Boi, broca e BHC

    O boi representa o futuro do agro na novela. Ainda na primeira fase, Enrico Mezenga (Leonardo Brício) defende ao pai a venda dos cafezais para investir em gado no Centro-Oeste.

    Ao mesmo tempo, a broca-do-café aparece como uma das principais ameaças à produção. O BHC, inseticida altamente tóxico hoje proibido, é citado como solução usada na época.O BHC (Hexacloreto de Benzeno), conhecido como "pó-de-broca", é um inseticida organoclorado altamente tóxico, proibido no Brasil desde 1985. 

    C — Café / Cafezal

    A origem de tudo está no café, cultivado na terra vermelha do interior paulista. Antônio Mezenga e Giuseppe Berdinazzi constroem suas fortunas a partir da lavoura.

    O apego à terra é simbólico: Mezenga diz ter nascido sob um pé de café e morre abraçado a ele. A cana-de-açúcar também aparece, com o retrato dos boias-frias antes da mecanização. 

    cafe-cafezal

    D — Dívida rural

    A dificuldade de acesso a crédito já era realidade. Mezenga reclama da falta de apoio e da necessidade de contrair dívidas para manter a produção e custear a safra

    “São tudo ladri”, dizia ao filho, ao falar do governo. 

    E — Êxodo rural

    A novela expõe o deslocamento do campo para a cidade e as mudanças sociais no meio rural. 

    F — Fazenda

    Mais que propriedade, a fazenda é símbolo de poder, identidade e herança. Após a morte de Giuseppe Berdinazzi, os filhos vendem as terras, inclusive para estrangeiros.

    G — Gado, geada e guerra

    Atividade principal, que move disputas, negócios e estratégias produtivas, é o centro da novela O gado domina a economia da trama. Mas o campo também enfrenta adversidades.

    Cenas de Rei do Gado retratando o campo, a terra e a produção agropecuária

    A Segunda Guerra Mundial influencia fluxos migratórios e investimentos no Brasil.

    Os irmãos Berdinazzi, Geremias e Giácomo quando roubam a mãe, reclamam das geadas do Paraná que afetaram a produtividade do cafezal.  A guerra, segunda guerra também e retratada. Após a guerra, muito imigrantes vieram ao Brasil e investiram em terra e começaram no agro.

    H — Herança

    A sucessão é marcada por disputas. A morte dos patriarcas desencadeia decisões que mudam o rumo das propriedades — como a troca do café pelo gado. Retratada na historia dos filhos Berdinazzi quando o pai morre e eles vendem as terras para plantar em outra região. Quando Antônio Mezenga morre, o filho resolve vender os pés de café e investir tudo em boi, nascia ali O Rei do Gado.

    I — Invasão de terra

    As ocupações são retratadas por personagens como Regino (Jackson Antunes) e Luana (Patrícia Pillar), evidenciando a tensão no campo.

    Na segunda fase, Bruno Mezenga, novamente vivido por Antônio Fagundes, disse que era a favor da reforma agrária, desde que não invadisse a terra dele. 

    rei do gado

    J — Justiça

    A mediação dos conflitos agrários e familiares aparece, muitas vezes, de forma frágil.

    L — Leite

    Na segunda fase, Geremias Berdinazzi (Raul Cortez) se destaca como grande produtor de leite, mostrando diversificação na atividade rural.

    M — Mercado do boi

    Preço, negociação e estratégia fazem parte do dia a dia da pecuária, tanto na primeira quanto na segunda fase.

    N — Negociação de terras

    Compra e venda definem o controle do território. A negociação do café também aparece, com produtores sendo prejudicados.

    Enrico consegue renegociar a dívida do pai, mas chega tarde: Antônio Mezenga já havia morrido quando ele vai contar ao pai.

    O — Ocupação

    As disputas por terra se intensificam com os movimentos organizados no campo.

    P — Procuração / Pasto / Pantanal

    A procuração surge como instrumento de poder e também de conflito familiar.

    O pasto representa a virada produtiva: “Vamos vender os pés de café e plantar pasto”, defendia Enrico Mezenga para o pai.

    Já o Pantanal simboliza a expansão da pecuária na segunda fase. 

    Q — Questão agrária e queijo

    A distribuição de terras permeia toda a narrativa.

    Ao mesmo tempo, a produção de leite de Geremias abre espaço para derivados, como o queijo, reforçando o lado produtivo.

    R — Reforma agrária

    Tema central, levado ao debate político e social ao longo da trama.

    S — Senado / Sucessão familiar

    A política entra em cena com o senador Caxias (Carlos Vereza), aliado de Bruno Mezenga.

    Antes de morrer, ele deixa um apelo a Regino:

    “Me prometa uma coisa: não deixe que essa morte seja à toa, Regino. (...) Esse é o sonho da minha vida: paz! Violência, não!”

    Ao mesmo tempo, a sucessão familiar mostra que os maiores conflitos podem estar dentro da própria família.

    T — Terra

    A base de tudo. Ativo econômico, símbolo de poder e elemento central de todos os conflitos.

    U — Usucapião / Unidade produtiva

    A novela toca, ainda que de forma indireta, nas disputas por posse da terra.

    A fazenda aparece como unidade produtiva — onde se concentram gestão, produção e poder.

    V — Veneno / Venda de terras para estrangeiros / Venda de gado

    O uso de defensivos agrícolas — popularmente chamados de “veneno” na época — aparece de forma informal na primeira fase. O termo reflete a falta de informação e o vocabulário comum daquele período, já que não havia a mesma clareza técnica sobre o uso e a classificação desses produtos como existe hoje.

    Após a guerra, estrangeiros passam a investir em terras no Brasil.

    E a venda de gado reforça o agro como cadeia econômica estruturada.

    X — Xadrez político

    A disputa pela terra extrapola a fazenda e chega às instituições, envolvendo estratégia, poder e interesses. Disputa que envolvem terra, reforma agrária e decisões no Senado.

    Z — Zebu

    Base da pecuária brasileira, o zebu simboliza adaptação e produtividade no campo. Um dos personagens mais marcantes da novela é Zé do Araguaia (Stênio Garcia), que carrega no nome a região onde nasceu e foi criado, em Goiás — estado que também abriga a principal fazenda de Bruno Mezenga (Antônio Fagundes), seu patrão. Ao longo da trama, ele acompanha de perto a formação da propriedade, ajudando o pecuarista a derrubar as primeiras árvores e a implantar as pastagens iniciais.

    Retrato

    Décadas depois, os temas continuam atuais.

    Mudaram as tecnologias, aumentou a escala, mas os dilemas seguem praticamente os mesmos.  dentro e fora da porteira.

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