“Rei do Gado” já explicava os conflitos do agro brasileiro nos anos 90
Novela de Benedito Ruy Barbosa retratou terra, pecuária, mercado e reforma agrária — temas que ainda marcam o campo.
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Atualizado em: 5 de março de 2026
Enquanto o Brasil discute reforma agrária, sucessão familiar e expansão da pecuária, uma novela exibida nos anos 1990 já colocava esses temas no horário nobre. “Rei do Gado”, escrita por Benedito Ruy Barbosa, retratou conflitos por terra, mercado do boi e transformações no campo que continuam presentes no agro brasileiro.
Entre café, gado e conflitos por terra, Rei do Gado antecipou debates que ainda dominam o campo brasileiro, da sucessão familiar à reforma agrária.
Escrita por Benedito Ruy Barbosa, a trama não apenas contou uma história. Em horário nobre, desenhou um retrato complexo do agro. Um retrato que pode ser lido de A a Z.
O abecedário do agro em Rei do Gado
A — Aviação agrícola e Araguaia
A tecnologia já aparecia como solução no campo nos anos 30 e 40 no Brasil. Na primeira fase, Antônio Mezenga (Antônio Fagundes) cogita contratar um avião para pulverizar a lavoura afetada pela broca, doença que afetou sua lavoura de café. O avião é uma novidade na época.
A região do Araguaia também surge como símbolo de expansão e potencial produtivo.
B — Boi, broca e BHC
O boi representa o futuro do agro na novela. Ainda na primeira fase, Enrico Mezenga (Leonardo Brício) defende ao pai a venda dos cafezais para investir em gado no Centro-Oeste.
Ao mesmo tempo, a broca-do-café aparece como uma das principais ameaças à produção. O BHC, inseticida altamente tóxico hoje proibido, é citado como solução usada na época.O BHC (Hexacloreto de Benzeno), conhecido como "pó-de-broca", é um inseticida organoclorado altamente tóxico, proibido no Brasil desde 1985.
C — Café / Cafezal
A origem de tudo está no café, cultivado na terra vermelha do interior paulista. Antônio Mezenga e Giuseppe Berdinazzi constroem suas fortunas a partir da lavoura.
O apego à terra é simbólico: Mezenga diz ter nascido sob um pé de café e morre abraçado a ele. A cana-de-açúcar também aparece, com o retrato dos boias-frias antes da mecanização.

D — Dívida rural
A dificuldade de acesso a crédito já era realidade. Mezenga reclama da falta de apoio e da necessidade de contrair dívidas para manter a produção e custear a safra
“São tudo ladri”, dizia ao filho, ao falar do governo.
E — Êxodo rural
A novela expõe o deslocamento do campo para a cidade e as mudanças sociais no meio rural.
F — Fazenda
Mais que propriedade, a fazenda é símbolo de poder, identidade e herança. Após a morte de Giuseppe Berdinazzi, os filhos vendem as terras, inclusive para estrangeiros.
G — Gado, geada e guerra
Atividade principal, que move disputas, negócios e estratégias produtivas, é o centro da novela O gado domina a economia da trama. Mas o campo também enfrenta adversidades.